(Angélica)
Pedacinhos da sua pele voam como folhas secas pro colchão. Ou talvez como uma chuva de hóstias que me leva pra algum tipo de paraíso, onde rolo de barriga cheia, deito e me espreguiço. Minha deusa se descama o tempo todo. Um ponteiro de relógio que não para. Enquanto dorme e sonha, e mesmo que abra os olhos no meio da noite assustada, percorro o seu corpo na penumbra sem que ela me veja ou mesmo me perceba.
Acaba de se encostar na cabeceira da cama com um robe curto. E o melhor, sem calcinha. Tanto tempo que espero por isso. Passo por debaixo das dobras do tecido, está ainda mais macia. Grudo no seu quadril e espero que ela se vire. Não me importo que me amasse um pouco porque foi pra outra direção. Uma hora vai pra certa e escorrego pro risco que marca o fim da sua bunda. Passo por um montinho, que nem se compara às outras montanhas e picos, até chegar na cidade úmida dos prédios pretos e enormes, muito, mas muito maiores do que eu. Ah o cheiro, o cheiro nunca para de me chamar, venha, venha. Eu vou e iria sempre, mesmo que não o ouvisse.
De tão molhado, minhas patas tremem de prazer. As gotas de vapor além de serem uma delícia, não grudam no céu da boca. Minha deusa extrapola todas as expectativas, é o próprio céu. Se antes tive que me desprender da diva pra não morrer afogado no chuveiro ou ficar preso numa bola de hidratante, agora é só caminhar mais um pouco e me esconder nesse éden por toda a eternidade.
Ouço o toque do celular e depois um silêncio. Sei que está andando porque tudo aqui se mexe. Em seguida, o barulho da chave na fechadura. Pro meu desespero, ela cumprimenta alguém com a voz grossa. Morro de ciúme, por mais que eu grite, ela nunca vai me ouvir. Eles se beijam e eu quero me afogar nessa mistura de saliva. Eu também tenho boca e língua, minha deusa.
O coração dela está aqui em baixo, pulsa num ritmo gostoso. Mudo de ideia, não pare de beijar. Boio num oceano com marolas. Passa uma, passa duas e na oitava ela se levanta e ao voltar, escuto um brinde. Finco meus dentes na parede rosa. Tudo ao meu redor é cor-de-rosa, um chiclete que não dá vontade de parar de mascar. Demora um pouco pro vinho descer até aqui, mas tanto ela como eu estamos começando a ficar molinhos.
Entre risadas, vão pra cama. Também rio, mas de bobo e de desespero. Não tem graça nenhuma esse talzinho na nossa cama. Sempre foi só nós dois e essa coisa de mènage me deixa confuso e irritado. Um dedo, que com certeza não é da minha deusa, passa raspando em mim e leva uma das minhas pernas. Dói demais, tento devolver o ataque com uma mordida, mas acabo acertando os meus dentes na sua unha. As pulsações aumentam e parece que estou pulando numa cama elástica. Bato em tudo que é canto e com toda a bebida que tomei, tenho vontade de vomitar. Fora as acrobacias da deusa, o mundo gira de forma alucinada. Por isso que dizem que a paixão acaba com qualquer um, no caso comigo.
O pior nunca vem sozinho e sim acompanhado de algo muito mais tenebroso. Mal me recupero e já vejo uma língua enorme vindo pra cá. Corro e por estar mancando não consigo ir tão depressa, tropeço esfolando meus joelhos e só ao dar uma cambalhota que termina num pulo, me afasto. Como é nojenta essa baba que respinga no meu rosto, qualquer semelhança do talzinho com um cachorro não é mera coincidência. Ainda bem que não se demora muito por aqui e vai lá pra cima. Fecho os olhos e fico imaginando que os gemidos da minha deusa são por minha causa. Nunca tinha ouvido ela gritar desse jeito, menos querida, não é pra tanto, ele não é tão bom.
No meio de um grito, uma onda quente envolve o meu corpo, é a coisa mais espetacular que já experimentei. Se eu soubesse que era assim, já teria me mudado pra cá faz tempo. Na ducha da minha amada nem precisa de sabonete. Brilho tanto que se me visse não ia me soltar nunca mais. Eles já terminaram e agora bebem mais um gole. Sinto raiva do talzinho porque ele acende um cigarro e o cheiro maravilhoso é substituído por de queimado. Aproveito pra mergulhar nas piscinas que se formaram com o néctar da minha deusa. Nado de costas, peito e borboleta. O álcool se desprende das paredes e eu me pergunto o que tem acima do paraíso? Afundo no líquido morno e é só abrir os lábios pra que vários rissoles e coxinhas entrem na minha boca. Depois solto bolhas de felicidade.
Só que eles não acabaram. As manobras recomeçam e com ela se sacolejando dessa maneira, as piscinas viram um lava rápido. No meio da balbúrdia, de repente, escurece. Nem sei mais onde estou. A entrada do túnel foi tampada. E ao imaginar o que vem pela frente, quero desmaiar, mas não é hora. Sabe quando as paredes de um quarto começam a se mover até te esmagar? É mais ou menos isso. Pela graça da minha deusa tenho por onde escapar. Está se aproximando, por mais que eu tente fugir é impossível. Socorro! Ou passa por cima do meu serzinho indefeso como um rolo compressor ou eu dou um pulo e grudo na cabeça horrível do monstro. Só de pensar onde me pendurei, me arrependo, era melhor ter morrido.
Fico uns minutos com as patinhas presas nele, é um vaivém que não acaba nunca. Despenquei pro inferno sem ter direito a passar no purgatório. Minha deusa dessa vez não grita, mia. Seu corpo está igual a um apartamento na beira dos trilhos, só que de um segundo pro outro é atingido por um terremoto de magnitude nove. Já o talzinho tem um fôlego de perdigueiro. Quando menos espero, ele dá um urro e um tsunami arrasa com tudo. Como o monstro estava lá no fundo, a pasta esbranquiçada me arremessa pro breu. Todos esses cataclismos são fichinha perto do que está acontecendo agora, não só porque não enxergo nada, mas por causa dos girinos que balançam a cauda e tentam me abocanhar. São tantos, que não vou sobreviver. Sem força pra nada, deito e espero minha morte. Não sem antes amaldiçoar o talzinho que agora dever estar abraçado com a minha deusa falando palavras de amor ao seu ouvido.
Depois de uns dias desacordado, consigo me levantar e só aí reparo o quanto é grande aqui dentro. Um pouco mais pra frente, vejo que uma bola envolveu um dos girinos e um coração bem pequeno bate lá dentro. O ambiente se tornou familiar demais pro meu gosto. Nem sei se minha deusa sabe o que a espera. Me aproximo e nem que demore o resto dos meus dias, começo a roer o herdeiro do talzinho.
