Leandro Reis
No dia do aniversário da Sra. Pandora, encontrei um buraco atrás do vaso, por onde ela pretendia inalar o gás quando entrasse a madrugada. O plano era antigo e a Sra. Pandora vinha fazendo segredo até para o porta-retrato carcomido do marido. Você conhece essa rotina, Pombo: os traficantes de gás estacionam nos fundos do prédio, invadem a tubulação com a mangueira e despejam no apartamento do cliente. É o negócio mais lucrativo desde os saleiros que explodiam, ou os canudos escondendo fios desencapados.
– Espero não descobrir mais nenhuma gracinha, Sra. Pandora. A senhora pode pegar até seis meses de gaveta se eu achar um garfinho sequer.
Você sabe o quanto isso me entristece, Pombo, ameaçá-los. E o quanto nos enlouquece, a cada de um de nós, viver desconfiando. Eu quase disse isso a ela, num arroubo de sinceridade. Mas Pandora é pura e implacável inexpressão, Pombo. Remédios. Provavelmente a GHT ou a 348, a versão metida, que vem do mundo de lá. Do seu mundo, Pombo.
– O pior é a volta, Sra. Pandora, perceber que a gente não se foi.
Há muito tempo eu já abandonara o slogan da Empresa, Pombo. Hoje pode ser o primeiro dia do resto da sua vida. Isso pode manter um estúpido por uns meses, mas não a Sra. Pandora. Atrás do cenho cadavérico havia uma revolta convicta e racional. E quando queria se comunicar, olhava pro retrato do marido depois de uma pergunta minha. Como se o libertasse pra me assombrar, Pombo.
– Se eu abrir o fundo falso do armário da cozinha, vou achar uma escova de dentes lascada, ou uma forca feita de linguiças congeladas, Sra. Pandora?
Ela olhava pra pia da cozinha, ou pra janela acima do fogão, onde as telhas de zinco despontavam atingidas pela chuva. Os incêndios agora são constantes, Pombo, e um sujeito pode ficar assistindo pela janela, como a um programa de tevê, até que a chuva os apague. Não que a Sra. Pandora precisasse de distrações para se distrair. Era como se eu não estivesse lá. Sim, eu podia recorrer à força, Pombo. Eu podia dizer aquilo, como o outro Verificador: muitos maridos, esposas e filhos partiram sem velório nem enterro, todos estamos sob o jugo da lei. Mas aqueles olhos dormentes me deprimiam, Pombo. Quando ela entrava nesse transe, eu dava a verificação por encerrada e descia.
Lá embaixo a chuva tinha diminuído, clareando a visão da Catedral. Mesmo na noite avançada, as formas neogóticas se destacavam nas ruínas da Cidade Alta. A Sra. Pandora devia tirar sua persistência em me enganar daquela paisagem morta-viva, Pombo.
Pensando nisso, sentei na Praça da Catedral e fumei cigarros até a boca ficar seca. Em frente às portas fechadas da igreja, cachorros farejavam o entulho escorrido de uma caçamba. Peguei o celular e notei que ainda tinha um bloco inteiro pra verificar. Atrás da torre da Catedral, projetado no céu noturno, o brasão da Empresa lembrava do recorde atual: zero suicídio, há dois meses e vinte e três dias, duas horas e quarenta e oito segundos.
***
Os incêndios duraram a noite toda, Pombo, apesar da chuva. Quando acordei a fumaça preta ainda cobria o bairro e as fuligem tremulava no ar. Saí bem cedo, escutando meus passos na rua até o próximo setor habitado. Um hidrante jorrava água da esquina da padaria, onde eu planejava tomar café, alagando toda a quadra. Mas as pessoas continuavam ali, Pombo, em fila indiana diante de uma barraca improvisada com tapumes e lonas. A água batia no meio das canelas, mas elas seguravam os potes vazios com fervor. Me pergunto quando irão entrar na minha rota, ou na sua antiga rota, Pombo, quando perderão toda a esperança, ou terão a coragem de se dar conta de que já a perderam, talvez há muito tempo.
Ignorei a fome e continuei andando. Eu tinha tempo, Pombo, minha ronda só começava às oito. Caminhava pelas ruas olhando pro chão, para as poças d’água que refletiam os primeiros sinais de um sol encoberto. Vagar por espaços vazios é como burlar o tempo, Pombo, como fazíamos dias depois da Onda, longas caminhadas atravessando a cidade deserta. Tenho essas imagens na cabeça, imagens persistentes, de um passado que já suspeito. Não sei como era a vida antes. Agora carrego num celular planilhas que me dizem como será o amanhã caso eu não as preencha. Sou o homem que entra nos apartamentos pra garantir que quem estiver lá continue a viver num presente eterno. Que tipo de trabalho é este, Pombo? Um mensageiro do nada contínuo.
