Estranho

por Américo Paim

Um domingo em suas últimas horas. Lúcio no banco da rodoviária vazia. Respirava devagar.

Veio no ônibus das 22:45h. Fazia calor em Pedra Velha. Um cachorro maltratado descansava ao pé de uma parede, abaixo da bilheteria já fechada. Não demorou para chegar ao hotel, que não era grande coisa, mas achou ótimo. Como despachante ele nunca tinha saído da capital. O serviço era simples: regularizar a escritura de um sítio. Tudo funcionando, massa, tem até ventilador! Dormiu logo depois do banho.

Segunda-feira, no café da manhã, suado, leu suas anotações. Deixou a chave na recepção. A moça que varria o chão lhe acompanhou observando, até que saísse. Ele notou.

No cartório, obteve o que precisava. Reparou que mais pessoas o olhavam, como no hotel. Suas expressões eram variadas. Conversou com o responsável.

– Só mais uma dúvida, Seu Moreira.

– Pois não.

– Umas pessoas me olham estranho aqui.

– É mesmo?

– Já notei pelo menos três.

– O que acha que é?

– Pensei que o senhor pudesse me dizer.

– Olhe, não tenho problemas com isso.

– Com o quê?

– Se um homem pagou suas contas com a justiça, está resolvido.

– Como?

– Passar bem.

Ficou espantado e voltou pensativo ao hotel. Conversa sem pé nem cabeça e eu suando igual a porco. Tomou banho e almoçou. Só tinha agenda para o dia seguinte. Foi andar. Na sorveteria da praça um casal mudou de mesa, afastando-se dele. O atendimento não foi cordial. Pessoal grossinho aqui, viu? Foi com o sorvete para o banco da praça. Reparou que não longe dali dois homens o encaravam, conversando. Vieram a ele. Quis sair, mas não deu tempo. Sentiu medo.

– Não avisou que ia chegar. A gente ia lhe esperar.

– Hein?

– O serviço da cirurgia ficou bom, nem se percebe.

– Olhem, não sei do que vocês tão falando. Eu tenho que ir.

– Certo, melhor não aparecer muito.

– Se precisar encontrar, já sabe como fazer.

Quem são esses caras? Que papo é esse? Naquela noite, o sono demorou. A cabeça não parava. Amanhã pergunto no banco. Devem saber. Na terça, logo cedo, contou a Beraldo, na recepção.

– Então, o que acha?

– Que o senhor tem coragem.

– O que quer dizer?

– Voltar aqui assim, depois de tudo aquilo.

– Tudo o quê?

– Acho que deveria ir embora.

– Por quê? Vim a trabalho. Nunca estive aqui antes!  

– Desculpe, estou muito ocupado, me dê licença.

Lúcio saiu para o banco de boné, pelo calor e para se disfarçar. A gerente, Dona Cenira, foi educada, mas o incômodo era indisfarçável. Resolveu o que queria e aproveitou para umas perguntas sobre o que estava acontecendo.

– O que a senhora pensa disso?

– O senhor deve saber.

– Eu não faço ideia!

– Ora, não é uma coisa que se esquece fácil, convenhamos.

– Se puder me explicar…

– Acho que aí já é deboche.

– O quê?

– Só tenho a lhe dizer que seja lá o que tenha feito, não disfarçou bem.

– Não entendi.

– Sua pele está um pouco mais clara e agora tem bigode e é só.

– Como?

– A cicatriz na sobrancelha, o trejeito com as mãos, o andar, tá tudo igual. E a voz, então?

– Eu nem sei o que dizer.

– O senhor me faça o favor…

Ele ficou mudo. Viu um sujeito perto dos caixas. Tá sorrindo pra mim. Vou lá. O papo foi rápido. Disse a Lúcio que estava do seu lado, como da outra vez, mas agora não era bom que os vissem juntos. E saiu discreto. Como da outra vez? Que diabo é isso? Tão me confundindo. Voltou ao hotel. Só sairia de novo na quarta. E se eu ligar pro chefe? Não vai acreditar. Ainda vai pegar mal na minha avaliação. Coisa doida, viu?

Na quarta, cartório de novo, depois uma lan house, para copiar documentos. Estava no balcão quando seu celular tocou. Número desconhecido. E agora? Deve ser do trabalho, melhor atender.

– Alô.

– Preste atenção, não vou repetir.

– Quem fala?

– Não vá dar de esperto tomando meu lugar.

– Quem tá falando?

– Resolvo seu problema rapidinho. Tá avisado.

– Alô? Alô?

