Um corte de pano

por Américo Paim

Não pertenço a isso. Nunca vou me acostumar. A prateleira tem desinfetante, detergente, inseticida, água sanitária. Há também óleo lubrificante e outra coisa que não identifico. Seria tinta? E essa coisa meio metálica no ar, algo em suspensão? Tem umas coisas descascando, é tão escuro e úmido. O mofo parece antigo naquelas manchas onde bate um filete de luz pela rachadura da porta. Esses ruídos breves e o cheiro conhecido são as baratas. O que querem? Vão embora, não há comida ou restos. Se estão aqui, decerto é noite. Já são quantos dias? Quando alguém virá me tirar? Não estou confortável assim, como um resto, sem estar dobrado com jeito, em um lugar só meu. Que saudade dos outros tempos.

Agora já amanheceu, é certo. Esse barulho ao longe me diz que Horácio chegou. Sim, é ele. O arrastar da vassoura. A água no plástico. Está enchendo o balde. Vai lavar a área de serviço. Isso demora. Por que não começa pelo carro? Seria minha chance de receber o calor do sol do início da manhã. Que horas são? Ele é de começar cedo. Mesmo se me molha todo e coloca sobre a chapa quente do carro, gosto muito do choque e mesmo das mãos cheias de calos dele a me espremer e conduzir. Sempre me usa nas partes difíceis. As reentrâncias, os sulcos e brechas, os pequenos vãos. Onde a sujeira se esconde de tudo.

Será que tem serviço novo hoje? Do contrário ele vai abrir logo as portas desse armário fedido e teremos luz e sol. Quem dera isso me tirasse essas manchas, o encardido, a mistura de preto, cinza e marrom, tudo tão distante de meu esplendor azul claro do passado. Dos dias de bolsos cheirosos e gavetas aromatizadas. Gosto do jeito como Horácio é cuidadoso, só que está ficando distraído. Se me abandona num canto de chão, exposto a tudo, me vem o terror do esquecimento, da chegada da hora final, como um qualquer. De ser descartado no latão de lixo e seguir para locais que façam esse armário parecer o paraíso. E ainda tem o medo de ser destruído por Dido e Touro, claro.

Esses cães são um tormento. O dia inteiro na área externa. Nunca são permitidos dentro de casa. Yorkshires são caçadores, teimosos por natureza e isso já me trouxe problemas. Lembro de quase virar história quando perseguiram um mico que desceu para pegar uma manga e não viu as duas pestes por perto. Correram e encurralaram o pobre atrás das vassouras, onde eu estava secando ao sol. O macaquinho tremia em cima de mim e, de medo, me encharcou com urina. Que horror! Se não fosse a chegada de Dona Maria para espantar os cachorros, haveria sangue, eu acho. Acontece que o mico foi embora e eu fiquei por dias com cheiro de mijo, até ser resgatado por Horácio para uma limpeza nos itens de decoração da sala. Só então me deram um banho.

Ele está demorando hoje. Talvez Renata tenha arrumado alguma coisa nova para ele fazer. Essa espera é terrível. Opa, parece que agora vai. Ah, não foi dessa vez. Levou o inseticida. Isso significa que vai ao depósito, ou seja, vai demorar. Ela deve estar procurando alguma coisa e vai aproveitar para mandar tirar tudo e limpar. Não deixa o sujeito em paz. Ele fica tonto de trabalhar e acaba perdendo os detalhes. Foi bem assim que me largou lá um dia, não faz tanto tempo. Que terror! Não bastasse as baratas, com suas marcas pestilentas por tudo quanto é canto, tem os ratos. O barulho irritante e o fedor são o que há de pior. Foi uma semana até Horácio dar falta. Demorou a imaginar que eu estivesse naquela imundície suja e sombria, abandonado. Hoje sou seu pano de estimação. Gosto de pensar assim. É o que me resta, no fim das contas. Não posso me entregar a ser um corte de pano qualquer.

Pelo barulho, está tirando tudo mesmo. A velha mesa de centro deve estar lá ainda. Conheço cada detalhe de seu belo desenho. Era um sacrifício ficar empapado de óleo de peroba, mas valia a pena passear devagar naquelas curvas e saliências. Trabalho fino de artesão, marcenaria de gabarito. Ao final, eu sujo e ela brilhando. Horácio me lavava com muito cuidado. Não queria que eu passasse o cheiro para outras peças, em especial para o carro. E ainda assim a mesa foi parar no depósito. O que será de mim?

Enfim me pega. Coloca no bolso da bermuda malcheirosa, junto com dinheiro e retalhos de cigarros. Ele devia pedir uma nova roupa de trabalho. Renata é controlada, mas Firmino com certeza compra se ele falar. Logo estou no chão de pedra, de frente para a garagem. O sol já vai alto. Ele vai limpar o velho Gol por dentro. É minha hora. Tira o grosso da sujeira de tapetes e painel. Aspira o pó com cuidado. Aqui nesses bancos aconteceu tanta coisa.

