por Américo Paim
Escrever sobre palavras. Espera. Isso não seria algo como negrito, “por cima de”? Acho que você foi na direção de “a respeito de” e está certo, mas palavras enganam, nem sempre é tudo ao pé da letra. Aliás, letras nem têm pé. São ápodes? Por que não “despodes”? Porque essa palavra nem existe. Ué, o “des” não é usado para negação? Complicado, né? Ah, olha a grafia, não vá separar “com” de “plicado”. Muda tudo, deixa de ser difícil, continua sem ser fácil, e cheio de dobras e pregas. Palavras podem ser estranhas e até divertidas. Vou expender aqui. Opa, empecei, né?
Uma das primeiras curiosas foi minha mãe quem falou: faniquito. “Menino, deixe de faniquito!”. Significa chilique. Ajudou? Outro sinônimo é “fricote”, mas se você tiver a minha idade poderá confundir com a dancinha da música homônima de Luiz Caldas. Deixa quieto… Outra boa ouvi de meu avô. Aviso que há escatologia, que já é uma palavra curiosa. Na escola aprendemos que “logia” significa estudo. E “escato”? Se quiser aliviar, quer dizer último, extremo. É do grego. Sabemos que não pensou nisso. No fim, sem trocadilho – olha outra boa – dá no mesmo. Voltemos a meu avô. Era uma pergunta quase sempre matinal: “o senhor já obrou hoje?”. O obrar aqui não é realizar, fazer, é defecar. Sim, isso mesmo. Me custou um bom tempo para aceitar outro significado para “obrar”.
Meu irmão diz que a palavra mais estranha que conhece é fronha, aquela do travesseiro. Experimente isso: franza o nariz e fale bem devagar “frooooonha”. Eu não sei explicar, mas não é que há uma sonolência envolvida? Esquisito. Uma outra que usei certa vez quase custou uma amizade. A questão é que o sujeito tinha uma cara meio redonda, prato cheio para o mundo infantil masculino cruel. Virou “cara de sapo” ou “sapo”, apenas. Juro que não fui eu quem criou o apodo. Hein? Um dia, querendo impressionar, o chamei de batráquio. Pense numa raiva que o cara pegou. Fui explicar e quase a gente sai na mão. Contornei, o que não quer dizer que arrodeei. Ficamos em paz. Ainda gosto do som da palavra batráquio e sempre lembro dele.
Outra boa foi um amigo meu quem falou, na época ainda estudante de Direito, em um bar com colegas. Acenou para o garçom: “ô, estoércio!”. Ele veio. A cena se repetiu mais duas vezes. Intrigado, um amigo nosso lhe perguntou o porquê de chamar o cara assim e ouviu uma resposta séria, que era daquele jeito que os garçons eram chamados em outros tempos. Ele acreditou e começou a fazer o mesmo e garantiu nossas risadas pelo resto do dia. Não vá ao pai dos burros (pensando bem, vá, é um ótimo livro do Werneck) atrás de exegeses. Opa, nesse caso, vá. Aliás, velho, nada disso tem a ver com os muares. Mas saiba que o pai do burro é o jumento. Isso, eles não são o mesmo animal. A mãe é a égua. Estoércio era apenas um nome próprio, de uma pessoa ligada à Justiça.
E aquela vez em que eu quis dar uma de intelectual e me dei mal? Meu pai um dia de despediu de mim em uma ligação telefônica dessa maneira: “um ósculo e um amplexo”. Não entendi e ele me explicou. Achei chique, mesmo sendo coisa antiga. Na primeira oportunidade, mandei ver a mesma coisa para uma menina por quem estava interessado. Não sei a razão, mas se aborreceu, disse que eu não tinha o direito de falar daquela forma com ela. Fiquei na rodagem esperando ponga. Bateu o telefone na minha cara. Calma, não me agrediu, só encerrou a ligação de forma abrupta. Que palavrinha essa também…
Nem tudo dá com os burros n’água, porém. Houve uma namorada, do litoral do Rio de Janeiro, que tinha um jeito de falar que me soava dengoso, com um sotaque peculiar – aí está outra curiosa. Ela gostava do meu baianês e eu curtia ouvir algumas palavras que ela falava. Uma delas era canga, aquela saída de praia. Achava lindo porque ela demorava no “can”. Coisa de paixão, né? Como íamos muito à praia, o namoro durou. Ah, o baianês tem muitas palavras novas divertidas e o uso de outras comuns pode ser hilário. É o caso de “chegar”. Por mais absurdo que possa parecer, o baiano fala “vou chegar” se quer lhe dizer que vai embora. Maluquice (essa é bem engraçada). Da mesma forma, o baiano que quer confirmar que sabe sobre algo, diz: “e eu não sei?”; quando quer falar o contrário, ele usa: “e eu sei?”. Véi, me bata um abacate, viu? Opa, estorvei…
E se eu lhe pedir um obséquio? Meu avô de novo: “pode me obsequiar e trazer um copo d’água?”. Eu ia sem fazer ideia sobre o que ele falava. Pensando bem, nem sei o que é pior: não saber o que significa ou saber, e sair falando e escrevendo errado, por causa da maneira que se ouve outra pessoa falar. Explico com dois exemplos. Na minha infância, na casa dos nossos vizinhos tinha um móvel que eles chamavam de “sumiê” (eu entendia assim). Senta ali no sumiê. Parem de se jogar no sumiê. Nem é português! É sommier, que não é o nome do móvel, mas da base do mesmo, por exemplo caixa e estrado de uma cama box. Demorei a descobrir essa. Outra é do baianês mesmo: “deixe de aleotria comigo”, ou seja, de deixe de palhaçada, de presepada. Quando se fala, sai “liutria” e pior: uma ou outra nem existem na formalidade! Só no baianês.
Agora, vejamos umas estranhas, que causam sensações estrambóticas só de pensar. Primeiro: oxiúros. Pense numa palavra feia. Se você, ainda criança, escuta que está com oxiúros, começa a se coçar e já entende que está à beira da morte, questão de minutos. Outra boa: furico. É tão risível que se alguém está numa discussão quente, não vai mandar o outro “tomar no furico”, pois vai virar piada. E furúnculo? Tão miserável que só se fala errado: “furunco”. Fechando os trabalhos com essa sessão, digamos, incômoda, temos o bacio, esquisitice que ouvi menino. Não sabia que é o mesmo que penico?
E que tal bugigangas, cacarecos, quinquilharias e bufarinhas? Não acha que no fim das contas é tudo uma reunião de coisas mixurucas, xexelentas e chumbregas, ou seja, um monte de bulhufas? Eu penso isso, então antes que você resolva descartar esse texto como algo baldado, alvíssaras: ele acabou!
