Ching Ling, boa noite, faça o seu pedido

(Angélica)

A campainha toca. Deve ser o yakissoba. Não, é. Um cara alto, com o cabelo nos ombros e o formato do rosto quadrado dá um pulo pra dentro da minha casa quando abro a porta. Está vestido com uma jaqueta de couro e uma calça jeans meio suja. Recuo assustada pensando que é um assalto. Logo pergunta se sou eu que publico “aquelas” histórias nas redes sociais. Balanço a cabeça dizendo que sim. Pelo jeito frio que me olha e por ver que carrega alguma coisa no bolso esquerdo, começo a suar. Ele pede que eu vá pra frente do computador e escreva o que ele disser. De tanto que meus dedos tremem não acerto as teclas. Fora que não consigo pensar em outra coisa que não seja em como sair dessa.

Marcelo Picadinho decepou a cabeça da mãe com um cutelo, não só porque queria matá-la, mas acima de tudo pra poder arrancar as cordas vocais com facilidade. Era um modo de garantir que ficasse quieta para sempre. Não aguentava mais ouvir sua voz e muito menos seus comentários ácidos. Fez isso com um pegador de gelo. Depois colocou o tecido musculoso numa assadeira. Enquanto esperava o forno esquentar, ficou imaginando onde poderia esconder o corpo. Ao sentir o cheiro do assado, lembrou que ainda não havia comido. Estava fora de cogitação ter um pedaço da sua mãe caminhando pela sua barriga. Resolveu sair. Pra evitar surpresas, trancou o quarto da velha. A língua pra fora da boca com a dentadura ao lado era uma espécie de troféu. Na volta, assaria ela também. Depois de caminhar umas dez quadras, viu a silhueta de uma mulher numa janela. A cortina branca transparente atrapalhando a visão foi o gatilho pra querer entrar. Toucou a campainha. Assim que ela abriu a porta, percebeu que era mais magra do que parecia, mas em compensação tinha uns seios bem maiores. De tão simpático, logo eles estavam conversando no sofá. Entre uma risada e outra, ele a amarrou. Pra não estragar os seios que eram lindos, cortou uns bifes da bunda com uma faca do armário da cozinha. Não se importava que o jantar fosse mirrado, já que não havia muito recheio lá. O espremedor de carne ele trouxe no bolso, não era em toda casa que se fazia almôndegas. Moeu tudo e em seguida temperou com sal e cebola.

Em cada linha desmaio um pouco, só não despenco de vez porque não é aconselhável desmaiar ao lado de um psicopata. Leio pra ele o que escrevi. Na verdade, de tanto medo, parece que mio. Se for fazer alguma coisa comigo pra que eu nunca mais crie histórias idiotas, é bem provável que desista da minha bunda e abra a tampa do meu crânio pra arrancar o cérebro. A imagem de uma travessa cheia de couve-flor à milanesa passa pelos meus olhos sem me dar trégua. Ainda bem que gosta do texto. Como se não soubesse o próximo passo, fica agitado e torce as mãos. Posso sentir seu bafo se aproximar das minhas orelhas. Apreensiva, levanto os ombros e fecho os olhos.

É só uma olhadinha na tela. A campainha toca outra vez, não sei se pra minha sorte ou azar, porque ele faz uma cara de fronha amassada. Pergunta se estou esperando alguém. Digo que é meu jantar. Ele fala que seria bom comer alguma coisa, não consegue pensar de estômago vazio e me manda abrir a porta. Um japonês está parado em cima do capacho, só que não segura nenhuma caixinha vermelha. Ele entra como se já me conhecesse e tivesse sido convidado. Não entendo nada, mas nessa altura do campeonato é melhor não entender e acho bom que venha se juntar a nós. Usa uns óculos redondos e a mandíbula inferior é tão projetada pra frente que parece uma gaveta aberta, daria pra guardar umas meias atrás dos dentes. No bolso da japona de nylon também tem um volume. Ele diz que quer que eu escreva algumas de suas ideias. Dou um gemido baixo. Estamos fazendo isso, respondo apontando pro meu amiguinho psicopata, que ao contrário do que eu esperava, não se irrita com sua presença e parece curioso. Leio o que escrevemos até então. O japonês diz que a parte da mãe está perfeita, não poderia ser melhor, mas que depois falta pimenta. Achou pouco? Nervosa, roo a unha do dedinho até ficar em carne viva. Ele dispara como se sua boca fosse a tampa de uma chaleira que não para de bater depois que a água ferve.

