
Alejandro Zambra é um dos mais criativos escritores chilenos hoje. Craque no conto e na novela, é especialista não só nos pequenos formatos como também nos pequenos espaços onde acontece a ação: memórias, apartamentos, cartas, quintais, anotações, coisas banais do cotidiano. Seu estilo é nada rebuscado: concentra-se na narrativa crua, simples e exata dos fatos, e parece ter uma profunda compaixão e intimidade para com seus personagens.
Zambra extrai o drama de eventos simples – por exemplo, conta como um garoto nasceu por causa de um toque de recolher, que fez com que os pais tivessem de se arranjar na casa de um amigo e acabaram transando. Em outras palavras, explica como Pinochet fez nascer uma criança… e como lidar com essa informação?
Em Meus Documentos, Zambra usa a vida útil de um computador para descrever a os ciclos de encanto, drama, tédio e deterioração de um relacionamento (de todo relacionamento?).
Suponhamos que, para contar a história de um personagem, não usemos sua história diretamente, mas o observemos com um elemento externo como espelho. No conto “Lembranças de um computador pessoal”, as histórias dos amores e dos desamores do professor Max são narradas tendo em perspectiva seu computador.
Da compra do computador ao seu descarte, o objeto é testemunha e ao mesmo tempo agente das frágeis ligações afetivas do protagonista — com sua ex-mulher, com sua namorada, com seus amigos e com seu filho.
Subtemas como a persistência e o apagamento da memória, a necessidade de conexão com amigos e amores, a desconexão com afetos distantes ou próximos propiciada pelo mergulho na internet, a tecnologia como facilitador ou como black mirror que revela o que há de pior no ser humano, são delicados contrapontos amarrando-se o tema principal: a vida e a morte das relações afetivas.
Zambra vai sutilmente acompanhando o esgarçamento dessas relações através da obsolescência do computador. Ele lança o foco da narrativa sobre o objeto, e com isso obtém uma tensão e uma unidade ao longo de todo o texto. Se ele não tivesse usado um objeto externo para dar conta da interioridade dos personagens, sua história perderia todo o drama.
O livro pode ser lido em espanhol via nosso querido site russo. Lá também há alguns Zambra editados pela Cosac Naify.
Em Múltipla Escolha, Zambra usa um teste muito famoso no Chile como estrutura narrativa de ficções breves. A estrutura de múltiplas escolhas serve para criar um distanciamento em relação às histórias, como se elas não fossem apenas verdadeiras, mas também passíveis de críticas ou miradas distantes. Ele a usa tanto antes dos argumentos quanto depois, como desdobramentos analíticos, do tipo ‘compreensão da obra’.
O encadeamento dos supostos exercícios também acaba por construir uma narrativa, e as múltiplas escolhas dentro de cada exercício possibilitam ao leitor explorar as possibilidades que cada personagem tem em escolher o próximo passo de sua vida.
Zambra acaba de ter lançado seu novo livro, o romance Poeta Chileno, e uma antologia com contos e novelas, Ficção 2006-2014. Desta antologia retiro “Tempo de tela”, que originalmente saiu na The New York Times Magazine no “The Decameron Project”, em 2020.
PROPOSTA
Baseado neste mesmo tema do conto do Zambra – a mudança das relações afetivas vista através da perspectiva de um objeto -, você escreverá um conto usando como fio condutor:
– uma bola
– uma geladeira
– um automóvel
– uma arma
– um móvel
– uma roupa
– um brinquedo
-qualquer outro objeto deste naipe
• usando como período de tempo:
– uma década
– um par de anos
– uma semana
– 24 horas
– um século
– alguns meses
– uma hora
• usando como protagonista:
– um político
– uma travesti
– um veterinário
– uma cozinheira
– um esportista
– um mecânico
– uma hacker
-você mesmo ou pessoas que você conhece muito bem
Procure não fazer associações óbvias; use diálogos; CONCENTRE-SE em ações.
Ao contrário da proposta anterior, a voz não será do objeto; a voz será de um protagonista que observa, usa, é usado ou antagoniza com o objeto.
Escreva na primeira pessoa, em até 8 mil toques.

