Bateu medo. Tomar o lugar de quem? Bancar o esperto? Tô ficando é doido. Saiu para uma farmácia. Sua azia nervosa reclamava. O atendente foi simpático. Lúcio contou tudo. O rapaz lhe disse que desde o início da semana ouviu conversas sobre “aquele que voltou”. Falou pouco porque era novo na cidade.

– Não tenho nomes, se é o que quer.

– Que pena.

– Sei que é um caso que tem uns dez anos e abalou a cidade toda.

– O que houve?

– Difícil dizer. É meio que tabu, nem se fala direito.

– Sabe algum detalhe?

– Teve muita violência. Uma pessoa ficou bem machucada e outra morreu.

– Estranho. O que tenho a ver com isso?

– Não sei, mas deve ser muito.

– Isso não foi engraçado.

– Pode apostar que não ri com nada que ouvi.

Lúcio voltou à praça do outro dia. A porta da igreja estava aberta. Será que o padre não me ajuda? Sempre sabe tudo, né? O Pe. Diogo o surpreendeu. Não apenas não deu detalhes, alegando segredos de confissão, como lhe deu recado direto.

– Foi assim da outra vez. Me envolveu na história e aí aconteceu tudo.

– Pelo amor de Deus, padre. O que foi?

– Não use o santo nome em vão. Vá embora de uma vez. É mais seguro.

– O senhor podia me ajudar.

– Seu caso não tem mais jeito.

O desconforto lhe trouxe uma risada involuntária. A cara séria do padre assustou. A cabeça fervia. Voltou ao hotel. No dia seguinte, quinta, acordou cedo. Precisava ir ao tal sítio. É perto. O ônibus deixa na porta. Vai ser tranquilo. Ia descer para o café quando viu o envelope no chão, junto à porta. Checou que não havia ninguém no corredor. Será que colocaram à noite? Abriu com as mãos tremendo. Um pedaço roto de papel pautado, com caligrafia delicada e texto bem escrito: “Incrível você ter voltado. Não sei se fico feliz ou arrasada. Quero lhe ver logo. Me encontre hoje à noite, atrás da igreja, às dez. V.” O que é isso? Quem é V? Pela primeira vez quis ir embora, porém, estava muito curioso. É uma chance de esclarecer. Acho que vou ver qual é.

Voltou do sítio e na hora certa saiu discreto. Não tem uma alma na rua. Não tô gostando. Na tensa caminhada até a igreja, ouvia barulhos. Parava e olhava para trás. Nada. Chegou no horário e esperou. Mais de uma hora. Vou embora. Tá ficando perigoso. Essa merda é um trote. Tem algum filho da puta rindo de mim agora, com certeza. Olhou em volta. O breu lhe arrepiou.

Na sexta pela manhã, outro envelope. Quase destruiu sem ler, mas já estava fisgado: “Me desculpe por ontem. Eles estão me vigiando. Hoje eu consigo. Lhe espero no mesmo horário”. Pensou o dia todo se devia ir. Quem está vigiando? Quem é essa mulher? No sábado ele iria embora, entretanto queria resolver o mistério. À noite, na hora marcada, ele estava lá de novo.

Dessa vez ela chegou. Bonita, camiseta branca com casaco jeans, calça justa, sandália rasteira. A maquiagem era leve, o cabelo preso e um riso nervoso. Ficou encantado. Propôs um local com mais luz, ela o puxou para a escuridão. Falava baixo, lento, pausado. Não parecia interessada na agonia dele por respostas e a todo momento o atravessava com falas sem sentido. Estava feliz com a volta dele, mesmo com todos sendo contra. Lhe deu um beijo na boca, intenso e longo. Ele, entendendo cada vez menos, se deixou levar, tava gostando. Então ela disse: “aqui, amanhã, no mesmo horário”. Tentou segurá-la. Queria lhe dizer que ia embora.

Aquele perfume, o absurdo, tudo lhe prendia. Mudou sua passagem na rodoviária para segunda-feira e estranhou a receptividade da atendente. Mais amabilidade na sorveteria e na recepção do hotel. Se sentiu seguro, poderoso. Uma gostosa daquela e agora todo mundo sorrindo pra mim? O negócio tá ficando bom. Foi ao encontro bem animado.

Ela o levou para a praça, em um banco bem de frente para a igreja, onde a luz dos postes chegava forte. Ficaram lá de conversa e carinhos. Ele tentou perguntar, só que ela repetiu o ritual da noite anterior. Havia muita gente em volta. Ele demorou a perceber que as pessoas aos poucos se afastavam para as laterais, como a abrir caminho. Viu o mesmo cachorro preto da rodoviária junto à porta da igreja. Foi de lá que saíram três homens em sua direção. Tinham algo nas mãos. Ela se levantou e correu.

Um domingo em suas primeiras horas. Lúcio no banco da praça vazia. Já não respirava.

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