Andei até a Cidade Baixa, onde fiz a ronda das mais descuidadas, Pombo. Arrastava móveis, checava paredes, revistava roupas e animais domésticos, perguntava, perguntava, perguntava. Confesso que recorri ao slogan da Empresa quando já não via ou ouvia nada do que me falavam, afogados em lamúrias. Tinha entrado no pântano da Sra. Pandora.
– Hoje pode ser o primeiro dia do resto da sua vida, Sr. Agá.
E o Sr. Agá me olhava com uma raiva ancestral, repuxando o canto do lábio, um tique que devia se acentuar a cada verificação. Depois fechava os olhos e tomava suas pílulas, esperando não acordar. Mas acordaria, Pombo, em algum ponto da semana, comigo batendo de novo à sua porta.
No fim da ronda, meus pés já andavam sozinhos para a Praça da Catedral. Um hábito que foi se construindo ao acaso até virar um ritual desde que a Sra. Pandora entrou na minha rota. Mas antes de atravessar a rua, um ponto amarelo no muro à frente do prédio me chamou atenção. Era um crisântemo, pregado junto de um folheto, Pombo. Depois que você saiu da cidade junto com os outros, a Comissão foi se instalando em pontos centrais, espalhando a palavra. Eu já tinha ouvido falar neles, mas às vezes quando se vê algo bem diante de si, uma pessoa cética pode começar a acreditar em presságios.
Não acredita que hoje será o primeiro dia do resto de sua vida? Reuniões às terças e quintas, às seis e às oito. E um endereço logo abaixo das letras garrafais. Não sei dizer, Pombo, por que eles ainda se davam ao trabalho de codificar as mensagens. Àquela altura todos sabiam dos enterros clandestinos. Sobretudo as autoridades, que podiam erradicá-los, se quisessem. Também não sei dizer por que não o fazem, Pombo. Tudo é e não é, como você costumava falar, quando raramente o fazia. Arranquei a folha do muro, deixando o crisântemo cair no chão, e o costume me fez olhar para todos os lados, como se pudesse haver alguém.
A casa ficava nos arredores de um parque, onde o fogo ainda agonizava. Dois homens fumavam no portão, olhando o mato que crescia ladeando a rua de pedra. Resolvi esperar um tempo na esquina. As pessoas entravam a cada cinco ou dez minutos, em duas ou três, nunca sozinhas. E se descobrissem que eu era Verificador, Pombo? Iam me escorraçar dali, no mínimo, se não fizessem pior. Mais um pouco e vou embora, pensei, Pombo, mentindo.
Os homens apagaram os cigarros quando viram um carro todo preto se aproximar. As portas de trás se abriram e do interior surgiu um caixão, acomodado nos ombros de quatro voluntários. Eu não era um deles, Pombo, mas entrei no rastro de seus passos, garantindo que ninguém me visse, nem perguntasse nada, oculto pelo caixão até um pátio nos fundos da casa.
Pelo menos vinte pessoas se amontoavam debaixo de uma tenda. Fiquei ali, margeando a cena, enquanto duas mulheres arrumavam uma rápida decoração com arranjos de crisântemos amarelos. Percebi que uma mulher esticava o pescoço entre as pessoas, espremendo os olhos na minha direção. Coloquei a mão no bolso, apertando o celular, como se fosse sacá-lo, ou destruí-lo, quem sabe no que eu estava pensando, Pombo?
– Você tem o rosto de um parente? – ela perguntou, sorrindo melancolicamente, como se me oferecesse os pêsames.
– Como?
– O rosto de um ente querido, um amigo.
Fiquei olhando sem saber o que responder, e apenas balancei a cabeça pros lados. Depois entendi, Pombo, e minhas pernas chegaram a tremer. Os homens que estavam no portão se aproximaram, um em cada ponta do caixão, e removeram a tampa, revelando um morto qualquer.
Em seguida os homens do portão se afastaram e de repente todos imergiram num silêncio, tendo só as mãos falando por si. Ao meu redor – pois me vi no centro da roda, diante do caixão – as pessoas davam um passo à frente e depositavam em cima do morto uma folha ou uma fotografia, substituindo seu rosto comum por quem desejavam velar. Na minha mente surgiu o retrato puído do marido da Sra. Pandora, e desabei.
O silêncio persistia no pátio, Pombo, enquanto eu tentava conter os espasmos no peito e a água correndo dos olhos, andando o mais rápido que podia até o portão. É possível asfixiar-se com o choro? Assim que eu me sentia, sufocado. Desde quando eu não chorava, Pombo? Não me lembro se chorei quando você foi defenestrado. Vendo que eu me curvava, quase tocando as mãos na terra imunda da rua, os homens do portão me acudiram. Um deles colocou um latão de lixo na minha frente, e vomitei. O outro me deu água e um cigarro. Disse que era como o primeiro cigarro do dia, Pombo. Pensei se não fazia uma troça com a Empresa. Mas ele não riu, Pombo.
