Vozes na minha cabeça

André Sant’Anna é o gênio da burrice. O mineiro de 57 anos, filho de Sérgio Sant’Anna, é especialista em radiografar os curtocircuitos cognitivos de figuras do inconsciente brasileiro: o pobre, o miserável, o reaça, o deslumbrado, o bobo, o crente, o descrente, o progressista, o debiloide, o rico. Seu método é trabalhar com alguns raciocínios muito limitados que, em determinado momento, para se justificar, acabam dizendo o inverso do que propunham, ou levam a outro raciocínio igualmente limitado. Por isso a forma de sua narrativa muitas vezes esbarra no solilóquio, no monólogo e no fluxo de consciência.

graduações aí. O solilóquio às vezes é um diálogo em que o outro é só uma caixa de ressonância, não existe propriamente escuta. O monólogo depreende uma escuta, um interlocutor ou uma plateia, e portanto é um discurso manifesto, ou seja, um discurso que tem alguma antoconsciência. E o fluxo de consciência é o discurso em que a autoconsciência ou é colocada de lado pelo narrador ou é incorporada ao discurso como uma espécie de metaconsciência, uma consciência de que se está consciente, uma consciência de que o que se diz ali é discurso, não é só delírio – ou seja, é linguagem manifesta, não só linguagem latente.

Não importa muito para quem os narradores de André falam, e sim por que falam: estão sempre incomodados, ressentidos, rancorosos, buscando justificar comportamentos às vezes injustificáveis. O discurso pretende dar um sentido a uma realidade que muitas vezes não aparenta ter sentido para o narrador, a não ser que seja parte de uma teoria de conspiração, ou seja, uma narrativa que dá forma ao mundo tendo como centro do universo o narrador. Como os raciocínios são limitados e levam a loopings tautológicos, o resultado às vezes é incongruente, nonsense e absurdo – e aí rimos.

Mas nosso riso tem mais a ver com a operação, a forma com que este discurso é manejado, do que com o conteúdo do discurso em si, pois o discurso em si refere uma situação de violência, ou de alienação, ou de dor, que é nada engraçada. Daí as narrativas de André exigirem um leitor afinado com os mecanismo da ironia, do sarcasmo e do humor negro – uma leitura plana tem o risco de fazer o leitor acreditar literalmente naquilo que é dito. André é um perigo. Seu livro mais recente é Discurso Sobre a Metástase (Todavia). Os contos abaixo são do começo dos anos 00. Perceba como são absurdamente atuais.

