por Américo Paim
Ela quis assistir a um filme melento em pleno sábado à noite. Topo qualquer negócio e de hoje não passa. Acabou o chove não molha. Milena, hoje você vai ser minha. Nem acredito. Meses cercando a criatura! E a primeira vez vai ser no apartamento dela. Confiro o visual no espelho próximo à porta. Checo perfume, desodorante e bafo. Tudo na paz. A campainha tá quebrada, ela me avisou. Vou bater, mas ela abre antes.
– Oi, Décio.
– Caramba, Milena, tá linda.
– Obrigada, entre.
– Gostei do apê. Quem decorou?
– Fiz muita coisa e me ajudaram também. Sente.
– Esse cheiro bom é incenso?
– Sim, perfuma e afasta os maus espíritos.
Ela tem um DVD player, véi. Quem tem isso hoje? Coloca o filme: “Ghost”. Nunca vi. Começa até tenso, legal, só que acho que a historinha de alma penada vai ficar água com açúcar. Dou risada com Oda Mae, só que preciso esquentar o clima. Sugiro bebermos, ela resiste. Tento de novo no meio do filme e ela topa, enfim. Traz duas taças de vinho. Brindamos. Quer o filme de novo. Não deixo. Falo bestagens aqui e ali, naquele cerca lourenço. Sinto que tá ansiosa, sem querer dar ideia de oferecida. Não me ligo muito na conversa. Bebo rápido. Ela repõe. Puxa papo sobre tempos antigos, coisas que fez na vida. Luto pra mostrar interesse, mas só olho para aquela boca vermelha. Vejo coisa onde nem tem. A pele parece seda. E esse cabelo? Acelero e acabo a segunda taça. Ela vai pegar mais, eu vou atrás. No balcão da cozinha, falo no pé do ouvido que estamos perdendo tempo. É libertador! Beijos e amassos recompensam. Quero fazer ali mesmo. Ela me controla. Tem que ir ao banheiro. Por que isso, jesus cristinho? Me manda esperar na cama. Cismado, não tiro a roupa. Ouço barulhos. Spray, gaveta, vidros se batendo, um pigarro. Opa. Isso não foi ela. Coisa da minha cabeça? Eu ouvi alto e claro e veio da sala. Vou até lá, devagar e já assustado.
– Quem tá aí?
– Relaxe, não tenha medo.
– Ernestão? Que porra é essa, cara? Eu tô sonhando?
– Não, véi, sou eu.
– Cara, pera aí, cê morreu!
– Só que tô aqui.
– É uma brincadeira, né? Cachaça errada da porra!
– Precisamos conversar.
– Oxe, papo com alma? Aonde…
– Foi complicado essa autorização.
– Rapaz, que merda é essa… Num tô gostando da piada.
– Tô com cara de riso? Senta aí.
– Véi, que diabo é isso?
– Não cite o cramulhão, escute.
– Vixe…
– Acho incrível que você está quase comendo a minha ex.
– Peraí, muita calma nessa hora…
– Te conheço. Veio aqui passear?
– Bróder, já tem três anos que cê morreu, na moral! Veja só…
– Veja só o cacete. É um corno interdimensional, do além, sei lá.
– Rapaz, que chique.
– Não deboche. Tenho pouco tempo e só posso usar três pigarros.
– Hein?
Me ajeito na cadeira e olho para aquele misto de corpo e fumaça que diz ser o meu amigo. Tá até parecido com ele. Milena chama. Ela tá a diabinha deitada na cama. Invento que tenho que atender ligação de urgência do trabalho. Na varanda do apartamento, ele me fala que preciso cuidar dela, que tá correndo perigo. Ficou com um sujeito em uma festa. Tava bêbada. O cara é barra pesada, coisa de tráfico. Pergunto quem é. Só me diz que ele não vai sossegar até descobrir onde ela mora. Tá obcecado. Eu rio, mas aquela cara branca feito lençol me diz que é sério. Mesmo assim, aviso que tô cansado da esculhambação.
– Não acredita? Posso provar.
– Ah, tá. Sabe tudo? O que eu tô pensando agora?
– Oxe, não sou vidente. Sou um morto licenciado.
– E aí? Me diga uma coisa que eu não sei ainda.
– Você roubou dinheiro de seu sogro pra comprar cerveja no carnaval de 1992.
– Epa, ninguém sabe disso. Só quem sabia era…
– Eu. Você me contou.
– Ah, quem garante que o filho da puta do Ernesto não falou pra alguém?
– Eu sou Ernesto. Respeite os mortos.
– Qualé, véi, você é alguma coisa aí…
– E o dia que você traiu Claudinha com aquela ruiva?
– Não sei do que tá falando.
– Sabe sim. Ficou fudido porque ela não era mulher e mesmo assim você apaixonou.
– Oxe, que porra é essa? Pirou?
– Só Ernesto, ou seja, eu, sabia disso. Vai negar?
– Papo estranho da mulesta.
