Os perigos, eles estão por aí

Era uma solidão absurda. Mas estar com Tales preenchia uma convenção social que julgava menos pesada do que a da sua tristeza, que cavara um fosso redondo e escuro bem no meio de seu esqueleto. Carolina ficava horas sentada no sofá de camurça verde escuro que já estava quase bege, com um buraco sob sua bunda e um rasgo geométrico no encosto. Dali sentia o vazio inscrito naquelas paredes nunca pintadas para ser um lar. Já tinha se visto sentada no mesmo assento usando todos os seus casacos para aguentar o frio que entrava pelas frestas das janelas enferrujadas ou usando um lençol como capa para o veludo não pinicar as coxas suadas do calor seco de mais de 30°.

Num sábado à tarde estava sozinha. Tales passava mais tempo no escritório do que em casa desde a quarta-feira. Muitas ações, processos que ela nunca sabia muito bem como definir, os casos com os quais ele trabalhava. Sua atenção sempre se voltava, de forma mais curiosa, à descrição que ele fazia dos clientes do que nos termos em si. Uma secretária que decidiu que finalmente ia processar os velhos gordos com a cara suada de whisky que geriam negócios nos quais o dinheiro nunca se materializava na frente de ninguém. A jovem relações públicas que havia documentado o passo a passo de sua transformação de ruiva a loira platinada e acabou não só careca, mas com mil reais a menos na conta por causa do serviço que lhe prestaram – e agora teria que se apresentar feia em seus eventos, perdendo credibilidade por causa de sua imagem.

– Mil reais num cabelo!

Carolina sentiu até vontade de se olhar no espelho para ver se sua imagem serviria, caso tivesse a mesma profissão da tal cliente de Tales. E percebeu que tinha ficado com uma impressão antiga de que seu rosto nunca seria bonito como os das revistas por causa das espinhas traumáticas da adolescência. Mas agora não havia espinha alguma. E se ela não passasse a enxergar sua nova face como estava, logo viriam as rugas e ela não teria sequer um intervalo em toda sua vida que se sentisse de bem consigo mesma. O cabelo mal sabia o que era um corte, vivia em coque. Voltou para o sofá com o laptop. Pesquisou no Google cabelereiro moderno são paulo.

O foursquare apontava uma casinha antiga e bem decorada na Vila Buarque. Abriu o guarda-roupa e pegou um vestido que costumava guardar para as ocasiões especiais de passeio. Era isso que faria, realizaria seu desejo incontrolável e espontâneo de passear. Caminhava rumo ao salão como num comercial de absorventes, em que tudo parece cinza e vai ganhando cor. Sentou-se na cadeira vestida da capa preta e cabelos lavados, ganhou até um pirulito de maçã verde de brinde – se quisesse, também trariam um café ou uma cerveja.  

– Vai fazer o que nessa juba hoje?

– O que você quiser, só me tire essa cara de Madalena arrependida.

Saiu com as pontas do lado esquerdo maiores e mais desfiadas do que as do direito, que então seguia rente ao pescoço. E uma franja, que seguia a mesma direção enviesada. Aproximou o cartão da máquina para pagar os $80 reais gastos pela sua cara nova. O cabelo é a moldura do rosto, o rosto é a entrada para a alma e etc. etc. Sem pensar muito, pediu:

– Ainda tenho direito àquela cerveja? Se sim, vou querer.

– Claro!

A IPA de amarelo escuro quase vermelha descia amarga, mas com um frescor que podia sentir na nuca. Atravessou o largo de Santa Cecília ocupado por mesas vermelhas de plástico, em torno das quais muitas pessoas, muitas mesmo, conversavam, riam e debochavam de si mesmas. Sentiu uma vontade enorme de ter amigos. Uma turma de colégio com quem tivesse mantido os laços até a vida adulta. Almoços de família aos domingo, em que o tio dança forró abraçado no espeto de churrasco. A casa dos pais com um jardim e um banco em que as gerações, desde seu nascimento até os filhos de seus filhos, fossem ninadas e aprendessem a dicção perfeita das palavras. Mas sentia-se inibida para ligar para qualquer pessoa que fosse.

