Derrubada

por Américo Paim

O cemitério do Campo Santo cheio. Calor do verão soteropolitano. Iria piorar na hora do enterro de Turíbio, às onze. A capela lotada, já às nove. Janelões escancarados. Rezas pelo morto ou por uma brisa. Maquiagens derretendo. Nas camisas sociais, manchas de suor. Grandes e pequenos óculos escuros. Sorrisos discretos e olhares de inquisição. Flores por todo canto. Ventilador barulhento. Tudo muito típico. E tome gente chegando.

– Porra, Arnoldinho, que merda.

– Ia me deixar sozinho nessa, véi?

– O síndico é você, mermão.

– Eu não podia faltar.

– A gente fala com a viúva e vaza, certo?

– Não, pega mal. Guenta aê.

– Calor da mulesta…

– Tá foda…

– Rapaz, que viúva gostosa.

– Que é isso, André? Mais respeito.

Núbia e Osvaldo chegaram tensos. Foram direto à viúva. Mais um casal entrou misturado a outras pessoas: Maurício e Rejane. Ela chamou a atenção, arrumada demais. Tinha reunião de trabalho perto do almoço. Veio pronta. Seu marido, cara fechada, procurou Lisete com os olhos. Respirou aliviado porque ela não estava. Depois resolveria a situação. Levou Rejane para um espaço menos cheio. Conversaram de pé, não havia mais cadeiras. Acertaram que o carro ficaria com ela e ele voltaria de carona.

– Não devia ter vindo no salto.

– Avisei. Não reclama agora.

– Deus do céu, Maurício, aquele é Gilmar?

– Quem?

– Camisa clara, junto da mesa do padre.

– Sei lá. Deve ter uns vinte anos que vi o cara.

– Tá acabado…

– O tempo derruba. Queria o quê?

– Misericórdia divina! Se ele tá assim, como será que ele me vê?

– Bebeu escondida? Que papo é esse?

– Lógico! Temos a mesma idade.

– Garanto que não tem nada a ver.

– Viu como foi bom eu me arrumar toda?

– Rapaz, ninguém tá ligando.

– Hum hum… É só ter uma mulher aqui, meu querido.

– Isso é verdade. Bastaria uma.

A polícia avisou que ninguém do edifício saísse da cidade. Previsível, por causa da investigação. O Miragem ficou famoso com a morte de Turíbio, o ex-síndico. Foi um acidente, está nos jornais. Não foi empurrado escada abaixo, uns afirmaram. Uma queda influenciada, disseram outros. Dentro da capela, vizinhos se olhavam com desconfiança. Celina e Rosalvo entraram sem estardalhaço.

– Que povo todo é esse, bem?

– Não lhe disse, Cel?

– O Natal foi ontem.

– Tem morto todo dia.

– Mesmo assim.

– Finado ficou conhecido.

– Infeliz, o coitado.

– Uma morte besta, né?

– Dá uma pena de Zuleide.

– Bobagem… Jovem, bonita, tudo em cima ainda.

– Se plante, viu? Deixe de gaiatice.

– Agora tá… Ciúme no enterro?

– Corto seu saco na noite escura.

– Peraê, mulé, sossega.

– E ela vai ter coragem de aparecer?

– Lisete?

– Gostosa, vadia, puta, só pensa nisso?

– Repare quem quer confusão…

– Junte suas pulgas e procure outro cachorro. Tô falando de Lourdes.

– Vixe, será que vem?

– Hoje é dia de um tudo.

Feito filme de faroeste, todos olharam quando Carlão surgiu. O ex-zelador do prédio, bonito e fortão, causou. Quis homenagear o defunto, por quem tinha afeto. Zuleide, a viúva, ficou na mira de muitos na mesma hora. Nem deu espaço. Se manjou o garanhão, foi escondida pelo Ray-Ban. Risos e fofocas pelos cantos. Um ultraje o cara estar no velório de quem ele deu corno. A transa na escada na garagem agora era conhecida no edifício. Homens desejando e mulheres chocadas, essa era a pura verdade. Puxando Arnoldo pelo braço, André lembrou como o morto soube. Grande sacanagem Altino contar daquele jeito. Certo, Turíbio tratou mal a mulher de Altino, mas ela procurou, chamando o sujeito de ladrão. Lógico que Altino ia tomar as dores da esposa. Tivesse só aliviado os detalhas sobre a cena de Zuleide e Carlão… Doido de raiva, o chifrudo foi atrás de Zuleide. Bateu boca com a cara-metade, ficou abafado, vacilou e rolou escada abaixo. Muita coincidência: escada na traição e na morte. Um tanto de preocupação fez Arnoldo agir.

– E aí, Carlão, beleza?

– Diga, Seu Arnoldo.

– Papo reto, que porra cê tá aqui, véi?

– Seu Turíbio me ajudou muito.

– Massa. Aí você pagou com chifre.

