A punheta mais rápida do Oeste

Leandro Reis

Até aqui eu sei, depois não sei mais. Daqui pra ali minha cabeça já apagou. É sempre assim, eu sei onde estou e depois não sei mais, nunca vi esse lugar, não sei como cheguei. Mas não é igual esquecer uma coisa, esquecer um nome, o que comeu de manhã. Não é um branco, não é aquilo que fica na ponta da língua. É um silêncio na cabeça. Um vácuo, um espaço onde nunca existiu nada, e agora só tem o espaço. E aí eu começo, procuro um lugar pra sentar ou abaixo as calças ali mesmo, ou só abro o zíper e começo. Acho engraçado não precisar pensar pra fazer. É bom não pensar. Bom é fazer. Quando eu era novo eu só fazia, mentira, pensava às vezes, coisa mais inútil que é pensar quando a gente é novo e pode só fazer, fazer, fazer e foder. Bom é foder, foder sem pensar. Bater uma no meio dessa rua, agora. Eu vejo meu corpo fazendo e vou atrás, vou batendo, às vezes nem espero ficar duro. Não tenho tempo. O pessoal olha, olha de novo pra ter certeza e pra não olhar mais. Uns fazem careta. Os pivetes ficam rindo, jogam pedra, garrafa, lixo pra me acertar. As putinhas botam a mão na cara, mas bem que olham. Aí eu bato mais rápido ainda, eu sou um menino com raiva.

Mas eu gosto de pensar quando pensar é tocar os filmes na cabeça. Quando eu faço em casa eu posso pensar. Sento no vaso e fico de cara pro azulejo. Aí vem todo mundo me visitar na cabeça, assim eles vêm e eu não fico sozinho com a velha. Sozinho no banheiro, com os netos chegando na minha cabeça e me abraçando, eu gosto e não me dá vontade de abrir o zíper. Dá quando eles passam por mim e vão falar com a velha, porque aí chegam as namoradas pra me abraçar. Aí eu beijo com gosto a bochecha delas, beijo as duas bochechas, aperto a cintura e viro um menino com raiva de novo, tocando esses filmes na cabeça, vendo eles no azulejo. Só que em casa eu tenho que fugir da velha mugindo atrás de mim. Me enche tanto o saco que às vezes até ela aparece no azulejo. Não daquele jeito, no tempo de foder, porque ela não é mais aquela e eu também não. A gente é outro e continua na cabeça de sempre. Que porra é essa? O bom é foder, ser corpo e não ser cabeça, e foder e foder. E não lembrar da velha, lembrar das putinhas das namoradinhas dos netinhos, mas eu lembro da velha. A velha que arrumou a casa fodida pra festa. Eu nem sabia que festa era aquela, acordei e estava tudo enfeitado, meus filhos, minhas filhas, meus netos, as putinhas, a vizinha com cara de capivara, todo mundo. Na parede eu e a velha, do meu lado a velha enfeitada igual a casa. Todo mundo rindo pra mim e eu me sentindo bem, mas sem saber. É meu aniversário? Por que que a velha tá enfeitada igual a casa? Parecia o dia que eu casei com a velha, teve padre, teve gente vestida igual. Todo mundo rindo pra mim e eu me sentindo bem. Todo mundo batucando e cantando e bebendo, as putinhas dançando. Bebi e dormi e acordei na cama, gostando da velha. Engraçado, depois esqueci, mas foi bom lembrar.

Mas pensar lembrança não é só coisa boa. Depois da lembrança boa a gente puxa outra, que não é boa. A minha casa não é boa. Vivo falando pra velha que tem que vender essa merda. Ela não sabe nada. Disse que como ia vender uma casa que não era dela. Tá ficando senil, a velha, se eu moro na casa, a casa é de quem? A casa afundando, parede rachada, mofo. Vai ver por isso meu corpo sai andando e não sabe voltar. Um dia vieram me trazendo pelo braço e do portão eu já senti o fedor. A velha chorando na porta, a vizinha capivara passando a mão nas costas dela. A vizinha adora dar notícia. Puta, porca. Alguma coisa tinha acontecido nos canos e a descarga voltou, alagando a casa de merda. Entrei e aquele suco de merda nos tornozelos também me fez chorar. Falei pra velha não entrar que eu ia dar conta. Imagina se ia deixar a capivara me ver daquele jeito. Capaz de dizer pra todo mundo que eu fiquei demente. Mas não fiquei, não, limpei tudo com o rodo até de madrugada. A velha ficou feliz e riu pra mim, ainda com aquela cara de choro, me levou no quintal e me deu um banho de mangueira. Depois ficou tentando acertar água nos vaga-lumes e demos risada. De manhã, quando fui no banheiro, esqueci da merda e dei descarga. Tudo alagado de novo e a velha puta da vida, correndo pra casa da capivara. Nesse dia tomei uma dose de conhaque com os remédios, torcendo pro meu corpo sair de casa. Às vezes é melhor acordar num banco do que na merda. E no banco é só abrir o zíper e olhar as putinhas passando, cuspindo pra mim.

Um dia apanhei, fiquei sabendo depois que foi bem no centro comercial, onde meu neto trabalha. Mas ele não viu. Fica no prédio alto de terno e gravata, não deve nem ter roupa normal mais. Nem bunda, de tanto ficar sentado. Se bem que deve sentar numa cadeira acolchoada, daquelas que dá pra dormir. Nesse banco ele não dorme, nunca dormiu. Eu já. Também durmo quando esqueço. Às vezes acordo e já tô lembrando de novo, volto pra casa sem nem olhar pros lados. Chego e tá todo mundo procurando por mim. Minha mulher, minha filha, meu filho, a capivara. Meu neto é engraçado: cheguei e ele já foi me sacaneando, “Lá vem a punheta mais rápida do Oeste!”. Não veio com a putinha, eu gosto dele mesmo sem a putinha. Teve um dia que cheguei meio quebrado e ninguém riu, nem meu neto, que até chorou. Chora igual a velha e aí eu não gosto, gosto quando chego e ficam rindo, porque sei que tive uma aventura. Aventura é bom também quando a gente volta. Aventura é que nem foder, não dá pra pensar, dá só pra fazer. Se eu pudesse saía mais, mas qualquer dia desses vão me pegar, eles me avisaram, meu neto e a velha. Eles ficam muito impressionados com sangue. Que bom que eu ainda tenho sangue, eu respondo. Se fosse mais novo eu ia é sair na mão, de capivara assustada já tem a vizinha. O meu negócio é aventura, fazer, fazer e foder. Mas eu sou velho, ser velho é como um silêncio na cabeça.

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