(Bruno Vicentini)
Lendo uma crônica do Humberto Werneck, encontro a seguinte reflexão, já perto do fim do texto, território de grandes conclusões e de verdades incontornáveis: “me encanta pensar que a cada coisa corresponde um nome”.
Compartilho do sentimento do cronista. A precisão vocabular é mesmo um ideal dos mais sedutores. É questão fundamental saber se a reunião tá mais pra uma tertúlia ou pra um convescote. Quem sabe um forrobodó. Mas me lembro agora de uma ocasião, que se deu há muito. Foi o dia em que voltou o Jorge.
Eu tinha talvez sete. Nessa altura da vida, chamávamos amigos aos colegas de classe, por uma confusão de categorias. Um deles, Jorge, teve o pai transferido no trabalho, e a família se mudou toda pra Curitiba. O pai do Jorge era bancário e por isso a transferência não foi nenhuma surpresa. Perdíamos muitos amigos porque os pais eram bancários. Surpresa mesmo foi que no ano seguinte o Jorge veio nos visitar em Maringá. Chegou de manhã com o uniforme do colégio e se misturou no meio da gente. A professora deixou ele entrar e acompanhar a aula, mesmo que não estivesse mais matriculado. Um dia só não faria mal, rever os amigos. Jorge entrou na sala como um paxá. Parecia que ele tinha voltado de uma expedição ao fundo do mar, de uma empreitada das mais perigosas. Olhava pra nós todos de cima pra baixo.
Quando saímos pro recreio começamos a conversar. A caminho da cantina, percebi que ele agora falava de um jeito estranho: pronunciava as letras E do final das palavras. Quanto tempo fazia que ele tinha se mudado?
– Tia, tem gasosa? Chineque? Quanto tá o pão com vina?
– Pão com quê?
– Com vina. Aquele ali, ó.
Apontou pro cachorro-quente na estufa. Ficamos sabendo que vina era o mesmo que salsicha. Gasosa, ele explicou, era refrigerante.
– Qualquer refrigerante… menos guaraná ou coca-cola. Porque aí se fala guaraná ou coca-cola mesmo.
Parei pra refletir. Garotinho sabido e insuportável que eu era, sabia que o Brasil era imenso e que o nome de algumas coisas podia ser outro em outras regiões. Mandioca em outras plagas era aipim ou macaxeira. Pebolim, totó, fla-flu, pacau, tudo a mesma coisa. Farol, sinal, sinaleiro, semáforo. Tangerina, mexerica, mimosa, bergamota. Jerimum, moranga, abóbora. Biscoito ou bolacha? Lembrei que o Miguel uma vez me chamou pra comer o frango com angu que a mãe fazia e que, chegando na casa dele, me serviram frango com polenta. Mas a mãe do Miguel de fato era mineira. Aquilo era diferente.
Teve um ano em que alguns filhos de bancários chegaram na nossa classe chamando errorex de branquinho, de corretivo e até de liquid paper. Foram devidamente ridicularizados e o uso de tais termos foi prontamente reprimido. Mas aquilo era diferente. Jorge não tinha vindo de longe, ora, nós crescemos juntos. E Curitiba também era logo ali. Como podia falar tão diferente? Não seria a capital do nosso próprio estado? O que aquela cidade tinha de tão especial, pra subverter assim, sem mais nem menos, o significado das nossas palavras?
Jorge terminou seu pão com vina, que comeu com muito gosto. Parecia mesmo um de nós quando comíamos pão com salsicha. Depois reclamou que a cantina não servia gasosa. Contou que a da capital servia. Chineque a gente ficou sem saber o que era. Disse ainda que seu colégio novo era tão grande que parecia um shopping center. Que morava num bairro chamado Bigorrilho, mas que os habitantes preferiam chamar de Champagnat. O caso era mesmo grave.
De volta à sala de aula, Jorge deu falta do seu penal. Nem a professora entendeu o que ele queria dizer com aquilo. Tive vontade de sacudi-lo pelo colarinho: estojo, fala estojo, seu bocó! Você é maringaense! Todo mundo teve que abrir as mochilas e acabaram encontrando o estojo roubado com uma garota chamada Cássia, que levou uma advertência e foi pra casa chorando. Depois disso ninguém viu mais o Jorge. Uma vez o encontrei numa rede social e ele tinha virado pagodeiro. Até hoje, quando passo por Curitiba, tenho o costume de comer um pão com vina, em sua homenagem. Ergo um copinho de plástico, cheio de gasosa, à sua saúde. A experiência é sempre frustrante. O pão com salsicha da nossa terrinha é muito mais gostoso. Mas pra acompanhar, não adianta pedir uma gasosa: aqui é tubaína.
