O limite entre a Sérvia e o Cazaquistão era teimoso como qualquer outro limite imaginado pelo homem. O Senhor Oline sabia que a vida no chão de terra, como costumava ser em lugares assim, era muito diferente das linhas bem desenhadas dos mapas de papel. De modo que um dia o vento arrastava o Cazaquistão mais para cá e no outro empurrava a Sérvia mais para lá. Alguém precisava separar os dois países caso se misturassem demais. Era preciso deixar claro que lá era lá e que ali era ali. Esse alguém era o Senhor Oline.
Humano reto, havia herdado apenas duas coisas do pai: o ofício como Guarda da Fronteira; e o bigode. E que impecável era o bigode, rivalizando apenas com o uniforme no quesito perfeição. Nunca se consideraria à altura do posto se algo acontecesse com sua aparência. E justamente por isso nada acontecia.
Fincado na pequena cabana sobre a fronteira, o Senhor Oline conhecia a nacionalidade de cada pedra ao redor. E sempre que uma lagartixa ou animal semelhante tentava entrar ilegalmente em um dos países, ele dizia: essa é a minha fronteira. E exigia documentos com foto do animal. Como os bichos costumavam não cumprir tais exigências, viravam as costas e voltavam frustrados para o seu país. Nem mesmo a chuva, caso começasse na Sérvia, ousava atravessar para o Cazaquistão. Agia como uma cortina molhada separando dois ambientes.
Às quintas-feiras, os japoneses chegavam em bando. Japoneses viajavam muito porque seu país era pequeno e, em um só dia, era possível conhecer o Japão todo, do Mar de Okhotsk no Norte ao Mar das Filipinas no Sul. Então eles ficavam entediados e compravam máquinas fotográficas. Entediados ou não, o Senhor Oline os recebia dizendo: essa é a minha fronteira. E exigia os documentos de todos. Organizados, os japoneses faziam fila sem que fosse necessária nenhuma ordem e esperavam já com os documentos em mãos, para fora das pochetes de viagem. Ao Senhor Oline sempre impressionou o fato de nenhum japonês saber falar cazaque, mas desconfiava que eles tivessem guias uzbeques esperando no país. Não importava, se os documentos estivessem corretos, ele erguia a cancela e liberava a passagem do grupo.
Às terças era a vez dos australianos, que chegavam correndo. Isolados do resto do mundo na distante Oceania, boiando entre o Oceano Pacífico e o Índico, com o Grande Deserto Arenoso na barriga do território e cercados por tubarões brancos, polvos-de-anéis-azuis e águas-vivas irukandji, os australianos se sentiam sozinhos e muitos apresentavam sintomas agravados de depressão. Vinham pelo Cazaquistão com os narizes pintados de protetor solar e paravam em frente à cancela do Senhor Oline, que dizia: essa é a minha fronteira. E exigia seus documentos. Os australianos gostavam da Sérvia porque ela era a porta de entrada para a Europa, que era cheia de pequenos países, com vários povos espremidos. Uma amálgama de culturas e línguas e filosofias. E os australianos precisavam desse afago.
Ao Senhor Oline, isso pouco importava. Não tinha ninguém, só o seu trabalho. E por isso tinha regras no lugar de empatia. Nunca abandonava seu posto, nunca tirava férias e nunca reclamava. Se saísse, quem iria manter a Sérvia na Sérvia e o Cazaquistão no Cazaquistão? Da sua cabana, mantinha intacta a soberania nacional.
De quinze em quinze dias, o Viajante atravessava a fronteira. Era a pessoa mais próxima de um amigo que o Senhor Oline possuía e fazia o percurso desde a época do seu pai. Trazia quesadillas do México e pastéis de choclo do Chile. E perguntava: Oline, por que não dá uns passos mais para lá ou mais para cá? E o Senhor Oline sempre respondia que aquela era a sua fronteira, oras. Os dois comiam as quesadillas e os pastéis. O Viajante contava dos esquimós da Groelândia, do curau de milho do Brasil, do teatro de sombras chinês e os dois pegavam no sono. No outro dia, depois de apresentar os documentos, porque trabalho é trabalho, o Viajante seguia para um dos lados prometendo voltar com mais coisas do mundo.