Rush

Mulher no trânsito é um pobrema. Bom era no tempo da ditadura. Eles não davam carteira pra qualquer um não. Tinha que mostrar que sabia dirigir mesmo. Se o cara não arrumava o banco direito quando ia sentar no carro, pelo jeito do cara, o instrutor já percebia se o cara era bom de dirigir mesmo. Se o cara não sentasse direito, com as costas retas, assim que nem eu, tá vendo?, o instrutor mandava o sujeito embora na mesma horinha. Sem carteira. E pra dirigir taxi assim que nem eu, o sujeito tinha que ter muita experiência. É. Tá vendo? Olha só. Viu? No trânsito não tem lugar pra amador não. É. Tem que ser rapidinho que é pro passageiro não perder tempo. Tá vendo no túnel? Eu sei onde fica cada radar. Tá vendo ele piscando lá? Então… eu desenvolvo a cento e vinte aqui e na hora que tá chegando perto eu freio. Eu vou passar no radar a oitenta, certinho. Olha só. Ahá. Viu? Não piscou, não fotografou. Agora eu posso pisar que não tem mais radar. Não tem mais pobrema. Ruim é que dia de sexta-feira os motorista amador sai tudo pra rua. Fica tudo atrapalhando o trânsito. A lá o velho. Só podia ser japonês. Não enxerga nada com aqueles olho puxado. Mas ruim mesmo é mulher. Devia ser proibido mulher dirigir, que nem na época da ditadura. Pra dirigir, só profissional. Tem que ser igual eu. Eu já dirigi caminhão, Scania, Mercedes, Volvo. Sabe o que é isso? Tem que ser homem mesmo pra segurar o bicho. É por isso que eu tenho carteira de profissional. Posso dirigir qualquer coisa, até tanque de guerra. Na época da ditadura, pra tirar carteira de caminhão, o instrutor mandava a gente ir subindo uma ladeira assim, ó, e frear de repente. Se o caminhão descesse um pouquinho pra baixo, eles não davam a carteira não. Eu fui lá e, ó, não mexeu nem um pouquinho. No tempo da ditadura o instrutor pegava firme. Assim que tem que ser: que nem na época da ditadura. Ah! Se fosse na época da ditadura e eu tivesse dirigindo um Volvo agora!!! Tá vendo aquela mulher ali, aquela velha… se eu tivesse no Volvo eu passava por cima. Mas vê se eu sou trouxa pra encostar nela agora!?! Se fosse no tempo da ditadura, eu jogava ela no poste. Mas tá vendo o guardinha lá na esquina? Só quer saber de multar. Fica prejudicando os motorista de verdade. Olha só. Tá vendo? Vou grudar no rabo da velha. A lá ela ficando apavorada. Porra, se não aguenta a parada, fica em casa. E os pleibói!?! A lá aquele lá. Só porque tem carro importado que o papai comprou, acha que pode ficar ultrapassando todo mundo. Eu ele não ultrapassa não. Não sou mulher não, que fica deixando passar. Ó só. No tempo da ditadura ele ia ver só. Ia pra cadeia e ia tomar um monte de porrada. Fica fumando maconha e sai pra rua pra atrapalhar o trânsito. No tempo da ditadura, eles pegavam os filhinho de papai, punha pra tomar choque e o escambau. Não tinha pleibói com carro importado não. Não podia ficar atrapalhando o trânsito não. Se o pleibói tivesse maconhado, ia direto pro hospício. E não era desses hospício chique pra filhinho de papai não, que nem leva choque. No tempo da ditadura era hospício mesmo. Tinha que ser homem pra aguentar. Agora, não. Que nem aquele, o Rafael, do Polegar, que fica engolindo escova de cabelo… quero ver se ele ia aparecer na televisão no tempo da ditadura. No tempo da ditadura ele ia era engolir um cassetete na goela. Por isso é que no tempo da ditadura não tinha esse negócio das drogas não. Só nos Estados Unidos. Agora, não. Os pleibóizinho fuma maconha, vem pra rua atrapalhar o trânsito e qualquer coisa o papai vai lá, tira do xadrez e põe na clínica de desintoxicação. Essas clínica é tudo hotel de luxo, igual o Lalau. Quero ver aguentar é os hospício no tempo da ditadura. É. E os pedestre também, a lá. Fica tudo avançando na rua. Fica tudo atrapalhando o trânsito. Depois a gente atropela um e dá o maior pobrema. A lá!!! A lá, aquela mulher. Mulher é ruim até de pedestre. No