(Bruno Vicentini)
Ela não consegue um banco na condução porque é segunda-feira, o dia em que o carro viaja mais lotado, e então ela vai de pé, segurando com as duas mãos na barra de ferro. A barra é quente e meio pegajosa, como algo que tivesse saído do estômago de uma besta. Jordana encosta o queixo no ombro e por um momento fecha os olhos, antecipando o cansaço do dia. Quando abre os olhos, um velho tá olhando pra ela, um velho assim nojento, com um jeitão assim de professor ou de maluco. Ela nunca viu aquele tipo por ali, naquela linha, naquele horário. O velho viaja sentado, de paletó, lendo jornal. O jornal lhe serve de esconderijo. Ele fica entrincheirado por trás do papel, mas agora ela já se ligou, já sabe qual é a do velho. Viu tudo o que tinha pra ver nos seus olhos famintos. Espera que seu olhar volte a procurá-la, o que, é claro, acontece em seguida, não demora nada. Jordana pergunta pro velho se ele por acaso perdeu o cu na cara dela. Quer lhe passar uma descompostura, uma daquelas, bem estridente, vexaminosa, pra ver se ele aprende. O velho fica meio vermelho, mas logo sorri, Calma, Minha filha, ele diz, bem assim, Minha filha, colocando as coisas em perspectiva. O povo do ônibus olha pra um e pra outro, sem saber a quem, afinal, dá-se a razão. O velho se adianta, se explica, É que você tá no jornal, Olha, É você não é, Olha aqui. Pescoços em volta se alongam e se inclinam, curiosos, tentando vencer os ombros. Jordana também espia, meio a contragosto, o jornal que o velho agora levanta pra que ela veja. Não tem como negar. Até o uniforme, tudo. É ela, sim. O título da matéria diz: “A Musa do Mercadinho: conheça a garota que inspirou o samba romântico Jordana”. Jordana fica vermelha, mais vermelha que o velho, muito mais.
Alguém lhe pede um autógrafo. Jordana explode num riso, Que autógrafo o quê, Mulher, logo depois se arrepende, percebe tarde demais que a mulher falava sério. Receia ter sido ríspida, antipática, e isso na primeira oportunidade. Ninguém mais se atreve a dizer nada e a viagem continua, as pessoas ainda olhando, quietas. Jordana fecha de novo os olhos. Quase perde o ponto. Quando desce do ônibus, volta a ser anônima e sente um certo alívio. Pouco depois sente falta da atenção, da curiosidade dos outros.
Do ponto até o mercadinho são só duas quadras e nenhuma banca de revistas. Ela então desvia um pouco do trajeto. Chega atrasada e com a gazeta ainda embaixo do braço, não se atreve a abri-la, quer ler depois, no horário de almoço, com calma. O gerente faz cara feia.
Jordana saboreia os humores dos clientes, os mais variados, enquanto passa as compras, pesa as frutas. Imagina como vive quem compra aquela marca de iogurte. Pouco antes do intervalo, o gerente reaparece, risonho, transformado. Traz uma cópia do jornal aberto na metade e mostra a matéria sobre Jordana, ela mesma, quem diria, a tal musa do mercadinho. Quer saber detalhes, pergunta quando foi que fizeram a foto, Foi aqui mesmo, Nos caixas, Não foi, Quando, Que eu não vi equipe, Não vi fotógrafo. Ela não sabe dizer. Responde que ainda não leu a matéria, não teve tempo, os clientes são muitos, um atrás do outro, ainda não parou. O gerente não acredita. Jordana, de certa forma, também não.
Na quarta-feira uma moça de cabelos curtos compra um punhado de chocolates e escolhe o caixa de Jordana, mesmo que a fila esteja maior. Diz que é produtora de TV, de um programa vespertino, da emissora local. Vão promover um encontro entre o autor da canção e a sua musa inspiradora, No caso, Você, diz. Vai ser ao vivo, Querida, No domingo, Horário Nobre. Explica que Jordana recebe um bom cachê pela participação e que a coisa toda é muito rápida, muito simples, Você só tem que sorrir pras câmeras, Só isso.