De tanto ser rodeado de pedras, de pedra eram também os sonhos do Senhor Oline. Não tinha vontades outras a não ser verificar os documentos e impedir que um ou outro país se empolgasse demais com seus metros quadrados. Dormia sem desejo nenhum o sono rochoso.
E passaram muitos outros da Sérvia para o Cazaquistão e do Cazaquistão para a Sérvia. Argentinos e espanhóis, que diziam falar a mesma língua, mas que era uma língua diferente. Turcos que falavam português. Todo turco fala português, comentou um deles numa quarta-feira. Uma vez, o Senhor Oline mandou o Refugiado voltar porque ele não tinha documentos. Mas eu não tenho para onde voltar, disse o Refugiado. E o Senhor Oline sentenciou: pois agora, sem documentos, também não tem para onde ir. O homem virou-se para o Cazaquistão e caminhou até se tornar um ponto preto no horizonte.
Nada estava acima da sua função, nenhuma história de nenhum homem, nenhum choro de nenhuma criança. Se Jesus de Nazaré viesse da Galileia, passando pela Sérvia, em direção ao Cazaquistão, o Senhor Oline diria: essa é a minha fronteira. E exigiria os documentos do filho de Deus. E não importava que anjos viessem com as trombetas, se não trouxessem os documentos, Jesus não passaria.
Quinze dias mais e o Viajante voltou. Trazia as sombras chinesas, o curau e más notícias. Oline, meu amigo, esta será minha última passagem, já fui a todos os lugares do mundo mais de uma vez e minhas pernas doem, meus pés têm bolhas, vou descansar em casa e contar minhas histórias, disse o Viajante. Os dois comeram o curau, o bacalhau da Noruega, beberam o gin da Inglaterra e dormiram. O Senhor Oline não abraçou o amigo depois que ele apresentou os documentos e se despediu.
Os dias ficaram mais longos. As pedras, mais duras. Os japoneses apareciam às quintas e os australianos às terças. O Viajante já não vinha de quinze em quinze, e o mundo foi ficando maior e mais distante. Percebeu o Senhor Oline que não era uma pessoa, mas uma função. Não se importava com ninguém que passava, e ninguém que passava se importava com ele. Um dia, não estaria ali e outro assumiria o posto. Como foi com seu pai, que morreu árido de espírito. Não deixaria saudades nem desenhos, e ninguém lhe dedicaria palavras bonitas.
Começou a sentir falta da burrata e do tahine. Da vodka russa e do pisco peruano. Do arak, da paella, da erva mate. Dos peixes que nunca tinha visto nadar mas conhecia o sabor cru. A boca sentia falta dos sabores tanto quanto da conversa. Por anos o Viajante havia sido um analgésico da sua condição.
Aquela não era sua fronteira, não poderia ser. Era apenas a fronteira da Sérvia com o Cazaquistão. A sua, a do homem Senhor Oline, deveria de ser maior. Ele havia desenhado uma linha imaginária ao redor de si mesmo.
Por impulso, o Senhor Oline pegou uma pedra do Cazaquistão e a arremessou para dentro da Sérvia. Alguém precisa trazer a pedra de volta, ele disse em voz alta. Andou até lá, pegou a pedra e voltou. Arremessou um pouco mais longe da segunda vez. Alguém precisa trazer a maldita pedra de volta, ele disse mais alto ainda. Foi até lá, pegou a pedra e voltou para a sua cabana. Pulou a pedra na palma da mão sentindo o seu peso. Uma, duas, três vezes. Olhou para trás. Olhou para frente. Esquerda, direita. Arremessou a pedra com toda força que tinha, fazendo-a desaparecer na Sérvia. Balbúrdia de mil demônios, alguém precisa trazer o Cazaquistão de volta, gritou.
E o Senhor Oline foi atrás da pedra.
E não voltou naquele dia.
