Eu só queria transar

Três, o cara conseguiu juntar três dates na mesma mesa, no mesmo dia. Ele já tinha dado mostras mesmo de que a inteligência dele estava toda reunida nas pernas malhadas e no peitoral, hm, digamos, apetitoso. Não sei se ele queria se achar muito desejado, aliás, isso era óbvio, ou se só tinha errado na conta mesmo. Se ele não queria que eu fosse, por que me mandou fotos e vídeos mostrando que estava lá? Aquele era meu bar. Mas infelizmente era o dele também, apesar de nunca termos nos reparado por lá antes até uma semana atrás.

Eu tinha acabado de sair do metrô e, no vagão, uma garota entrou esbaforida, correndo, antes da porta se fechar. A coitada freou o impulso assim que o aviso sonoro tinha acabado de soar e acho que foi passar a mão no rosto para tirar o cabelo da cara, ou se recompor de alguma forma que não reparei bem. Só que esse intervalo de tempo ela calculou mal e, assim que o trem começou a andar, ela levou um solavanco e meio que caiu em mim. Ela só não caiu de verdade, machucando nós duas, porque foi rápida para segurar a alça de plástico que colocaram nas barras de ferro. Ela era branca, loirinha, olho azul, óculos daqueles de aro dourado redondo e ficou tão vermelha de vergonha que parecia que ia explodir. Fiquei com pena e tentei consolar, dizendo que não tinha problema, que acontecia, que não era grave etc. Acabou que conversamos pelas cinco estações que faltavam até a República.

Ao sair no meio da praça, fui direto para o Bar do Juarez encontrar minhas bichas. Seriam as únicas a entender as fúrias acumuladas no pensamento lendo as notícias, o homem branco hétero que chega com uma ideia empreendedora que vai revolucionar a vida sofrida de tantas mulheres. Como se não se tratasse só de dinheiro, estão gourmetizando até o sexo. Não pra cima de moi, quer dizer, de nous. E não é que quando a gente tá no auge da expiação da raiva, xingando na mesa de madeira mambembe na calçada, chega a menina do metrô, que tinha ido buscar o cachorro pra passear e chegou lá com um amigo, outra bicha, a tira colo? E cumprimentou todo mundo da mesa atrás da nossa, depois me viu e fizemos a maior festa. Ela contava a cena dela caindo em cima de mim dando gargalhadas. E eu complementava a história, adicionando alguma dramaticidade, já direto para os amigos dela. Pronto, juntamos as mesas. E foi assim que eu conheci o Gostoso.

Ia entrando cerveja, a bicha da menina ia tentando se enturmar com as minhas bichas, sem sucesso. Chico foi o primeiro a ficar com pé atrás. Cético quanto à aprazibilidade da nova galera. Depois eu descobri que ele estava certo, enquanto eu preciso de duas semanas pra sacar as pessoas. Soltinha, todo comentário que eu fazia a respeito do Gostoso, pra quem eu nem tinha ainda dado esse apelido, o que fiz com a única e exclusiva intenção de objetificá-lo, sim, a bicha má cantava um funk e dizia que eu estava sendo muito direta, “maravilhoso, mas ele é meu”. “Mas ele não é hétero?”. “Quem disse?”. “Acabou de dizer que tem um filho!”. “E daí?”.

Me voltei para o ritual bichesco de expiação da raiva oprimida na sexta-feira. Porém recebi uma promessa: “tô indo pegar meu filho, mas tá marcado nosso date”. “Marcado”, não vacilei, mas duvidei. Meia hora depois chega a solicitação no instagram. Aceitei e fui ver as fotos. Eu finalmente ia transar com um cara gostoso. Gostoso mesmo. Pele morena, lisinha. Sem trejeitos de bombadão. Sem barba milimetricamente cortada. “Nesse eu vou descer escorregando, bem que esse date já podia ser hoje”.