Uma das melhores recordações é de quando Firmino passou nas últimas matérias da faculdade e percebeu que o sonho da formatura havia virado realidade. Chorou muito no estacionamento e se secou em mim. Sei que aquilo foi por causa do vô Roberto, que morreu um ano antes. O velho foi quem mais lhe deu força. Eu fui presente dele, no aniversário. As piadas de sempre de amigos e familiares, que ninguém da idade de Firmino usava lenço, mas ele já tinha ganho outros do avô e sempre tinha à mão. Uma vez me guardou por dias no bolso da calça jeans nova, que a namorada da vez tinha lhe dado e implicava que era só para sair e não para “bater” em faculdade ou reggae com os amigos. Ele ignorava. Aliás, a criatura nem durou. Outras tantas passaram pelo Golzinho. Por que será que ele ainda tem esse carro, dez anos depois? Comprou um Creta novinho há pouco tempo. No carro novo eu nem entro. Horácio usa um pano profissional. Só a família entra. As outras mulheres ficaram na memória.

A mais estranha foi Grace. Ela falava muito alto e tinha um riso que parecia nervosismo. Vivia mexendo na maquiagem e me usava para limpar uns excessos e as marcas de batom no rosto dele. Eca! Leila era muito educada, acho que a química entre eles não rolou, mas ela achou fofo que ele usava lenço. E olhe que foi depois de um espirro monstro que me deixou imprestável. Suzana era uma figura e me usou para fazer umas esculturas sexuais de pano. Ele nunca mais acertou me dobrar direito depois daquilo. No fim das contas, quem ganhou a disputa foi mesmo Renata. E eu estava lá. No dia do primeiro beijo. Ela chorou na frente dele e ele me ofereceu. Ela secou o choro comigo e deixou aquele perfume meio cítrico, que nem usa mais hoje. Eles se beijaram e eu fiquei esquecido no tapete sujo de areia de praia por horas, mas valeu. Seguem juntos. Com ela parece que as coisas tomaram um rumo. Até na vida profissional de Firmino.

Eu estava lá no bolso do paletó, no dia da sua primeira palestra. Nem faz tanto tempo. Ele pingando com o calor, para variar, e eu recém-lavado. Fiquei com cheiro de suor o dia todo e ainda fui com ele para o coquetel. Também me levou para aquela entrevista de emprego e transpirou tudo que tinha direito na sala de espera, mesmo com ar-condicionado. O esforço compensou. Está lá até hoje, agora sem minha companhia.

Muitas lavagens em máquinas e tanques foram me esgarçando, desfiando, manchando, empalidecendo. Meu azul virou quase um branco ou cinza azulado. Resisti muito. Até o dia em que Renata apareceu com uns novos para ele. Foi um choque. Era manhã de feriado e ele sempre me deixava sobre a mesa em dia de muito calor, para me pegar mais rápido. Ela chegou com um copo de cerveja e colocou sobre mim! Absurdo! Vi a caixa com embrulho de presente. Não desconfiei. Era um cubo e não aquelas tradicionais retangulares. Lá dentro tinha três novos. Ele os dispôs sobre a mesa, que limpou me usando! Ela falava coisas e ele sorria. Foi minha última visão do mundo glamuroso da vida de Firmino. No dia seguinte virei ferramenta de limpeza, condição que permanece.

Horácio segue me passando nos detalhes do carro. Há uma pequena farpa de metal corroído na maçaneta da porta do motorista. Ele não percebe e me esfrega lá com vontade. Rasgo. Parece bem grave. Ele machuca o dedo também, que coloca na boca, com cara de raiva. Me joga no chão, sobre o tapete. Tem umas manchas pequenas sobre mim, espirradas. É sangue. Ele some, mas ainda há coisas a limpar.

Ele volta. Parece que não vai mais fazer nada dentro do carro. Continuo largado. Ele segue trabalhando, não toca em mim. Fecha as portas. A água bate nos vidros e no metal da lataria. Ele esfrega um pano grande para remover a sujeira. Mais sabão. Mais água. Ele abre a porta e me pega. Dessa vez eu e o balde seguimos em mãos diferentes. O balde e o pano grande são deixados no lugar de sempre na área de serviço. Sigo amassado em sua mão. Isso é estranho. A essa altura eu já estaria no tanque. Ele muda de direção. Abre a tampa do latão de lixo. Sobe um cheiro de fruta apodrecida. É um abacaxi. Caio sobre os espinhos. Não faz diferença. Eu já estou rasgado.

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