Quebre a quarta parede

A “quarta parede” é a linha imaginária que divide a plateia do palco.

Usa-se o conceito de “quebra da quarta parede” quando os personagens ganham consciência de que são… meros personagens. É metalinguagem, pois o texto se refere ao próprio fazer literário; muitas vezes a ação do texto se mistura à ação da criação do texto. Muitas vezes o autor se refere ao leitor, às vezes fala com os personagens. E às vezes o autor mistura-se ao texto, faz comentários, revisa, reescreve, apaga situações.

Embora seja um conceito recorrente na literatura pós-moderna, pratica-se nas tragédias gregas, no teatro chinês. Machado de Assis foi mestre em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Questionando a representação, Seis Personagens À Procura de um Autor, de Pirandello, é um dos modelos mais acabados do procedimento em teatro. Brecht foi outro expoente desse tipo de jogo – a expressão ‘distanciamento brechtiano’ supõe que, quando o espectador tem certeza de que está diante de uma ilusão, e sente um ‘efeito de estranhamento’. Na literatura contemporânea, fez trabalha à perfeição com essa quebra é Sérgio Sant’Anna no livro O Homem-Mulher (não custa lembrar que é o melhor escritor brasileiro em atividade), em que aproxima a metaficção da autoficção.

Pensei em escrever mais sobre o assunto, mas me deparei com um ótimo post nesse blog nerd que traz vários exemplos no cinema. E neste vídeo temos outros grandes exemplos.

É preciso ser um bom pedreiro pra quebrar uma parede

Quando a quebra ocorre em cenas muito especiais da série House of Cards, temos aí uma iluminação disruptiva (me refiro aos momentos em que o ex-todo poderoso Kevin Spacey pisca o olho para o espectador). Mas na maior parte dos casos, tanto no cinema quanto na literatura e no teatro vemos um narrador metido a espertinho que somente manipula seus personagens, tentando se mostrar superior a eles.

É também muito comum que a metalinguagem na quebra da quarta parede esbarre na autoficção, ou seja, o autor acaba falando mais do fazer literário do que da história que estava contando antes de se meter a comentá-la. E, se você não é o Mario Levrero em O Romance Luminoso, fica uma coisa muito cansativa e boba e chata e feia. É preciso haver algum motivo, alguma graça para o escritor se intrometer no novelo que está fiando. É preciso que exista uma outra história, fora do corpo do escritor, fora do corpo do texto, para que o escritor a invada. Só falar sobre o tema de escrever uma história, e só passar a impressão de muito esperto, não dá.

O escritor israelense Etgar Keret, notório por seus enredos criativos, às vezes realista-fantásticos, sempre provocativos e políticos (aqui tem uma boa entrevista com ele), usou a quebra da quarta parede para passar uma mensagem filosófica. No enredo de seu conto, ele narra a história de um escritor – ele mesmo – que, em bloqueio criativo, é procurado por três estranhos personagens armados: eles ameaçam matá-lo a não ser que lhes conte uma história. Um enredo por si só bem absurdo. Note que a estrutura narrativa é cumulativa, de gamification, em que os obstáculos vão crescendo.

Temos então duas camadas: a história em si e a história que vai sendo criada à medida em que o autor a conta. Ele amarra sua história por meio do bordão “de repente, uma batida na porta” que é um clássico clichê narrativo, sempre usado como gancho para viradas (existe um estado estável, então a batida na porta quebra a monotonia, como na Quinta de Beethoveen). A terceira camada, esta mais alegórica, demonstra que aqueles três personagens são tipos típicos de Israel, e que só conseguem resolver os conflitos pela via da violência.

Portanto é desse assunto que se trata esta história – e não de um escritor que não consegue escrever uma história e daí conta algo sobre sua crise narrativa. E a resolução do conflito, a mensagem subjacente ao conto, é: enrole ao máximo o seu leitor que ele não irá te matar; as narrativas servem para que as pessoas não se matem.

Como Sheherazade fazia com Shariar nas Mil e Uma Noites.

PROPOSTA

Bem, é isso o que você vai fazer. Vai quebrar a quarta parede.

Seu ponto pode começar exatamente depois desse tópico: “de repente, uma batida na porta“.

Quem será?

Alguém que você espera? Alguém inesperado? Alguém que vai interromper a ação que você está cometendo naquele momento? Alguém que vai trazer alguma ação? Alguém ameaçador? Alguém cobrador? Alguém presenteador? Alguém sedutor? Alguém absurdo? Alguém de outro mundo? Alguém que você conhece muito bem? Um duplo de você mesmo, mais velho, mais novo? O seu chefe? O seu CEO? O seu criador? O seu destino?

Nem preciso dizer que você é o personagem central e que o conto é narrado na primeira pessoa.

No entanto, não é preciso contar a sua própria vida. Você pode interagir com personagens reais ou inventados, objetos ou animais. Pode interagir com o próprio texto enquanto o vai escrevendo.

Restrição: não entre nessas de citar a oficina literária, o professor, a proposta, etc, isso é muito bobo e já foi feito milhões de vezes.

Restrição 2: ambiente o seu conto em um único espaço, em um único tempo, com poucos personagens.

Restrição 3: use 50% de diálogos e 50% de contação.

Restrição 4: vá escalando a tensão da sua história pelo princípio “quanto pior, melhor: se as coisas vão mal, a ficção vai bem”.

Restrição 5: pense em um tema geral que norteie o seu texto:

  • violência
  • espiritualidade
  • fome
  • desgosto
  • acaso
  • honra
  • empatia
  • dinheiro
  • competição
  • erotismo

Em uns 8 mil toques.

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