Quando eu penso “podia ser hoje”, não tem o que segure minha ansiedade. Ele deve ter percebido, só pode. Postou foto no espelho da academia com os shorts levantados no dia seguinte, às 7h. Quando acordei no sábado de manhã, leve ressaca a ser sanada pela corrida no minhocão antes de trabalhar, eu vi e respondi: “gostoso antes das 8h”. “Que isso, recebi um gostoso assim de graça”. “De graça nada, todo malhado e suado aí se mostrando”. “Tenho compromisso daqui a pouco na escola do meu filho”. “Emoji da carinha derretendo” – mas, na boa, E EU COM ISSO? No mínimo eu esperava um “você pode ter todo pra vc”. Sei lá, eu sou cafona porque estou sendo direta. Quem é direto não tem nada a perder. Mas se você não quer, sai pela tangente. Achei um bom teste para saber se ia rolar mesmo.

No meio da corrida, pensando nessa troca edificante de mensagens, me veio um: “Por que não?”. Escolhi um ângulo de cima pra baixo e mandei uma foto suada, de top, na opção em que só pode abrir uma vez, dizendo: “me inspirou pro treino do dia”. Nada de resposta. Deve estar em reunião de pais. Banho, roupa, partiu trabalhar no sábado que ser pobre é isso aí mesmo. Lá pras tantas, a resposta: “que demais ler isso, fico feliz em inspirar pessoas, obrigada pela vibe”. “Emoji de flor, brilho e sol”. O-b-r-i-g-a-d-o p-e-l-a v-i-b-e. Me transformei automaticamente no emoji da menina batendo a mão na cara. E vida que segue.

Domingo é domingo, não existe. E começamos a semana, vendo os stories na esperança de aparecer uma selfie pra comentar. Segunda-feira, dia de academia. Já tinha semi levado um fora, mas sou guerreira. Foto andando de bicicleta. Lógico, aquelas coxas não eram só de cadeira adutora, abdutora, sei lá que ora, da academia. Gato suado andando de bicicleta: “emoji de SOS”. O bróder me responde com um “o que aconteceu??”. Na minha cabeça, um emoji de buraco. Na vida real, foi num buraco mesmo que joguei fora qualquer senso. “Nada, só um princípio de incêndio aqui vendo esse story”. “Incêndio. Precisa de algo pra apagar”. Gênio. “Posso tentar ajudar”. Finalmente! Figurinha do zap em que os caras olham todos pra tela do celular e comemoram. “Precisa”. “Pode contar comigo ok”. “Só você pode me ajudar”. Foto instantânea com o filho. Jesus, por que me abandonaste?

Mais tarde fiz uns polichinelos de calça e camiseta só pra dar uma suadinha. Selfie com roupa de ginástica. 5 minutos e a resposta. “Me chama de bombeiro que eu apago esse fogo”. Agora vai! “Já tô ligando pra essa emergência”. Piadinhas sem graça pra lá e pra cá: “quando serei socorrida?”. “O pai tá on, só quando tiver agenda”. Queria que fosse o Robyssão, quebrador de cama box, que diz que depois do Mc Donalds, é tetéu direto.

Corta. Não era promissor. Uma semana acompanhando as redes do Gostoso também não foram lá tão animadoras quanto à pessoa dele. Mas era um gostoso. Em época de seca. E qual que não é, não é mesmo? Experimenta ser mulher de mais de trinta. A cada dia que passa é mesmo como se uma camada do seu rosto e do seu corpo morresse aos olhos dos homens. Eu não sei como que tem tanto homem feio e tanta mulher de mais de 30 sobrando. Mas eis que, fim de tarde de domingo, foto instantânea surge nas mensagens. O gostoso e a bicha que eu vim a descobrir que é malévola – nem vou aprofundar, só digo isso pra adiantar porque de gente desinteressante a gente não conta a história – mandam selfie na frente do Juarez. “Querooo”, respondo. Vídeo instantâneo chega. Eles se abraçando e fazendo carão dando umas bicadinhas na cerveja como se fosse vinho rosé em taça de cristal.

“Tô indo, chego em meia hora, vão estar aí?”. “Tenho que sair em 15 para pegar meu filho”. Reviro os olhos mirando o celular, não recomendo fazer isso quando o brilho da tela está no máximo quase cega. “Bom, vou assim mesmo”. “Chico, vamos no Juarez tomar uma?”. “Vamos, que hora?”. “Agora, e o Gostoso tá lá, por pouco tempo, vamos rápido, mas me encontra no metrô pra gente chegar juntos”.