tempo da ditadura, eu não queria nem saber, eu ia em cima mesmo, que é pra aprender a olhar o sinal. Pedestre pode atravessar o sinal vermelho, mas, eu que sou profissional, tenho que parar. A lá, o guardinha. Se eu entrar um pouquinho na faixa, ele me multa. Os bandido, os estuprador fica tudo aí e eu é que tenho que pagar multa. Por que que não vai multar esse pessoal que fica atrapalhando o trânsito? Que nem na época da ditadura!! Por que que não vai multar as mulher? Por que que não vai multar os pleibói? Por que que não vai multar os japonês, que fica só atrapalhando o trânsito!? A lá. Tem olho puxado, por isso é que atrapalha o trânsito. Eles ficam dirigindo do lado contrário lá no Japão e depois vem aqui e não sabem dirigir certo. Sabia que no Japão eles dirigem do lado contrário? É. O motorista vai no banco da direita. Mas, aqui não. Os japonês fica do outro lado e não sabem dirigir do lado certo. Por isso é que jogaram a bomba atômica no Japão na época da ditadura. Porque os japonês fazem tudo ao contrário, que nem buceta de japonesa que é atravessada. A lá a velha. Fica só atrapalhando o trânsito. Na época da ditadura não tinha isso não. Podia ser velho, japonês, pleibói, mulher, ia tudo tomar porrada. Por isso é que era bom. Agora, não. Cara de moto, então, não tinha que nem esses agora não. Antes, os cara de moto era tudo cabeludo na época da ditadura. Era os que mais tomava porrada. Os cabeludo e os comunista, esse pessoal que fica atrapalhando o trânsito. Agora é motobói. Fica tudo atrapalhando o trânsito e na hora que a gente perde a cabeça, dá um encostãozinho, o motobói se arrebenta, aí vem motobói de bando pra te dar porrada. Logo você, eu, que sou profissional. Aí eu é que sou prejudicado. Então, a gente que é profissional é que é prejudicado. Vê lá se a gente que é profissional temos direitos humanos!?! Não, direitos humanos é só pra bandido. Só pra estuprador que os políticos querem tudo soltar. A Marta. Direitos humanos é só pra esse pessoal aí que fica atrapalhando o trânsito. Tudo lerdo. A lá. Na época da ditadura não tinha esse negócio não de direitos humanos. Era choque, porrada. Eles enfiavam o cassetete lá mesmo. Sabe aonde, né? Mulher, então, eles iam com alicate no bico dos seios. Que nem esses canadenses que seqüestraram o Diniz do Pão de Açúcar. Se fosse na época da ditadura eles pegavam aquelas mulher do seqüestro e estuprava tudo. Com homem eles enfiavam o cassetete. Com mulher eles estuprava eles mesmo. Depois davam porrada, enfiava garrafa. Agora vem o Direitos Humanos e solta tudo. E dia de sexta-feira é pior que os amador vem tudo pra rua pra ficar atrapalhando o trânsito. Fica tudo sem deixar a gente ultrapassar. É. A lá. A lá os trombadinha. Finge que tá com fome e as mãe fica tudo lá escondida. Aí os menino pede dinheiro e dá tudo pra mãe tomar pinga. Eu não dou não. Eles finge que é pra comer, mas não é não. Eu já vi. É pra mãe tomar pinga. A lá a mãe daquele ali com outro filho dando de mamar. Tá só esperando o menino vir com o dinheiro. Na época da ditadura eles também pegavam esses menino, botavam dentro do ônibus, lá na Dutra, pegavam a estrada, matava e jogava tudo no mato. Agora não, fica tudo aí pedindo dinheiro, atrapalhando o trânsito. A lá. Dia de sexta-feira só tem lerdo na rua, atrapalhando o trânsito. A lá. Os velho tudo devagar, atrapalhando o trânsito. A lá. O sinal abre e o velho fica esperando, a lá, fica olhando prum lado, olhando pro outro, porra! Vai embora, caralho, o sinal abriu, tem que passar por cima, que nem eu que sou profissional de Volvo. Fiz exame no tempo da ditadura. Mas os caras, não. Sai tudo pra rua na sexta-feira pra atrapalhar o trânsito. A lá, ó. Tudo paradão, a lá. Á lá!!! Num tô dizendo? A lá, a aleijada, tá vendo? Não consegue nem andar direito e já vai se jogando na frente dos carro. E os otário param pra ela passar. É isso que atrapalha o trânsito.

