Leandro Reis
Há uma mulher e uma pilha de folhas. Ela está sentada numa cadeira de ferro diante dessas folhas, cuja inércia se deve à ausência de janelas do cômodo que percebemos habitar ao nos afastarmos do centro dele. Quando terminamos de fazê-lo, encostados nas paredes – ou talvez dentro delas, espiando por um buraco ou por uma parede disfarçada de vidro, como nos filmes americanos – percebemos que não podemos mais nos mover, nem para frente, nem para os lados. (Poderíamos pular ou agachar, mas não há muito sentido nesses movimentos.) Estamos condenados a assistir a essa mulher e ao movimento que ela não completa, levantando as mãos, como se fosse tocar na pilha de folhas, mas recuando e olhando para a porta, como se alguém fosse entrar. E alguém entra. Esse alguém é um homem baixo, vestindo terno e calças sociais muito grandes para o seu corpo; não chega a ser um anão, parece uma criança com feições de velho. Seguramos o riso, embora ninguém possa nos ouvir, pois esse homem é isto, uma figura digna de riso, elevando-se na ponta dos pés para acionar um ponto metálico que brilha na parede, que a nossos olhos imóveis lembra um registro hidráulico. Ele finalmente o alcança e passa a girá-lo, surgindo um rumor de corda esticada ou nó apertado a cada volta do registro, talvez sugerindo um ato grave, um enforcamento ou uma esganadura ocorrendo em algum lugar fora da sala. Depois de apertado até o fim, o registro torna a retroceder, lentamente, junto com o tique-taque de um ponteiro ou uma bomba – como nos filmes americanos. Enquanto o homem sai do cômodo, a mulher destrava os braços erguidos diante da pilha de folhas e abre uma gaveta debaixo da escrivaninha; passa a tirar dali algumas folhas avulsas e as coloca do lado da pilha, antes de movê-la para mais perto de si e nos mostrar – sem querer, ou ainda sem saber que a vemos desde antes da entrada do homenzinho na sala – que a pilha está dividida por cores, como as lombadas dos livros, pintadas talvez com marca-texto, pois são cores fluorescentes que cintilam diante de nós na sala asséptica; e então seus movimentos começam a se apressar, como se a próxima fase do procedimento fosse automática, exigisse menos cuidado do que pegar as folhas na gaveta: agora ela move as pilhas das cores azuis e vermelha entre as outras, sem misturá-las, apenas trocando a ordem das cores; com a mesma pressa, recorre à pilha de folhas avulsas que havia retirado da gaveta e as põe no meio das coloridas, aleatoriamente, pela primeira vez violando a unidade das lombadas; e recolhe os braços por alguns segundos, contemplando o trabalho que parece terminado. O registro continua seu tique-taque de bomba-relógio. Sem os gestos da mulher para nos atrapalhar, conseguimos distinguir algumas letras grafadas nas lombadas, As, Erres, Dês, Agás, sugerindo um dicionário ou uma enciclopédia, uma lista de coisas ou nomes. A mulher estica os braços com cuidado e seleciona com os dedos uma lombada, em seguida a puxa com violência, como se faz com um tapete ou um pano que estivesse sob uma mesa posta, sem derrubar os objetos sobre ela, como o fazem os personagens de desenho animado. Deve ter escolhido a letra A (de nosso ângulo não podemos ver), já que na primeira folha se lê em letra manuscrita: A travessia. Ela passa a página e começa a ler, em voz alta: “No inverno, a luz não batia na entrada da caverna, de modo que poucos sobreviviam ao frio e sobretudo ao escuro. Os moradores do povoado não os ajudavam porque sentiam asco de suas feridas. Por sua vez, os encavernados não conseguiam sair do fundo da caverna, pois não tinham a energia que a luz poderia prover. Sobreviviam comendo insetos que caíam nas costas e nas barrigas como chuvas esparsas. A única esperança eram as irmãs gêmeas que haviam nascido sem os ferimentos, e que agora teriam idade para tentar cruzar o mangue até a cidade e pedir ajuda, antes que o inverno começasse. Quando saíram da caverna, no entanto, um homem as esperava com uma charrete. As irmãs não recusaram uma carona, embora não soubessem para onde – qualquer lugar longe dali seria melhor. Ao chegarem à beira do mangue, o homem mandou que descessem e perguntou pela Palavra. Que Palavra, as irmãs responderam. A Palavra que permite a travessia, ele disse. Mas elas não sabiam. O homem não gostou de ouvir que elas não sabiam. Mas disse que poderia levar uma delas, caso a outra se sacrificasse em homenagem à Palavra. Elas de novo não sabiam o que dizer. O homem então se adiantou e cortou a garganta de uma delas e jogou o corpo no mangue. A outra chorou e deu a mão a ele, para que começassem a travessia. E então, na paisagem silenciosa, um ruído de corda esticada, um nó se aprofundando em algum lugar perto dali, ou acima daquele mundo, fora dele.” Na sala, o homenzinho de terno desce do banco de madeira que o ajudou a virar o registro, iniciando a contagem regressiva cuja duração só ele sabe. A mulher se debruça sobre o procedimento, pega as folhas da gaveta, move as lombadas de lugar e as viola com as páginas avulsas. Retira uma letra da pilha com seu gesto melodramático, deixando ver de relance, pela curva que parece tracejada dentro da mancha vermelha na lombada, que escolhe a letra Cê: Composição. “Porque não permitia nenhum ruído no quarto, o pianista tocava dentro de uma bolha de suor que embaçava as janelas e mofava paredes e móveis. Compunha uma canção, ou uma parte dela, obsessivamente, como se fosse morrer a qualquer momento. Por horas ou dias ou meses a fio, pela fresta da porta só se ouviam as mesmas notas, que cresciam rápidas, frenéticas, atropelando-se, e depois desaguavam num mar melancólico, quase parado. Mas, apesar das janelas cerradas, apesar da porta trancada, um barulho repetitivo começava a se sobrepor à música. Vinha do quarto, mas ele não podia identificar o lugar exato. Foi parando de tocar lentamente, tentando surpreender o ruído quando se apresentasse. Quando parou, percebeu que vinha do interior do piano. Parecia que arranhavam as paredes internas, tentando escapar. Um rato. Descoberto, não disfarçava mais seus movimentos pelas cordas do piano, que passou a dilacerar com as garras e os dentes. O pianista não via muita saída exceto continuar tocando, com mais vigor e velocidade, tentando ensurdecer o rato ou desorientá-lo. Mas as teclas é que estavam mudas. Depois de muito tempo, o pianista resolveu abrir o quarto. Voltou com uma caixa de ferramentas, já aberta, derramando as chaves no chão, buscando uma que servisse enquanto o rato tentava subir à superfície forçando as teclas do piano com a cabeça peluda. O pó da madeira roída já se espalhava pelo quarto quando o pianista conseguiu desmontar o instrumento. Dentro do piano, nada exceto fiapos de cordas e marcas de patinhas pela caixa. Com o piano destruído, podia enfim abrir a janela e tomar um vento. Mas quando o fez, seu corpo desabou no chão, tapando os ouvidos, protegendo-se de um tique-taque assombroso que vinha da rua.” Enquanto o homenzinho arrasta o banco para dentro da sala, a mulher guarda o maço de folhas na pilha. Ele sobe no banco e gira o registro, ecoando no cômodo o som de um enforcamento, uma corda esticada, uma esganadura. E depois um tique-taque de bomba-relógio, como nos filmes de ação.
