Invisível

Silvia Argenta

Desde que sofri um acidente de carro, não faço nada sem que tenha alguma companhia. Caso ninguém possa me acompanhar, prefiro ficar em casa. Os braços doem de tanto girar as rodas da cadeira, então é sempre mais confortável ter alguém para empurrá-la. Fora a facilidade de não precisar pensar. Quem me conduz que decide o caminho e, apesar de alguns solavancos de vez em quando, não palpito em nada. Toda a energia e independência que tinha antes de o carro capotar se foram pela vergonha e insegurança que me transformaram numa jovem de 22 anos sem muito apreço pela própria vida.

Na verdade, só saio de casa quando é extremamente necessário ou pela insistência da mãe para que eu tome um sol. Nem coloco como motivo o fato de incomodar alguém para me levar para a rua porque seria desonesto da minha parte. É mais simples do que isso. Não quero, não vejo graça, não tem nada que possa me interessar lá fora. Passo o dia me distraindo com a internet e os livros. Estudava veterinária quando me acidentei há um ano e parei de ir às aulas da faculdade. Me desfiz de todo o material sobre anatomia, fisiologia e farmacologia e troquei pelas histórias de terror de Stephen King. Me sinto bem sendo invisível na penumbra do meu quarto. Se ainda tivesse amigos, com certeza estaria num grupo de góticos, emos ou cosplay, apesar de que eles devem ser assim justamente para aparecer. Pensando melhor, não sei se me enturmaria.

Essa sempre foi a maior preocupação de minha mãe desde o fatídico dia em que ela me buscou no hospital: que tipo de legado uma jovem de cadeira de rodas pode deixar? Para mim, o afastamento dos meus amigos foi algo natural. O rolê deles é ir nos bares em ruas de paralelepípedo, longe da minha casa. Inviável para mim. Então minhas pequenas conquistas de mobilidade das pernas divido com a família mesmo. Sem drama nisso. Mas a mãe quer mais. E quer tanto que conseguiu um emprego de meio período para eu voltar a treinar minhas habilidades sociais. Depois de muito discutir, lá vou eu para a Clinicão, a seis quadras de minha casa.

No primeiro dia, prendo o cabelo num coque e não demoro muito para me arrumar porque nem gosto mais de me olhar no espelho, então não perco tempo avaliando look, caras e bocas. A mãe acorda mais cedo do que o normal para me levar. Nem todas as calçadas são planas, nos exigindo intercalar alguns trechos com a rua num caminho zigue-zague. A devoção materna me faz sentir como se ela estivesse me levando pela primeira vez ao colégio. Na despedida, me entrega um pote com um sanduíche e combina o horário em que vai me buscar. Entro na clínica e logo sou recebida pela recepcionista prestes a tirar licença-maternidade. Durante a manhã, ela me ensina como atender os clientes, os códigos para falar com os veterinários e a fazer as vendas e tirar as notas fiscais. O trabalho é simples, mas agitado, e fico com dor de cabeça. Estou destreinada em conversar por tanto tempo.

Uma semana depois já estou sozinha na recepção. A colega se tornou mãe durante o final de semana e agora preciso lidar com todo o trabalho. A gerente inspeciona de vez em quando, mas não peço ajuda. Dou conta de fazer tudo, ainda mais porque o salão de entrada é grande e posso circular tranquilamente com a cadeira sem esbarrar nas prateleiras cheias de remédio, ração e brinquedos. Quem também frequenta bastante a recepção é um dos estagiários, o Tatá, um amigo da faculdade que me ajudou no dia do acidente de carro. Fazia meses que não nos falávamos, apesar de sermos tão próximos. Envergonhada por ele me ver na cadeira, mal o cumprimento e logo abaixo a cabeça. Ele então se inclina por cima do balcão e diz: “Lili, teu nariz continua bonito enfeitado desse jeito”. O piercing é meu último resquício de vaidade.

Antes do acidente, nós dois resgatávamos animais abandonados nas ruas. Dávamos um jeito de arrecadar dinheiro para fazer a consulta e dar banho para poder doar para alguém. Algumas vezes até ficamos com alguns cachorros. Mas depois de toda a mudança na minha vida, pedi para a mãe encontrar novos donos para os animais que estavam em casa, e Tatá decidiu adotá-los. Nunca o procurei para saber se ele nem eles passavam bem. Simplesmente deletei da memória que um dia gostei de bichos. Agora na clínica volto a ter contato, mas não quero me aproximar. Desenvolvi algum tipo de bloqueio que não consigo nem passar a mão pela cabeça dos cachorros maiores. No máximo cumprimento os dois poodles da minha vizinha que vêm toda semana para a tosa e coloco o indicador entre a grade da caixinha de alguns gatos mais sociáveis. De resto, procuro distância.

Também procuro distância dos clientes, afinal meu trabalho é temporário. Falo só o essencial e não gosto de jogar conversa fora. Se alguém comenta do tempo, já finjo que não escuto ou pego o telefone para simular uma ligação. Não sou uma pessoa desagradável, mas também não me esforço para ser simpática. Tem dia que não vejo a hora da recepcionista do turno da tarde chegar para continuar alguma conversa chata. E quando me olham com cara de pena, dizem que estou presa na cadeira de rodas e perguntam como consigo chegar à clínica? São incapazes de enxergar a um palmo do nariz. Não entendem nem tenho paciência para explicar que são exatamente as rodas que me dão liberdade para eu me movimentar por seis quadras. Bom, pelo menos os veterinários gostam da minha objetividade porque estão sempre enlouquecidos lá no fundo da clínica com vários animais para consultar, fazer exames e cirurgias. Não fico muito tempo por ali para evitar me apegar a algum bichinho. O cheiro também me lembra do hospital. Passo batido.