A trinta metros do bar eu sentia meu coração palpitar como se eu fosse encontrar um date pra ir no cinema e beijar na boca pela primeira vez. Respirei fundo e pensei: cadê a Carolina malandrona que fica mandando mensagem ousada pros homens? Vai chegar natural, simpática, acostumada com a situação. Mal aparecemos no bar e na mesa dele está um match do Chico, que me cutuca e diz: “fui na casa dele, deu erradíssimo e ainda fiquei devendo metade da pizza”. Emoji de palhaço, mas a gente está no ao vivo. “Finge naturalidade, bicha, porque depois dessa cena não rola nem dar uma de tímidas e sentar em outra mesa”. Climão enquanto a gente se acomodava, mas acho que fingi bem. Papo vai, papo vem, o gostoso fica sumindo e voltando para a mesa. Numa das voltas, ele chega por detrás da minha cadeira e sussurra, “e nosso date?”. “Tô esperando”. Não era hoje? Ah, é, ele vai ficar pouco pra buscar o filho. “Quarta?”. “Quarta”. “Tô na sua, confia”. “Aham”. Dei um gole na cerveja que não brindei e pensei, “ai, que saco, mas o que são mais alguns dias pra quem já passou a semana nessa?”. Ele some de novo. Acho estranho que dessa vez demora mais a voltar e resolvo mandar mensagem. “Acho que você ficou sem graça que eu vim, né? Desculpa, não era a intenção”. Ele volta com uma “amiga”. Feeeeia de doer, pelo menos. Chico me olha com uma cara de que, sim, é feia. Enquanto isso a amiga do match de Chico fica chamando o Gostoso pelo apelido – desculpa, essa personagem não vai ter nome, porque a identidade dele é ele ser gostoso, nada mais do que isso – e falando coisas que não tem nada a ver com aquele ambiente, como: “amanhã a gente vai comer ostra, né?”. Querida, quem é que vai no bar do Juarez um dia e comer ostra no outro? Olha as roupas de esporte detonadas que estamos todos usando. O dólar está mais de cinco reais, você é filha de político governista, é? Mas é assim, tem gente que viaja. Tipo eu viajei na maionese e percebi que, na verdade, a ostra era o date perfeito dela com o gostoso. Mas o melhor ainda ia vir.

A feia começa a se sentir cada vez mais deslocada. Me pede um cigarro. “Claro”. Não melhora. Ele responde a minha mensagem atrasado. Vai ao banheiro e me manda uma selfie. Oi?? É pra eu ir encontra-lo no banheiro? A esse papel eu não me presto. “Me poupe, rs”. Nisso a feia decide que vai até a padaria do outro lado da rua comprar um maço. Antes que ela acabe o copo que está bebendo, o Gostoso, que ouviu ela dizer o que ia e precisava fazer, se antecipou e já estava lá na esquina, dentro da padaria. Entendi tudo. Ele está pegando uma das feias, date marcado com a sem noção amanhã e eu fiquei pra quarta. Chico já tinha realizado isso três rodadas de cerveja antes de mim.

Cutuquei Chico com a perna, mandando ele olhar o celular. “Agora a gente não pode sair porque se não eu vou ficar de amargurada, quero sair linda e sem estria, inclusive porque, né, a concorrência é fraca”. Com certeza eu era a mais velha, porém de longe a mais interessante – e olha que nem tenho autoestima pra isso. Na volta da padaria, eles ficaram se pegando ali mesmo. Eu olhava a blusa de malha da feia e pensava: “não é possível”. Olhava a sem noção e: “não é possível”. A mesa não conseguia engatar um papo decente comigo e com Chico. Pedi um bolinho, esperei uma rodada e fomos embora. Dei abraço em todes. Chamei de amigue e disse que foi ótimo o encontro. “Não ia pegar o filho, desgraça?”. Eu e Chico saímos com a boca prestes a explodir de tanta vontade de fofocar. Sentamos no bar mais próximo, mas fora da vista e assim que a gente se sentou, falamos juntos: “Amiga, o que foi isso?”, Chico levando a mão na boca e eu na testa.

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