
Garota prodígio catalã, a artista plástica Irene Solà, 31, ganhou inúmeros prêmios em sua curta carreira. Seus dois livros (Los Diques e Canto Yo y La Montaña Baila, o primeiro de poesia e o segundo uma novela) já foram traduzidos para 17 idiomas. Para nossa sorte, Canto Eu e a Montanha Dança, de 2019, já saiu no Brasil, pela esperta editora Mundaréu.
A narrativa é simples: conta a morte do camponês-poeta Domènec, que foi atravessado por um raio, e como esta morte influenciou a vida não só de seus familiares e vizinhos, em uma pequena vila nos Pirineus da Catalunha, mas também de todos os seres que lá habitavam naquela época e em nas décadas que se seguiram à tragédia. Polifônico, o romance recorre a várias vozes para atravessar o século 20, da Segunda Guerra até os dias de hoje. Entre seres inanimados e animados, falam as nuvens, as trombetas, as corças, as lebres, as montanhas, os cães, personagens principais e periféricos, uma voz se emendando na seguinte. O resultado é um texto que se lê em estado de encantamento, um caleidoscópico vivaz e psicodélico em que Solà não esconde as origens nas artes visuais, dando ao leitor a sensação de habitar uma montanha em pleno terremoto.
Também nos dá a sensação de que o antropocentrismo na literatura está cada vez mais fora de moda: o lance é buscar perspectivas mais ousadas. Como ouvir a voz das nuvens. O panpsiquismo é um campo da ciência relativamente novo, e propõe que a consciência não seja somente um talento humano. Além disso, a filosofia também tem se detido na investigação da psique animal, caso dos recentes livros O Que Diriam os Animais?, de Vinciane Despret, e o Manifesto das Espécies Companheiras, de Donna Haraway. No campo da filobiologia, há ainda A Revolução das Plantas, de Stefano Mancuso, e A Vida das Plantas, de Emmanuelle Coccia.
Aqui vão três trechos: um narrado por uma colônia de fungos, outro por uma corça e outro por uma cadela.
PROPOSTA
Pois é isso mesmo o que você vai fazer: você vai ouvir a voz das coisas.
Que coisas?
Qualquer coisa. Seres inanimados: uma roupa. Uma mobília. Uma casa. Um par de sapatos. Uma calcinha. Uma xícara. Um lenço. Um computador. Um varal. Um carro. Um abridor de garrafas. Um chip. Um barco. Uma árvore. Qualquer coisa mesmo. Algum objeto que você ame, ou que você odeie.
Ou então pode ser um ser animado: um peixe, um cão, um gato, um rato, um pássaro, uma tartaruga, um tubarão, um tardígrado, um molusco, uma bactéria. Algum animal que você ame, ou que você odeie.
Ok, mas qual o conflito?
Esta coisa ou ser pode ter sido:
- perdida
- achada
- emprestada
- dada
- vendida
- quebrada
- destruída
Escreva na primeira pessoa.
Use outros personagens e outras coisas gravitando ao redor da sua coisa / ente.
Trabalhe a linguagem aproximando a forma da coisa à voz da coisa.
Sua coisa vai começar de um jeito e terminar de outro. Mas foque no processo, isto é, no meio, no momento em que sua coisa está deixando de ser uma coisa para se tornar outra coisa.
Em uns 9 mil toques.

















