(Angélica)
Descobri que o palerma tem outra. Outra não, várias. Me enrolou direitinho esse tempo todo, ele não sabe com quem está lidando. Pior que mulher apaixonada, só mulher traída. Nunca fui de me vingar, mas a partir de hoje tudo mudou e acho melhor ele abrir bem aqueles olhos safados. Porque, pra mim, vingança não é prato que se come cru, se come vivo. Vou dar o troco, isso eu vou. Onde já se viu me fazer de tonta desse jeito. Na verdade, devo ser muito mesmo. Com um papinho mole me pedia pra fazer cada coisa, mesmo o diabo ia ficar com vergonha. Ele dizia que era fetiche. O palerma está pensando que sou o quê? Até fantasia de marisco ele me fez usar, me mordeu toda e ainda por cima com vinagrete. Fiquei cheia de marcas, um horror. No outro dia tive que sair de casa com calça e blusa de manga comprida, dessas com gola rolê. Num calor dos infernos, se não fosse isso, tinha colocado luvas. Uma vez me cobriu com creme de baunilha. Disse que eu era um sonho. Ou talvez ele sonhou com isso? Não lembro direito. Espalhou tudo com uma espátula de confeiteiro, inclusive cobriu meu rosto, quase fiquei sem respirar e sem me mexer por um tempão, de tanto que era lerdo. Depois começou a me lamber e uma hora sumiu. Eu gritava e nada. O creme endureceu porque tinha muita maisena, grudou no lençol, e como estava preso embaixo do colchão, não conseguia levantar. Que desgraça. Quando vi umas baratas subirem por cima de mim, tive um ataque de pânico e berrei tão alto que o palerma resolveu aparecer. Disse que deu dor de barriga. Passei horas no chuveiro pra tirar tudo aquilo, o ralo entupiu e o que ele estava fazendo enquanto isso? Tomando cerveja na varanda, sem camisa e coçando a barriga. Ontem, quando eu disse que sabia de tudo, que ele não passava de um sem-vergonha, sabe o que respondeu? Que era a favor do poliamor. Poliamor o escambau. Depois de ouvir isso, fui embora pra casa, espumava de ódio, precisei tomar uns comprimidos pra me acalmar, só que não adiantou nada. Não parava de pensar se essas taras sexuais, na verdade, não seriam experimentos preliminares de um serial killer com desejos gastronômicos. E o que ele queria mesmo era me matar. Foi torturado pela mãe na infância, que o obrigava a comer as gororobas que ela fazia. Se reclamasse ou se recusasse fechando a boca ou cuspindo, ela enfiava a comida na sua garganta à força. Enquanto eu tentava desvendar o trauma do palerma, ele me mandou uma mensagem. Pedia pra me ver, não estava aguentando ser abandonado desse jeito, que ia mudar e eu seria o único rocambole da sua vida. Indecisa e achando minhas conclusões meio exageradas, amoleci e caí na besteira de dizer que toparia se invertêssemos os papéis. Vi que ele ficava digitando, mas não mandava a resposta. E quando chegou, me perguntava no que eu estava pensando. Disse que era surpresa, que se comigo sempre foi assim, com ele não seria diferente. Ele concordou com a condição que em seguida fosse a sua vez, senti que ficou meio desconfiado. O problema era que eu não tinha a mínima ideia do que fazer com ele. Ao imaginá-lo vestido de coxinha, meu tesão foi parar no pé. Eu queria dar o troco e não podia ser algo muito fácil pra ele. Quase não consegui dormir à noite. E pra deixar a situação mais tenebrosa, sonhei que fatiava uma linguiça, acordei assustada. Precisava mostrar pro palerma que eu era muito mais criativa. Resolvi ir numa loja de fantasias pra ter alguma inspiração. O atendente quis me empurrar uma roupa do Batman e do Homem Aranha, disse que era batido, sem graça e que precisava de algo diferente, ele me mandou ir pra um sex shop dando uma risadinha sacana. Fui pra lá. Ao entrar, dei de cara com umas algemas, podia ser bastante útil. Comprei dois pares, pras mãos e pros pés. E olhando pra um pula-pula em formato de bola com um pau embutido, veio uma luz. Achei bem interessante, viu? Passei numa tecelagem antes de voltar pra casa correndo. Eu mesma ia costurar o que ele ia vestir. Não era nada complicado. Quando chegou o dia, eu, que achava que ia ficar supernervosa, estava numa calma irritante. Até comprei um vinho. Servi as taças e depois que tomamos alguns goles, pedi pra que ele se deitasse. Não gostou muito de ser algemado. Fui buscar a fantasia e assim que ele olhou pra ela, me perguntou se era uma pera. Não, respondi, não está vendo que tem esse buraco grande e redondo no meio? Encaixei a fantasia, a barriga dele era o caroço. Um abacate cortado ao meio, ficou perfeito. E como se bate abacate com leite? Primeiro tem que tirar o caroço, não é assim? Ele arregalou tanto os olhos que eu achei que eles iam rolar na polpa. Me perguntou se eu estava louca. Sou louca mesmo, só de ter deixado você fazer aquelas birutices comigo. Ele começou a me pedir perdão, que coisa mais chata esse papo de perdoar. Disse que me amava, nessa altura do campeonato? Eu e a torcida organizada do poliamor. Me enchi e pus uma fita adesiva na sua boca pra que ficasse quieto. Peguei a faca e fui cortando em volta do caroço. Mesmo que se debatesse e tentasse gritar, logo cansava e eu podia continuar. Precisava ter uma barriga tão grande? A única coisa que eu não tinha imaginado era a quantidade de sangue. Abacate batido com Cassis. Seu rosto também ficou bem vermelho. Percebi que depois que eu mostrei a minha batedeira elétrica portátil, dessas que se segura com a mão, ele não se mexeu mais, devia ter desmaiado ou morrido. Ninguém morre de susto, morre? Não achei má ideia triturar o intestino, o estômago, a vesícula, o fígado e pâncreas. Lógico que não ia fazer isso, não queria perder meu brinquedinho, só deixar ele sangrar um pouco, quem sabe a barriga diminuía. Depois dei os pontos, a frio. O palerma gemeu mesmo desfalecido. Quando acordou, não teve forças pra fazer nada comigo. Ficou pra próxima vez. Os psicopatas também amam, amam fazer picadinho um do outro.