– Isso não foi bem assim.

– Oxe, eu peguei você e a criatura na função.

– Na gastura o senhor sabe como é…

– Quem, eu? Nunca comi.

– Calma aí, Seu Arnoldo, respeite.

– Tá maluco? Velho, vai embora.

– Beleza, tá bom. Só vou falar rápido com Dona Zuleide.

– Agora é “Dona”? Reza ali na beira do caixão e vaza logo.

O sujeito entendeu o recado. Só que não deu tempo. Entraram Altino e Lourdes, sua mulher. Faltou energia na mesma hora. Muitos acharam coincidência. Alguns disseram ser coisa do capiroto. Lourdes decidiu que viriam. Disse que tiraria um pouco da pressão sobre eles. Não havia dúvida que foi um acidente. Verdade que Altino sentia alguma culpa. Homem sensato, perdeu a linha por causa do entrevero entre o morto e Lourdes. Pegou pesado na discussão com Turíbio minutos depois, reconhece. Resignado, veio ao velório por causa da insistência de Lourdes. Criatura de pavio curto, ela estava até calma. Quem sabe ficasse quieta num canto, porém, não foi assim. Teve a ideia de se chegar no caixão e ver o desafeto. Juntou um monte para aconselhar, mas não adiantou. Zuleide partiu para ela.

– Veio ver o quê, sua puta?

– Alto lá!

– Desgraçada! Ele morreu por sua causa!

– Oxe? Bateu a caçoleta porque descobriu o corno, isso sim!

– Prove, vadia!

– Não precisa, sua rameira. A Bahia toda sabe!

– Meu marido morreu em paz!

– Quem não ficou bem foi o povo todo que ele roubou!

– Sua gorda velha mentirosa!

– Ladrão, sim! Roubou o condomínio quando era síndico!

– Respeite o velório, cadela!

– Isso aqui é uma pouca vergonha. Ainda trouxe o amante, nigrinha?

– Cala a boca, sua recalcada!

– Essa é boa. Morreu e virou santo? Me abrace…

A frase foi levada a sério. Enquanto deu, a turma segurou. No primeiro vacilo, Zuleide voou em Lourdes. Se atracaram. Foi muito rápido. Bateram com tudo contra o caixão, que tombou, ejetando o indefeso Turíbio. Ignorando isso, na raiva, as mulheres tropeçaram e caíram sobre o cadáver. Um cenário bizarro: as duas no chão, emboladas com o corpo, flores e adornos. Carlão ajudou Zuleide a se levantar, o que só piorou as coisas. O calor seguia insuportável. Vinte para as onze e nada de voltar a energia. Gritos, pessoas desmaiadas, correria. Partidários de cada lado trocando empurrões, tapas e ofensas. Logo os funcionários do cemitério chegaram. Zuleide pediu e uns amigos recolocaram o corpo no esquife. Depois de muito trabalho, a sala foi evacuada. Homens da segurança ameaçaram chamar a polícia. Muita conversa para o padre fazer a missa. Julgando tudo resolvido, Zuleide foi ao caixão, nervosa. Tudo parecia normal, mas ela convocou o administrador do cemitério.

– Sumiu o terço de ouro de Turíbio!

– Minha senhora…

– Tem que aparecer!

– Estamos muito atrasados!

– Pense que não vai ter enterro!

– Calma…

– Alguém roubou na confusão!

– Deve ter caído no chão.

– Isso! E pegaram!

– Fica difícil revistar todo mundo.

– Resolva, resolva!

– Já olhou na roupa do falecido?

– O senhor acha que não?

– Quem sabe ficou embaixo do corpo?

Convenceu a viúva que tudo era possível. Difícil foi fazer os funcionários levantarem o defunto. O caixão tudo bem, mas pegar no morto, não queriam. Arnoldo salvou o dia oferecendo um por fora. Segura aqui, ajeita ali, procura acolá e nada. Enfim alguém viu uma ponta de corrente dourada. Bem na região do cofrinho do infeliz. Uma mulher riu que o falecido estava sem cinto. Não faltaram comentários maldosos. Resgatado o terço, arrumaram morto e flores de novo. Quando concluíram, a luz voltou.  Pressionado, o padre rezou uma missa pocket.  Tudo se encerrou e o féretro seguiu seu destino. Muito atrasada, Rejane saiu um pouco antes. Já na rua do Alto das Pombas, indo para o carro, encostou o flanelinha. Ligado na cena, mas na outra calçada da rua, outro flanelinha seguiu junto, gritando bobagem para o colega.

– Pronto, tia, tudo certo.

– Tá louco? Tia? Quer ficar sem dinheiro?

– Não, freguesa, a senhora tá nova.

– Ah, bom… Lhe digo é nada…

– Fiu fiu!

– Cala a boca, seu mané, fica na sua aê. Aqui não é pro seu bico, não!

– Oxe, eu que nunca peguei uma derrubada dessa!

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