Sexcoitos

(Angélica)

Casal 1. Os dois nunca se conheceram pessoalmente. Namoram por aplicativo. Todas as manhãs ela escreve um bom dia com a boca suja de manteiga, descabelada. Veste uma camisola curta e meias até a panturrilha. Ele responde com uma mão, já que com a outra segura um cafezinho, costuma deixar cair um pouco no terno. Não se falam durante a tarde. À noite, em suas camas, se encontram numa chamada de vídeo. Sem roupa, rolam no lençol por horas. No final, se despedem dizendo eu te amo.

Casal 2. De noite, cada um fica sentado numa ponta do sofá. Nem olham pra TV, estão grudados na tela do celular. Ele adora mulheres bundudas, bem ao contrário da bunda mucha da sua esposa. Passa um monte de cantadas. Se recebe uma resposta, não tecla muito pra não dar bandeira que está conversando. Geralmente o preço vem junto. Ele está pensando seriamente em pedir pra que sua esposa pare com as aulas de pilates, só assim vai sobrar algum, além do mais já passou um bom tempo e endurecer que é bom, quase nada. Ela por sua vez, conversa com uma amiga. Pelo menos é isso que ele acha. Se conheceram nessas mesmas aulas de pilates e estão apaixonadas, o dinheiro da mensalidade agora é pra pagar um hotelzinho lá perto.

Casal 3. Toda vez que ele pergunta vamos fazer biscoitos? Ela se irrita, fecha a cara e as pernas também. Já pediu pra ele falar qualquer outra coisa: transar, trepar, foder, fornicar, até copular serve. Ele ri e ela quer morrer. Quem insiste em repetir uma frase idiota é um idiota e quem está casada com um idiota só pode ser uma idiota. Seguindo esse raciocínio brilhante, ela decide levar a pergunta do marido adiante. Só que em outra freguesia. Arruma um jovenzinho que além de biscoitos, faz quadricoitos e sexcoitos. Nem se importa em chegar em casa suja de farinha.

Casal 4. Assim que eles se viram no aplicativo de namoro, se apaixonaram. Ela é coreana e ele russo. Como não falam a mesma língua e não sabem inglês, se comunicavam por emojis. Um tempinho depois resolveram se encontrar na Mongólia. Nunca mais se separaram. Ela gosta de transar de cócoras e ele depois de meio litro de vodka. Conversam horas a fio, cada um em seu idioma, e mesmo que ele enrole a língua e ela exagere na entonação parecendo uma galinha, nunca brigaram.

Casal 5. Ela trabalha em casa e traduz receitas francesas pra uma revista. O marido não para de atormentar, manda mensagem de cinco em cinco minutos. Gosta de uma sacanagem, na verdade, só pensa nisso. Trabalha numa concessionária de automóveis de luxo e como os clientes demoram pra aparecer, tem tempo de sobra. Por ficar com medo que ele escreva pra outras mulheres, ela não reclama. Criou um método pra conseguir sair da primeira linha. Enquanto lê “estou louco pra apalpar sua bunda”, ela digita no computador “amasse a massa com delicadeza”, “quero sentir seu gosto na minha boca”, continua a receita com “prefiras as frutas da estação, além de mais doces, são mais saborosas”. Uma vez ou outra dá um crepe. Um dia deixou passar “se lambuze de creme de baunilha” e também “use manteiga pra escorregar”.

Casal 6. Ele gosta de transar fazendo gargarejo com antisséptico bucal. Todas as vezes improvisa alguma música italiana com as bolhas, de preferência romântica. Ela só ouve e se sente amada. Se ficasse sempre por cima, tudo seria uma delícia, mas ao irem pro papai e mamãe, ele tenta de todo jeito passar o líquido cheio de baba pra sua boca. Ela trava os lábios e se debate virando o rosto de um lado pro outro. O marido fica ainda mais louco. Sabe que se respingar uma gota pra fora, no outro dia ela vai pra cama com a roupa de escafandrista e não tem gargarejo nenhum. Pra não correr risco, engole tudo ao gozar. Só aí dá um beijo gostoso com sua língua sabor menta. Ela percebe também o quanto é refrescante em outro local. O único problema é a gastrite, os antissépticos bucais costumam ser muito ácidos.

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