A viagem definitiva

Leandro Reis

Quando ouvi as primeiras batidas na porta, o costume me trouxe a imagem do punho anêmico de Jaime, seu corpo levitando pelo gramado da entrada da cabana com meu café da manhã. Havia essa regalia por tomar conta do estoque do Manco, algo que ninguém queria fazer naquele fim de mundo, engolido pelas fileiras de eucaliptos, a dezenas de quilômetros da cidade. Mas eu tinha aceitado. Ficaria duas semanas cuidando do estoque, um estoque abstrato, pois eu não podia saber o que continha nem onde estava escondido. Naquela época eu queria ser escritor, o que me levava a aceitar qualquer trabalho que sustentasse minha ausência de profissão. No dia em que o Manco me ofereceu o serviço, pensei imediatamente na revista da Senhorita Pandora, uma jovem herdeira que não queria apenas aparecer nas colunas sociais, mas nas literárias, circular pela elite cultural como uma benfeitora ou uma agiota. Ela tinha acabado de lançar uma revista com os novos ficcionistas do estado, muito concorrida justamente por pagar aos selecionados uma quantia considerável. Pensei: em duas semanas isolado consigo escrever um conto que vai me tirar da pobreza e do anonimato. Então, toda manhã, Jaime, o caseiro morfinômano, trazia um pão torrado e um café com gosto de terra para que eu iniciasse o dia de trabalho.

Mas ao cabo de dez dias eu só tinha fumado maconha. Algo na disposição repetitiva das árvores, no ar puro e mentolado que invadia a cabana não me deixava alternativa. Num lugar como esse não é preciso escrever, era a minha desculpa. Num lugar como esse só se quer ser uma árvore, e uma árvore só ouve e vê, não fala, muito menos escreve. Manco teria crises de riso se soubesse que eu estava lá com a intenção de escrever um conto. Só não sei se realmente acharia engraçado, se gargalharia – talvez de desespero ou raiva – quando eu lhe contasse sobre a visita que recebi naquela manhã, a primeira manhã em que não recebi meu desjejum.

Eu estava recortando imagens de umas revistas velhas que tinha achado na cabana, tentando encontrar alguma combinação que detonasse a ideia do conto, trouxesse algo à luz, mas eu só fumava e ria das associações que fazia, ria do pelicano com cabeça de búfalo, de Cristo carregando a cruz usando o vestido esvoaçante de Marilyn Monroe. Eu ria tanto que a princípio quase não ouvi as batidas na porta, e quando elas se tornaram mais incisivas comecei a estranhar, não podia ser o punho raquítico de Jaime com aquela força. A verdade é que eu podia ter suspeitado. Alguns experimentos, sobretudo quando se zomba deles, podem ter consequências. Apaguei o bagulho e fui atender.

De fato, o homem não era Jaime, e o que ele usava para bater na porta não era um punho, mas uma espingarda. O corpo alongado pela magreza erguia na cabeça um chapéu panamá escondendo parte da testa, mas pude ver suas feições derretidas, as feições dos clientes do Manco. Porém, estava bem vestido, de terno e gravata, calças sociais cinzentas e bem passadas. Segurava a arma como um soldado de chumbo, apontada para o céu, o que me deu certo alívio, talvez esperando que eu o convidasse a entrar. Foi o que fiz.

– Deixe a porta aberta – ele disse, entrando com muita calma, olhando para todos os lados, antes de se sentar à mesa da cozinha, onde descansavam as imagens recortadas.

– Não tem mais ninguém aqui, não tem nada aqui – eu disse, para tranquilizá-lo (para me tranquilizar).

– Bem, considerando as informações de que dispomos hoje, isso é algo que nunca se pode dizer com certeza…

Sua voz era anasalada e muito pausada; uma voz antiquíssima e mecânica, como tocada por um gravador velho. Enquanto eu me sentava na outra ponta da mesa, ele resolveu exibir sua destreza num gesto brusco, recarregando a arma, depois mirando em algum ponto fora da cabana para dar dois tiros, estourando meus tímpanos com o barulho.

– Ratos. Roem as raízes das árvores. São uma praga controlável, como os insetos, mas é preciso querer controlar, querer enxergar. A exterminação é um caminho sem volta, para os exterminados e sobretudo para os que exterminam…

Definitivamente não era um cliente do Manco. Talvez fosse um amigo de Jaime, embora eu arriscasse que Jaime não tinha contato com ninguém há muito tempo, que fosse um bicho da floresta, que conversasse apenas com suas visões narcóticas na casinha que ocupava a poucos metros dali. Eu olhava para fora, onde o forasteiro tinha atirado, procurando pela figura esquelética de Jaime. Mas talvez o homem já o tivesse visitado antes de bater à minha porta.

– Você quer uma água ou…?

– Uma Coca-Cola com vodka, gelo e limão, se tiver. Pepsi, não, nunca…

– Não sei se tenho…

– Então, garoto, é melhor se sentar de volta e ouvir o que tenho a dizer – ele meneou a espingarda na minha direção e depois para a cadeira, duas vezes, e eu sentei fechando os olhos, sentindo um calafrio subindo pelo corpo.