– Preciso de você. Vai ajudar ou não?
Ela me chama de novo. Administro. Acontece que ela não é burra. Ernesto é bem claro: preciso tirar Milena daqui e tem que ser logo! Estamos por um fio. Digo que ele é só um pluft ciumento e quer sacanear minha transa e ele responde que até gostaria, mas não pode interferir. Reforça que a situação é grave. Ainda sem acreditar, vou para o quarto, rindo da história do corno fantasma.
– Assim você me esfria…
– Não, claro que não!
– Tira logo essa roupa. Esse papo de trabalho lhe amoleceu.
– Que é isso… Uns problemas aí.
– E resolveu tudo?
– Tá encaminhado. Me tira uma dúvida?
– É o quê?
– Você transava com Ernesto aqui nessa cama?
– Oxe?
– É que ele era meu amigo, você sabe.
– Décio, ele já morreu faz tempo.
– Você não fica meio cismada?
– Tipo o quê?
– Como se alguém lhe observasse.
– Esse filme subiu pra sua cabeça…
– É que fazer na mesma cama…
– Olhe, acha que virei freira, que aqui é convento?
– Não, eu só…
– Ah, aqui nessa cama você nem faz ideia…
– Peraê também…
– A vida segue, a fila anda, já ouviu isso? Que risinho é esse?
– Nada não, é sobre uma questão interdimensional aí…
– Tá variando, é?
Ouço pigarro bem alto. Ela fica retada, mas volto à varanda. Como ela não ouviu? Ele retruca que só eu ouço. Digo que é bem conveniente isso e falo mais alto para ela ficar curiosa. Ele percebe e não recua. Diz que estou vacilando, que a coisa vai pegar. Aviso que descobri que já é corno do além há mais tempo. Ele corrige que nunca foi traído por um amigo. Ela chega.
– Oxe, cadê seu celular. Ouvi você conversando.
– Tô falando com ele. Cê não tá vendo?
– Ele quem?
– Ernestão! Aqui na minha frente! Seu incenso é de segunda, fia. Adiantou nada.
– Eu, hein, bate na madeira. Me inclua fora desse reggae.
– Olha ele aí, tá rindo e tudo!
– Ele tá assim batendo palma e jogando a cabeça pra trás?
– Isso! Então você tá vendo.
– Não, ele sempre ria assim, você não lembra?
– Não tá vendo mesmo?
– Olhe, se você não quer transar, tudo bem. Não vai fazer falta…
– Não, não, pera, pera. Calma aí.
– Eu nunca transei com maluco.
– Não tô doido. Ele tá aqui. Me pediu umas coisas.
– Olhe, tudo tem limite. Vou pra cama. Você tem cinco minutos.
Ernesto ainda ri, mas logo fica sério. Se o cara chegar e me encontrar, pode matar os dois. Velho, só pra eu não pegar sua ex-namorada? Vai se virar com uma anjinha aí… Vou para o quarto. Retomamos. As coisas não saem bem.
– Já são quinze minutos e nada. Tenho que reconhecer a derrota.
– Você ficou nervoso por causa daquela maluquice na varanda.
– Nunca me aconteceu antes.
– Descanse.
– E ele? Brochou com você alguma vez?
– Deixe de agonia, menino.
– Preciso saber.
– Tá bom. Nunquinha… Aliás, você é o primeiro. Pronto, falei.
– Porra… Pera, você ouviu o pigarro? E a gargalhada?
– Oxe, de onde? Só tem eu e você aqui.
Saio do quarto. Ele está na varanda, se divertindo.
– Risada escrota! Que espécie de espiritualidade é essa?
– Ainda sou novato.
– E isso lhe dá direito a sacanear?
– Tô numa missão, caralho, já falei.
– Oia só, palavrão e as porra. Que tipo de alma é você?
– Estou na ala orientada por Gregório de Matos. Lá pode xingar e esculhambar.
– Não podia ser Castro Alves ou Jorge Amado?
– Não tenho perfil.
– Você tem que ir embora.
– Agora que tá bom?
– É sério. Nunca falhei. É por sua causa.
– Nunca o quê? E Maria Lídia? E Camila?
– Não conta. Eu tava bêbado.
– Milena falou de mim com saudade…
– Filho da puta! Sério, vaza. Já deu seu recado.
– Fale com ela sobre o cara!
Volto à cama. Milena bebeu ainda mais e segue retada comigo, lista tantas trepadas que me sinto quase virgem. Quando falo do tal sujeito que tá doido atrás dela, ela silencia. Pressiono e me confessa que já faz uns dias que tem sido abordada pelo celular. O cara diz que ela tem que ser dele e de mais ninguém. Repito as frases em voz alta, para Ernesto ouvir. Digo que é melhor sairmos, mas ela me puxa para a cama. Tá cheia de tesão. Peço que se cale um instante. Chamo por Ernesto. Nem um pigarro. Tudo em silêncio. Ouço três batidas na porta.