Àquela altura ela já leu a matéria e sabe que a história toda é, no mínimo, um gigantesco e desastrado equívoco. O compositor do samba morou ali, sim, mas há muito foi embora da cidade. Não, ela não o conhece, nunca foi sua vizinha e nem frequentou o mesmo colégio quando os dois eram ainda crianças, coisas que a matéria garante que ela fez. Conhece o samba, claro, assim como todo mundo, não tem quem ignore um sucesso daqueles, ainda mais ela, que tem o mesmo nome. O tal repórter baseou-se numa entrevista antiga do compositor e inventou o restante. Deve ter visto o nome dela no crachá. Tirou a foto ali mesmo, de maneira furtiva, e publicou sem qualquer tipo de autorização. Inventou toda aquela patacoada sem nem ao menos conhecê-la. Jordana agora entende. Ele com certeza não acreditou que a história fosse repercutir, se desdobrar. Que alguém ia ter a ideia de promover um encontro, a grande ideia de botar os dois, autor e musa, mais uma vez frente a frente, depois de tantos anos.
Pro povo ali do mercadinho, pros seus clientes e pros seus colegas, Jordana agora é Jordana, aquela, a do samba. Ela então sorri, pergunta onde fica o estúdio e a que horas.
Jordana não parece tão assustada ao entrar sozinha no palco, assim que o apresentador anuncia o seu nome, E agora, Com vocês, Ela, Que tá sendo chamada de musa do mercadinho, Vamos aplaudir, Jordana. Ela sorri e acena pros aplausos. A plateia é minúscula e o palco do programa não é nada como ela imaginou, parece uma antessala de dentista.
Antes, no camarim, a produtora lhe trouxe um copo d’água e dois comprimidos, Toma, Vai te fazer bem, Isso, Agora eles vão te maquiar, Veste o figurino, Tudo bem, Daqui a pouco eu te busco. Junto com os comprimidos, Jordana engoliu as perguntas que não teve chance de fazer, mas que talvez, justiça seja feita, não fosse mesmo fazer um jeito ou de outro.
No palco o apresentador quer saber sobre sua vida, sobre seu trabalho no mercadinho. Ela responde tudo, carrega na tinta, fala com desenvoltura sobre sua rotina de operadora de caixa. Agora ele pergunta sobre o samba, se ela sabia que aquele samba era em sua homenagem, aquele tremendo sucesso, se por acaso ela desconfiava. Claro que ela desconfiava, diz, claro, ela se lembra, sim, do autor do samba, se lembra de como eles passaram a infância, sim, se lembra das brincadeiras, que eles viviam juntos quando eram pequenos, viviam se provocando também, sim, até brigavam algumas vezes, uma vez brigaram feio, no colégio, sim, foi, no colégio, então ela sabia sim, quer dizer, ela desconfiava, desconfiava, é, mas lhe faltava a certeza, claro, sim, é isso, a certeza ela não tinha não, passou a ter agora, só agora, depois da matéria investigativa, depois que sua foto saiu no jornal. Mais aplausos quando ela termina. O apresentador sorri, Impressionante, Isso é mesmo impressionante, Não é, Vamos agora ouvir o outro lado da história, Vocês estão prontos, Vamos lá, e anuncia o compositor.
Quando ele entra no palco, com um violão a tiracolo, há luzes piscando, verdes, vermelhas e azuis, e também gelo-seco. Jordana pensa que na sua vez não houve gelo-seco. Queria que tivesse havido. Conforme a grande nuvem de fumaça se dissipa, ela caminha ansiosa e de braços abertos em direção àquele homem que aparece pouco a pouco, sem saber se ele vai reconhecê-la, depois de tantos anos, e retribuir o abraço.
