Até os cotovelos

(Bruno Vicentini)

Mas é que ninguém quer fazer o trabalho sujo, e mesmo assim alguém sempre tem que se sujar, tem que meter as mãos na merda ou no sangue até os cotovelos. Então eu me disponho, me sujo, meto as mãos na merda ou no sangue até a altura dos meus cotovelos. Enquanto afundo a cabeça do pervertido no tonel cheio d’água, penso na Bianca, na minha filha Bianca, é nela que eu tô pensando. É por ela que eu afundo e que seguro lá dentro, bem lá embaixo, a cabeça do maníaco, é por ela que eu meto as mãos na merda até os cotovelos. Porque Bianca é uma boa menina, que não vai afundar a cabeça de ninguém num tonel cheio d’água, mas alguém ainda precisa fazer isso, porque o mundo é assim. Porra, eu não inventei as regras, eu não inventei merda nenhuma. Tô só fazendo a minha parte, mas a minha parte eu sei fazer, escolho fazer bem feito. Sei que a pequena sente orgulho de mim, conta satisfeita na escola pros amiguinhos, Meu pai é o capitão Ramos, Da Polícia Militar, Meu pai é um herói, Um herói de verdade. Ela não diz que o pai é quem faz o trabalho sujo, quem mete a mão na merda ou no sangue, ou num tonel cheio d’água, até a altura dos cotovelos, porque ela não tem ideia, ainda não aprendeu que o mundo é assim, mas um dia ela vai descobrir e nesse dia ela vai entender e concordar comigo. O vagabundo tem uma barba imunda e manchada de tabaco, tão grossa e desgrenhada que quase não molha, a água tem dificuldade pra invadir por entre os pelos, imagino que o queixo do miserável tá seco e chego até a achar graça, o maldito ali vendado se afogando no tambor e com a ponta do queixo seca. As algemas começam a fazer feridas nos seus pulsos, porque ele se debate e convulsiona os braços raquíticos, presos nas costas, chocalhando as algemas quase na altura da borda do tonel, mas ainda fora d’água. Suas pernas estão amarradas desde os tornozelos até em cima, e os braços são finos e magros, lembram um graveto, algo que eu poderia quebrar sem muita dificuldade se quisesse. Penso em todos os crimes que o homem pode ter cometido, nas barbaridades que fizeram aqueles bracinhos de louva-deus. Penso no último desses crimes. A casa em que estamos agora foi usada como base de operações e tá cercada de policiais em festa, oficiais de alta e de baixa patente eriçados e embriagados pela captura, que por enquanto é extraoficial e vai continuar assim até que o miserável aprenda a contar a história que se quer que ele conte. Mas não vai demorar, garanto, sou um bom professor. Aqui dentro somos só eu, ele e essa mulher que bate à máquina. Ouço o gorgolejar da água no tambor em vez do som dos gritos do homem. Ouço também o barulho tec tec tec da máquina, e as algemas chocalhando. A mulher, segundo disseram, é a escrivã da comarca. Ela veste sapatos de salto fino, óculos de acetato e um vestido xadrez, todos de cor vermelha. Golpeia as teclas enquanto faz uma careta e evita erguer os olhos do papel, não quer dar com o miserável ali se debatendo como um golfinho esquizofrênico dentro do tambor, acha que o próprio trabalho pouco ou nada tem a ver com aquele desgraçado logo ali na sua frente, muito embora esteja batendo agora a própria confissão do homem. De quando em quando ela para o trabalho e faz um pelo-sinal, depois fuma um cigarro, que apoia num cinzeiro. Me irrito com aquela mulher civilizada e com o barulho tec tec tec da máquina, resolvo erguer o vagabundo pelos cabelos apesar de ainda não ser o momento certo de trazê-lo de volta. O gorgolejo não parou, o que significa que o miserável ainda tem fôlego pra gritar mais um pouco. Porra, não é a minha primeira vez. Eu sei o que tô fazendo. Fui eu que escrevi o manual, aquele sobre confissões, que os novatos disputam a tapas, quer dizer, escrever mesmo não, mas que eu ajudei, ajudei. Ergo o vagabundo pelos cabelos. Ele puxa o ar com desespero e ao mesmo tempo tosse, guincha, resfolega como um leitão faqueado e fala coisas desconexas, tenta me convencer de que não precisa voltar pro tambor de onde acabou de sair. Tá prontinho pra confessar, mas ainda não sabe o quê, desconhece a história que vai narrar em detalhes, as coisas nojentas que fez com o garoto. Penso novamente na minha pequena Bianca, na minha boa menina, e afundo mais uma vez a cabeça do homem no tonel, até embaixo, até os cotovelos. Ele volta imediatamente a chocalhar as algemas. Fico de novo sozinho com a mulher de vermelho. Imagino que é ela quem está dentro do tambor, que é a sua cabeça em minhas mãos, seus cabelos castanhos entre os meus dedos. Ouço risadas do lado de fora da casa, mas as risadas não duram. O gorgolejar volta, discreto, uma bolha e outra. Antes que o ruído cesse eu vou trazer o homem de volta, mesmo que ainda não seja o momento certo, porque preciso ouvir outra coisa, qualquer outra coisa além do barulho tec tec tec da máquina, nem que sejam os gritos desvairados de um maníaco.

Deixe um comentário