Um lapso de razão

Eu sou é doido. É por isso que eu como cocô. Porque o cocô sai de mim e eu não quero que ele saia. Eu não tenho nada que é meu, só o cocô, então eu quero que ele fique dentro de mim e, quando o cocô sai, eu como ele de novo que é pra ele não ir embora e eu não ficar pobre. O pessoal não quer que eu coma cocô, mas eu vou comer o cocô sim, porque o cocô é meu. Eu não pego o cocô de ninguém pra comer, mas o meu cocô é meu e eu como ele na hora que eu quiser e se alguém vem pra roubar o meu cocô eu fico muito nervoso. É por isso que eu sou doido. Quando eu fico nervoso, aí eu que eu como mais cocô mesmo. Aí eu como até o cocô do meu cachorro, que também é doido porque ele também come cocô. Pego meu cachorro, dou um pouco do meu cocô e ele me dá um pouco do cocô dele. É troca. Todo mundo que como cocô é doido ou então é criança. Criança também é doido, porque criança pequena come cocô que eu já vi. Quando eu tinha uns filhos, eu via eles comendo cocô e eu não comia. Eu não comia nada antes, só trabalhava. Mas aí, quando eu comecei a comer cocô, fiquei doido igual criança. É bom, porque doido não precisa trabalhar e não precisa ter filhos que come cocô, porque não tem outra coisa pra comer, porque quando a gente trabalha não pode comer cocô e fica também sem nada pra comer. É melhor não fazer nada e comer cocô do que trabalhar e não comer nada. O pessoal que passa tenta me tirar daqui porque eu sou doido e como cocô. Eles falam que eu não posso comer cocô, porque quem come cocô é doido e eu sou doido mesmo e vou continuar comendo cocô. Se eles me levarem pra outro lugar, eu vou comer cocô do mesmo jeito, porque o meu cocô não acaba nunca, porque cocô é sempre cocô e não precisa nem cozinhar. Se me botarem na cadeia, eu vou comer cocô, se me mandarem de novo pro hospício, eu vou comer cocô. No hospício, todo mundo come cocô porque lá todo mundo é doido. É bom também comer cocô porque não precisa limpar a rua. Eu como o cocô todo e o chão não fica sujo de cocô e o pessoal não rouba o meu cocô que eu já comi e nem bate em mim porque eu sujo a rua com o meu cocô. O pessoal, os porteiros, acham que o meu cocô é sujo, mas é mentira. O meu cocô é muito mais gostoso do que o cocô dos doido lá do hospício, porque eu só como cocô. Um cocô vira outro cocô, que vira outro cocô, que vira outro cocô e por aí vai. Então, o meu cocô vai ficando cada vez mais limpo porque não é cocô de comida estragada. É cocô puro. Eu sei que isso é coisa de doido, isso de comer cocô. Mas eu não sou ladrão, não sou maconheiro, não sou mendigo. Eu sou é doido. Eu pareço mendigo, mas é só pro pessoal deixar eu comer cocô em paz. Se eu falar pro pessoal que eu sou doido, aí eles vão querer fazer tratamento em mim pra eu parar de comer cocô. Eles dão uma remédio que faz a gente não ter mais vontade de comer cocô. Aí, a gente fica parado, sem vontade de fazer nada e continua doido, só que sem vontade de comer cocô. Só de pensar nisso eu já fico nervoso, com vontade de comer cocô. Só que agora eu não tô com vontade de fazer cocô e o meu cachorro sumiu, senão eu comia o cocô dele. Só que o meu cocô é muito melhor do que o cocô do meu cachorro. É porque eu sou doido. Meu cachorro, não. Meu cachorro é mais é criança que come cocô sem ser doido. Ou é doido também, criança? Cachorro. Eu não sei. Eu não sei se eu comia cocô antes, quando eu era criança. Eu não lembro. Mas depois, quando eu não era mais criança, eu não comia cocô. Eu comia marmita que a minha mulher fazia. Era uma marmita pequena. Aí eu comecei a comer cocô e ficar doido e sem trabalhar e a minha mulher me mandou embora pra mim não comer cocô na frente de uns filhos que eu tinha e que comiam cocô igual doido. Sem ser doido, só criança que é normal come cocô de vez em quando. Eu não. Eu sou é doido.

PROPOSTA

Bem, é isso o que você vai fazer: vai ouvir a voz interior de alguém

Quem? Pode ser amigo, vizinho, parente, um conhecido ou alguém que você acha que conhece, até mesmo uma figura pública ou uma celebridade.

Sobre o que ele está falando?

Seu personagem está incomodado com alguma coisa. Alguma coisa está fora da ordem para ele. Algo lhe foi roubado, tirado, escondido. Alguma coisa que ele quer muito está fora de seu alcance. Alguma injustiça foi cometida contra ele, ele acredita nisso.

Ele também pode ter medo que aconteça alguma coisa. Ou medo que alguma coisa deixe de acontecer. Ou medo de algo que acabou de acontecer. Medo das consequências. Ou das causas.

Seu narrador está irritado, nervoso, raivoso, desconfiado, amedrontado.

Linguagem: use bordões, frases recorrentes, tiques de linguagem, repetições, ecos, similaridades, silogismos, raciocínios furados.

Importante: durante seu discurso, seu personagem está fazendo alguma coisa. O que ele faz?

*Anda de carro

*Arruma a casa/ cozinha/ faz alguma limpeza

*Toma um banho/ faz a barba/ maquiagem

*Anda pela rua

*Faz sexo/ masturba-se

*Trabalha em alguma atividade manual

*Participa de um jogo/ esporte/ fitness

Mas para quem ele fala?

*Para alguém existente (alguém que está bem na sua frente)

*Para alguém imaginário (alguém que existe mas está em sua cabeça)

*Para si mesmo (usando seu próprio nome como interlocutor)

*Para ninguém (apenas ouvimos seu pensamento fluir)

Como inspiração, vou colar aqui o discurso da Michaela Coel, melhor roteirista em atividade, quando ganhou seu Emmy por I May Destroy You:

“Escreva a história que te dá medo, que te dá incertezas, que não é confortável. Eu te desafio. Em um mundo que nos seduz a navegar pela vida de outras pessoas para que possamos determinar melhor como nos sentimos sobre nós mesmos, e a sentir a necessidade de estarmos constantemente visíveis, pois hoje em dia visibilidade parece ser sinônimo de sucesso, não tenha medo de desaparecer – do mundo e de nós, por um tempo, e ver o que vem até você no silêncio.”

Obviamente, na primeira pessoa.

Em no máximo 7 mil toques (o segundo conto aí tem 3500).

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