Silvia Argenta
De repente, uma batida na porta. São nove da madrugada. O quarto capsulado, blindado para a entrada de qualquer luminosidade, jamais poderia me indicar o horário. Tive de olhar no celular para confirmar o que o corpo cansado já sugeria ao despertar. Dormi apenas cinco horas. É muito pouco e ainda acordando com um barulho que parece martelar a cabeça, ninguém merece. O que você faria? Só me ocorre inspirar profundamente para ver se sinto cheiro de queimado. Nada. Como não tenho forças para atender ninguém, me viro de lado e decido ignorar.
A campainha toca. O som estridente quase não é acionado, então sempre me esqueço de trocar o barulho irritante por um mais discreto, de preferência um que quase não se perceba. Os cinco segundos, talvez menos, do bzzzz ecoam na cabeça, dificultando ainda mais qualquer raciocínio lógico. Tente imaginar que tipo de pessoa aperta uma campainha nesse horário. O zelador sabe que acordo tarde. O síndico me mandaria uma mensagem. Minha mãe só tem autorização para vir aqui de noite. Algum palpite? Não chego à conclusão alguma. Na verdade, quando me levantar ao meio-dia, vou desinstalar toda a campainha. Me viro para o outro lado e espero que seja lá quem for vá embora.
Quase pegando no sono de novo, escuto a maçaneta. Foi um movimento leve e suave. Ainda deitada, abro os olhos e tento ouvir mais alguma coisa. Isso lá é horário de roubar? Pensando bem, seria um ladrão audacioso. Condomínio com câmeras, rua movimentada, posto policial na esquina. Enfim, sempre confira se trancou a porta antes de dormir. Não sei se fiz isso. Definitivamente, não estou pensando direito. Ladrão nenhum no mundo bateria na porta. É… Mas talvez sim, se passando por vendedor, técnico da NET, fiscal da vigilância sanitária.
A essa hora, meu cérebro deveria estar fazendo as sinapses restaurativas e não noiativas. Preciso anotar essa palavra antes que me esqueça. E não me peça para agir racionalmente nesse horário. Nem café resolve. Já tentei várias vezes. Como não deu resultado, abracei minha natureza notívaga. O problema é que o mundo não é meu umbigo e coisas acontecem pela manhã, então pode ser que tenha alguém leve, livre e solto dentro do apartamento. Mas nem assim me levanto. Vivo perigosamente. O que tiver de ser será. Alea jacta est. Aulas de direito, cria. Sem fazer barulho algum, abraço o travesseiro e sono que segue.
Mais batidas na porta. Agora são mais fortes e muitas. Muitas mesmo. Naquele limbo entre dormir e acordar, não consigo dizer quantas. Parece que bate com a lateral da mão para ficar mais potente. No final, uma mulher grita: “eu sei que você está aí, então me atenda agora-ora-ora!”. Mas gente… Nem fiz barulho nenhum. Bom, pelo menos não preciso mais me preocupar com algum invasor porque tenho certeza de que tranquei a porta antes de dormir. Só acho um absurdo a pessoa fazer um escândalo no corredor que faz eco e não se identificar, né? Está incomodando o andar todo, amiga. Vou gastar saliva com essa pessoa não e me acomodo de novo no lençol.
Mas a moça impaciente não me deixa em paz e começa a espancar a porta e tocar a campainha insistentemente. Tudo junto. Socorro, meu pai amado!
– Levanta, sua preguiçosa, e vai lá na garagem agora arrumar teu carro que tá atrapalhando a vida de todo mundo. Nem parece que fez prova do Detran-an-an!
– Jesus-maria-josé, dai-me forças, respondo do quarto enquanto coloco um vestido e me convenço de que a (agora sei quem é!) vizinha não vai me deixar dormir.
– Ah, sabia que você estava aí se fingindo de tonta. Anda, abre logo essa porta que vou te levar na garagem pelos cabelos para você ver a confusão que tá lá embaixo-xo-xo.
– É assim na ameaça que começa a conversa?, pergunto quando chego na sala e noto como ela está diferente. Eu não sabia como é a iluminação nesse horário. A sombra da palmeira protege a televisão. A mesa fica atrás da cortina entreaberta. O espelho, de frente para a porta da sacada, parece sugar e expelir toda a luz do sol ali mesmo num feixe. Fico observando a novidade da tranquilidade matinal da minha própria casa ao som de porradas e zumbidos na porta.
– Já tô sem paciência, então não tem mais conversa. Você sabe que todo mundo no prédio te acha esquisita-ita-ita? (pom-pom-pom-bzzzz-bzzzz-bzzzz)
– Tô sabendo…, digo enquanto entro na cozinha para tentar mais uma vez me despertar com café, ao som da sinfonia improvável.
– Barbeira-eira-eira! (pom-pom-pom-bzzzz-bzzzz-bzzzz)
– Aham…
– Meia roda-oda-oda! (pom-pom-pom-bzzzz-bzzzz-bzzzz)
– Uhum…
– Anda logo, senão vou furar os quatro pneus-eus-eus! (pom-pom-pom-bzzzz-bzzzz-bzzzz)
– Pode furar!
– Ah é? Posso riscar a lataria também-ém-ém? (pom-pom-pom-bzzzz-bzzzz-bzzzz)
– Pode! Com chave de fenda!
– Eu tô gravando tudo, então vou moer teu carro com tua autorização. Posso quebrar os vidros-os-os? (pom-pom-pom-bzzzz-bzzzz-bzzzz)
– Pooooodeeeee! Pega um martelo!
– É muito atrevimento, garota! Vou agora no síndico fazer uma reclamação formal contra o apartamento 401 e mandar um guincho tirar teu carro dali-li-li. (pom-pom-pom-bzzzz-bzzzz-bzzzz)
Acho válido. É sempre bom registrar esse tipo de queixa no condomínio, penso enquanto coo o café. Fica a dica! Não dá pra deixar tudo solto com cada um fazendo o que quer. Nem mesmo se esgoelar na porta de alguém, ainda mais fazendo eco, na minha madrugada. Ela para de bater na porta e de tocar a campainha. Ufa! É um alívio, né? Agora consigo raciocinar melhor. Pelo jeito, todo mundo por aqui gosta de viver perigosamente. Antes que ela vá embora, sob o efeito do cheiro do café (funcionou!), corro até a porta e, sem abrir, aviso baixinho, a enxergando pelo olho mágico:
– Vizinha, deixa eu te contar uma coisa: não sei dirigir nem tenho carro. Olha em cima da porta. Aqui é o 501.
Ela entrou no elevador sem olhar para trás. A partir desse dia, nunca mais ouvi eco nenhum no corredor.