Então, através da mesma porta aberta para o forasteiro, e deixada aberta para satisfazer seus instintos assassinos, entrou a rajada de vento que revelaria a verdadeira face do meu algoz, derrubando seu chapéu na mesa, bem em cima dos recortes espalhados, como uma folha seca cai da árvore: era Guilherme Burgos, o escritor drogado que havia matado sua mulher numa espécie de brincadeira entre bêbados.

Mas ele estava morto, a palidez e a magreza confirmavam. A destreza com a arma, não. Isso significava que eu também estava morto, ou que iria morrer? Mas foi outra coisa que minha boca disse:

– Senhor Burgos… eu te invoquei com as minhas colagens? Não era a intenção, eu… só queria rir um pouco.

Mas foi como falar com um morto, Burgos parecia não ter registrado os últimos segundos da conversa, nem parecia preocupado com o chapéu sendo empurrado pelo vento junto com os recortes, perdidos entre as frestas do assoalho.

– Acordei da Doença aos quarenta e cinco anos de idade, tranquilo e lúcido, e com uma saúde razoável exceto por um fígado enfraquecido e pela aparência flácida e alheia de minha carne, comum a todos que sobrevivem à Doença…

Enquanto dava o peso necessário a cada palavra, Burgos passava uma flanela no cano da espingarda, agora apontada diretamente pra mim e apoiada no tampo da mesa.

– No entanto, assim como o mentiroso inevitavelmente será acossado por sua mentira, o viciado pode apenas se despir de sua roupa, mas não de sua pele. Não muitos anos depois, eu estava novamente em poder da droga, com os olhos pregados na ponta do meu sapato por dias a fio. Até que, numa de minhas internações, fui apresentado por um colega à cura. Fazíamos trabalhos manuais no jardim quando ele tirou do bolso uma flor parecida com uma camélia, mas alaranjada. Ele a chamava, simplesmente, de A Flor.

Ele continuava a história no mesmo ritmo, sem deixar de apontar a espingarda pra mim. Seu colega na clínica, naquela mesma noite em que o apresentara à Flor, fugiu do quarto para fazer o chá com as pétalas, cujo efeito o faria esquecer para sempre qualquer outra droga. Se eu não estiver morto, pensei, ou morrer nas mãos desse lunático, já tenho o conto para a revista da Senhorita Pandora.

– Toda a minha vida eu sonhei com a viagem definitiva. E a Flor não era menos que isso. Todo o passado e todo o futuro condensados numa viagem impossível de ser descrita senão para os iniciados. Porque se trata, realmente, de uma viagem, no sentido físico do termo. Por isso eu posso estar aqui, ainda estando lá, no outro mundo, seja lá como vocês se refiram aqui… aqui onde?

– Espírito Santo. Você está no Espírito Santo.

– Amém. Seja como for, a Flor faz seu corpo se deslocar sem amarras físicas. Trata-se de um deslocamento perpétuo, não necessariamente para o passado ou o futuro. E de onde venho, bem… não trago boas notícias. Não para os que gostam de um bom entretenimento hedonista… A Flor, assim como todas as drogas, incluindo o bom-moço da família, o álcool, foram proibidas. Completamente proibidas, extintas, erradicadas da face da Terra. As cidades estão abarrotadas de gente sóbria. A sobriedade é agora um problema de saúde pública. É uma insanidade. E a pena para traficantes e usuários é a mesma: enforcamento. O que me traz aqui, a este fim de mundo.

– E o que você quer de mim?

– Tempo.

Burgos então pegou a espingarda de cima da mesa e a apoiou nas coxas. Enfiou a mão direita no bolso do terno e pegou um envelope pardo. De dentro dele, retirou as pétalas alaranjadas das quais falava com tanto fervor.

– Você vai guardar isso pra mim. Pelo tempo necessário, até que aquela insanidade termine.

De repente, atingida por um vento contrário, a porta se fechou. Burgos se levantou e passou a caminhar pela cabana, calmamente, na iminência da ação, colando o ouvido nas paredes. Depois, com dificuldade – afinal, estava morto, ou pelo menos muito velho – se agachou, deitando a cabeça no assoalho. Largando a espingarda para o lado, deitou o corpo inteiro, quase se jogando contra as vigas de madeira, mantendo o ouvido colado. O gesto brusco tinha recuado as mangas do terno, deixando entrever as manchas pretas que tomavam o antebraço. Ainda ouvindo o que quer que fosse lá embaixo, ele escancarou os olhos na minha direção; ato contínuo pegou a espingarda e apontou para o assoalho.

Foram vários tiros contra o piso, e eu já não ouvia mais nada além de um zumbido, e quando tentei me levantar da cadeira, Burgos me acertou com o cabo da espingarda no peito. Caí no chão e decidi ficar lá, esperando o tiro de misericórdia. Mas ele não veio.

O pó dos tacos de madeira tinha se condensado numa nuvem dentro da cabana, mas eu podia ver a silhueta de Burgos descendo pelo buraco. Corri até a porta, já pensando no início do conto que enviaria para a revista da Senhoria Pandora, conto que eu teria que fantasiar, porque ninguém acreditaria apenas nos fatos. Antes de sair, dei uma última olhada para Burgos, sua figura fantasmática dentro do assoalho enchendo os bolsos do terno com o estoque do Manco, as pétalas voando em meio à poeira e a risada de Burgos ecoando como uma fita infinita…

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