Ele percebeu que era mais magra do que parecia, mas em compensação tinha uns seios bem maiores. Murilo Doguinho quis a todo custo que ela fizesse uma strip-tease, que tirasse a roupa rebolando bem devagar até que a sua calcinha ficasse pendurada em seu queixo. Ela relutou esperneando e isso na verdade o deixou mais excitado, gostava de mulheres arredias. Resolveu amarrá-la na mesa de jantar. Lógico que pelada. Estava faminto. Assim que ele pegou uma coleira vermelha e larga que trazia no bolso, ela teve certeza de que ia ser estrangulada. Não era nada disso. Ele prendeu em seu próprio pescoço, e apertou até que faltasse um triz pra que morresse asfixiado, ficou subindo pelas paredes. Foi pra cima da mesa mordendo tudo que encontrava pelo caminho. Não conseguia engolir a carne que saía das mordidas, por sua garganta só passava um fio de ar, mas lambia o sangue com prazer. Os nacos voavam pro tapete. Só poupou a vagina, detestava pelos na boca. Comeria depois, de outra forma, pensou nisso dando uma risada sacana.

Nem consigo me mexer de tão perplexa. Quero chorar, não posso e não é aconselhável. Olho para os meus seios e curvo a coluna pra que eles fiquem menores. No instante seguinte, acho melhor não decepcionar e volto a ficar ereta. Ainda bem que a parte da strip-tease não deu certo, sou muito desengonçada, iam me matar só de ver o quanto isso seria ridículo. De rabo de olho confiro o tamanho da mesa, cabe umas duas de mim. De hoje em diante não vou ter mais mesas. Depois tento ver se os dentes dele são pontudos. Na minha ingenuidade, quando o japa começou a falar, achei que ele era só um ninfomaníaco, engano meu. Agora tenho dois amiguinhos psicopatas, e pior de tudo, se dão bem e babam a cada passo da história. Quando estou salvando o arquivo, a campainha toca. O yakissoba, penso. Além de eu ser o acompanhamento, ainda vou ficar com fome. Mandam eu abrir a porta. Pra minha surpresa e alívio, um sujeito vestido com um avental branco diz que recebeu um chamado. Deve ser um enfermeiro, já que tem uma ambulância a uns poucos metros da minha casa com as luzes apagadas. Só que quando ele diz que o chamado foi telepático, tudo vai por água abaixo. Ele é moreno, tem a língua presa e às vezes gagueja um pouco. Pergunta o que estamos fazendo. Leio tudo outra vez e passo mal de novo. Ele quer mexer na história, está faltando molho. Vou me jogar no chão. Essa tortura não vai acabar mais, já estou num ponto que acho melhor morrer logo.

Quando ele fala Maurício Dentistinha viu a silhueta de uma mulher numa janela, a campainha toca. Agora é o yakissoba, só pode ser. Não tem espaço pra mais um psicopata nessa sala. O entregador, que deve ter uns treze anos no máximo, arregala os olhos ao se deparar com os três na porta. Cada um com uma cara mais assustadora do que a outra. Não parece que querem comer só o que ele veio trazer. O garoto coloca a caixinha na mão de um e sai correndo, nem pega o dinheiro, deixa pra lá. Aproveito que estão brigando pela comida e corro também em disparada. Mal dou uns passos e sinto alguém me agarrando por trás. Tento me soltar, um tecido me envolve imobilizando meus braços. Dois homens com um uniforme azul-claro me levam pra ambulância. Uma viatura de polícia está estacionada ao lado. Escuto um guarda dizer no rádio: prendemos a Deliveryzinha, até que enfim esse caso acabou, pusemos um ponto final na serial killer que esquartejava os entregadores.

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