Atravessou a Amaral Gurgel em direção a nada em específico, observando a onda de cores que pintavam o sábado. Descendo em direção à Barra Funda, já quase perto da linha do trem, uma rua residencial e um único ponto em que pessoas comiam e bebiam em pé na frente de um portão de garagem. Já mais perto, viu umas caixas de disco na calçada, encostadas na parede. O som vinha lá de dentro. Tinha um balcão e poucas mesas.

– Minha vez de escolher o disco -, viu uma mulher dizer ao entregar seu copo ao companheiro e pegar o disco que tinha deixado na frente dos demais.

A mulher acertou a agulha e começou a tocar o lado A de Echo & the Bunnymen, “What are you going to do with your life?”.

– Oie, quer mesa pra dois?

Carolina já estava sentada no balcão.

– Não precisa, quero um chopp.

– Médio ou grande?

– Médio.

O colarinho escorria em uma fina linha branca pelo copo. Um cardápio pousou ao lado, indicando as comidas da casa. Pediu uma porção de azeitonas, salaminho e queijo trança. Não pensava em Tales enquanto curtia a garagem transformada em bar. Três ou quatro pessoas passaram por ela raspando seus ombros uns nos outros para irem em direção ao banheiro. Além do garçom, com quem já tinha trocado informações sobre cidade de origem e estado civil, outro cara esboçou um sorriso ao colocar as mãos em suas costas para pedir desculpas pelo esbarrão. Esse, depois de esvaziada a bexiga, sentou-se no banco ao seu lado.

Foram incontáveis idas e vindas entre o balcão e a calçada para fumar um cigarro do lado de fora e buscar um novo chopp, assistindo clientes animados em poderem escolher a próxima música. Quando voltou a ter vontade de olhar o celular, Carolina se deu conta que já passava das 22h.

Por alguns segundos pôde relembrar todas as vezes que entrou em um táxi meio bêbada no meio da noite para voltar para casa e sentiu o álcool pesar melancólico em suas pálpebras enquanto as luzes vermelhas dos carros passavam pela janela. A sensação era aguçada pelo de repertório de 4 ou 6 músicas dos anos de 1980 e 1990 que sempre tocam nesse momento. “Mulher sem razão, ouve o teu homem / Ouve o teu coração / Ao cair da tarde / Ouve aquela canção / Que não toca no rádio”. Era um contrassenso total. Nem o homem dava direção nenhuma e essa canção era tudo que se podia ouvir no rádio – a precariedade da relação entre direito e cultura que acontece aqui, pensava Carolina.

– Vou andando. Tales já deve estar me esperando.

– Tás doida? Vai atravessar o minhocão andando essas horas sozinha?

– Não tem problema, não tenho nada que possam roubar aqui comigo.

– Mesmo assim, quer que eu te peça um táxi?

– Não, táxi não. Vou a pé.

– Então vou contigo.

– Não precisa, fica aí.

– Pelo menos até o largo, depois é mais seguro.

Ela e o moço que estava só indo ao banheiro e passou a tarde ao seu lado se despediram em frente à igreja com um abraço longo, quase tão quente quanto o sol daquele dia de primavera em São Paulo. Mais cinco quadras e Carolina chegaria em casa, não sem algum perigo, porque eles estão por aí, mas atravessando ruas movimentadas de bares e lanches. Passou em frente ao seu próprio prédio, talvez o porteiro não a tenha visto, e ela continuou andando reto. Atravessou a rua na esquina e voltou até a porta do edifício pela calçada oposta. Parou um segundo e continuou. Deu uma volta no quarteirão, respirou fundo, Boa Noite, seu José, elevador 8º andar. Esperava ver Tales no sofá, com os pés sobre a mesa de centro, folheando uma revista e dando um gole na longneck de uma cerveja qualquer. Encontrou o escuro e não ousou acender a luz.

No quarto, com a mão no interruptor, teve certeza de que ainda estava ali sozinha. Deu meia volta para o banheiro, a cerveja explodia a bexiga. Passou uma água no rosto, se encarou no espelho, agora vendo sua imagem de cabelo novo e bochechas médio vermelhas do álcool. Entrou no quarto, pegou duas calças, 5 camisetas, um moletom, embalou a bota num saco plástico, escova de dente e colocou tudo dentro da mochila. Seria suficiente.

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