Você está me confundindo

Daniel Kehlmann é dos autores contemporâneos mais provocativos da Alemanha. Escreveu Fama (Companhia das Letras), um livro que pode ser lido tanto como um romance quanto como uma antologia de contos. Como A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, Kehlmann compôs um painel em que protagonistas de uma narrativa são coadjuvantes noutra. Todos os argumentos circulam ao redor da questão da celebridade em nossos dias, e o quanto a sua presença ou sua ausência pode contribuir para com a criação e o estabelecimento de uma identidade. Kehlmann tem uma prosa direta, objetiva e pontuada por sutis mergulhos psicológicos, sempre tendo a uma distância segura a crítica aos abismos sociais que formulam e separam as personalidades: a luta de classes está sempre presente em seus temas, em maior ou menor grau.

Boa parte das narrativas que compõem este romance tem origem num mal-entendido. São situações bizarras, causadas muitas vezes pela inversão de papéis entre quem vive a fama e o anonimato, ou por alguém que abandona a vida ordinária para viver algo extremo ou tomar uma decisão inusitada. Os personagens são escritores relativamente célebres – há inclusive um certo autor brasileiro de livros de autoajuda que mora num suntuoso apartamento com vista para o mar do Rio de Janeiro… -, um ator de cinema famoso que desejaria ser anônimo e pessoas comuns.

Daniel Kehlmann explora neste romance a fronteira tênue entre ficção e realidade. O narrador chega a dialogar com seus personagens, que às vezes protestam por terem sido incluídos no livro. Com sua prosa enxuta, ele mostra como a exposição, seja num livro, na televisão, nos celulares ou na internet, pode tornar as pessoas vulneráveis e mesmo causar a perda completa da identidade.

Vamos ler “Vozes”, o conto que abre o livro.

CLOSE READING

Tecnicamente, é um conto na terceira pessoa, com sutis intromissões do discurso indireto livre, calcado no estudo de um personagem e sua relação com sua família e seus colegas de trabalho. O conflito básico é sua entrega ao uso do celular, que até então criticava.

Não deixa de ser irônico o fato de que uma tecnologia seja o elemento que desestruture a vida de um sujeito que ganha a vida justamente com tecnologia. Alienação – de seu trabalho e também de sua vida – é um subtema importante nesta história.

O desenvolvimento do conflito – os enganos que surgem por conta do número de celular igual ou parecido do técnico em informática e do astro do cinema – é construído com graduações seguras. Aos poucos é que o leitor vai sabendo de quem se trata o outro. Kehlmann não tem pressa em criar seu suspense para nos prender a atenção.

Intriga neste conto o modo como uma existência simplória – e até então muito estruturada em sua simplicidade – é perturbada pela confrontação com uma personalidade mais complexa. O técnico em informática, ao ser confundido com um astro do cinema, passa a questionar seus próprios valores e o mundinho que o cerca. Passa inclusive a tomar atitudes imprevistas, que não condiziam com sua personalidade básica.

O ‘chamado do mundo’ faz com que ele deixe emergir um outro de si mesmo. A tecnologia, tal como ocorre na série Black Mirror, faz com que o protagonista se veja ao espelho. E o que vê nem sempre é positivo.

O conto faz com que perguntemos: até que ponto a construção de nossa identidade é resultado do confronto das identidades que nos rodeiam?

PROPOSTA

Com esta reflexão em mente, escreva seu conto. Seu conflito básico é o EQUÍVOCO.

Seu protagonista será confundido com outra pessoa. Como sua rotina será transformada a partir desse engano?

Importante: seu protagonista deverá trabalhar em um serviço braçal ou mecânico. Um fazer anacrônico, quase absurdo, sem o menor charme ou glamour, e que aparentemente não tem muito sentido.

Seu protagonista poderá:
* protestar contra a confusão de identidade;
* aceitar que se parece com outro;
* assumir a identidade de outro;
* investigar a personalidade do outro;
* todas as anteriores.

O equívoco poderá ocorrer:
* por homonimia (mesmo nome);
* aparência semelhante;
* voz parecida;
* algo que ambos (o protagonista e seu outro) fizeram;
* todas as anteriores.

O personagem-espelho poderá:
* ser mais famoso que seu personagem;
* ser mais violento;
* ser mais imprevisível;
* ser mais amoroso;
* todas as anteriores.

A ação acontecerá durante uma semana, de uma segunda-feira a outra segunda-feira. Você poderá usar situações do trabalho, da casa e do trajeto trabalho-casa para desenhar as cenas.

Narre na terceira pessoa, usando o discurso indireto livre, como se você conhecesse profundamente seu personagem; use também muitos diálogos entre os personagens que estão sendo confundidos.

Você tem uns 8 mil toques para brincar de esconde-esconde

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