Talvez incentivada pelos comentários dos clientes, alguns dias depois tomo coragem para dispensar minha mãe de me levar à clínica. Já tenho o caminho decorado e sei desviar dos buracos. Ela nem insiste. Andando toda independente na rua, percebo detalhes que antes ignorava. Numa das esquinas, os vidros do prédio espelhado não me dão trégua. Pela posição dele, sempre que o contorno para entrar na rua perpendicular, sou obrigada a ver meu reflexo. Tento desviar o olhar, virar a cabeça, prestar atenção em outra coisa, mas não adianta. Toda vez acabo atraída pela imagem que aparece na superfície fria do outro lado da rua. Percebo que o rosto tem a expressão de derrota, os músculos dos braços estão mais definidos e a cadeira de rodas parece descalibrada. Olho para minhas mãos cheias de calos. Não consigo mais ficar invisível nem para mim mesma.

Tatá continua me visitando na recepção. Ele não trabalha na clínica todos os dias, então nunca sei quando vou encontrá-lo. Sempre que vai me ver, me leva um bombom porque diz que estou magrinha demais. Nessa semana, quando ganhei o chocolate, retruquei: “na próxima vez, me traz um gin com limão”. Nem eu entendi por que falei isso. Tenho negado pequenos prazeres sistematicamente. Talvez de forma inconsciente, deve ter sido uma reação divertida, apesar da situação incômoda, ao fato de que todo mundo fala comigo sobre meu corpo e minha cadeira como extensão. Não disse isso a ele. Apesar do riso discreto dele, me censurei e me senti muito infantil. Besta quadrada. Ele continuou me trazendo bombons.

A um mês de terminar meu contrato de trabalho, a mãe comenta que percebeu uma evolução na forma de eu conversar porque não estava mais enrolando a língua, além de eu estar me vestindo melhor. Se ela me dissesse isso um tempo atrás, ficaria furiosa, mas de fato larguei as camisetas e tentei voltar a usar terninhos, que adorava antes do acidente, só que eles limitam muito os movimentos dos braços. Acabei investindo meu salário em batas daquelas indianas bem lindas e soltas. Não comento com ela que tenho pesquisado algumas sombras e batons. Talvez em alguns dias me animo a comprar. Naquela manhã, ao chegar à Clinicão, a gerente me informa que abriu uma vaga de estágio e eu poderia trabalhar com o Tatá se voltar à faculdade. Faltam dois anos para terminar o curso de veterinária. Não esperava por isso. Minha expectativa era retornar para o meu quarto quando terminasse o contrato. Meu amigo aparece na recepção e me incentiva. Digo a eles que vou pensar.

Em casa, comento com a mãe sobre a proposta e só então percebo que foi tudo artimanha dela para me convencer a sair de casa. Me lembro do meu primo Dinho que achava que tinha sido escolhido para ser atendente de uma farmácia, mas na verdade quem pagava o salário dele era o meu tio. Mesma tática familiar? Não quis constranger minha mãe. Sem pensar muito, pesquiso sobre a faculdade e consigo fazer a matrícula do retorno. Com a volta da recepcionista, passo a usar jaleco na clínica com o meu nome bordado no bolso.

O desafio agora é de como chegar à faculdade. Nos primeiros dias, Tatá e minha mãe se revezam para pegar o ônibus comigo até que eu ganhe confiança. O ponto fica a meia quadra de casa. Não demora muito e logo me adapto. O maior problema mesmo é no prédio da universidade. Todos os dias é uma eterna lenga-lenga de chamar o vigilante para me ajudar a entrar. Os dois degraus na porta de entrada são motivo de análise pelo diretor há anos. A norma da prefeitura tal que fere o decreto tal que contraria a lei tal. Maior empurra-empurra e ninguém assume a responsabilidade. E eis-me aqui. Sem uma rampa para me garantir a autonomia.

Apesar desses entraves, estou bem por ser melhor compreendida pelo Tatá, que me convidou para jantar hoje pela primeira vez desde o acidente. Por azar, na volta para casa, perco o ônibus adaptado. Me atrasei só dois minutos e espero no ponto por mais de uma hora pelo próximo. Penso em desistir do encontro. Quando o ônibus chega, percebo os olhares incomodados dos passageiros porque meu embarque demora. O cobrador sai do seu banco e vai até a porta do meio para acionar um pequeno elevador por onde consigo posicionar e elevar minha cadeira. Depois de conseguir entrar, todos continuam me observando. Não me sinto confortável. A única que não me viu foi a passageira ao meu lado. Ela está com o celular na mão, passa o dedo na tela e alastra corações por aí numa rapidez assombrosa. Um desespero para ser vista, mas, durante os cinquenta minutos da viagem, não percebe nada em volta. Aproveito para abrir meu espelho e retocar a maquiagem.

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