Take 69

(Angélica )

Viajando é que se chega em algum lugar. Depois dessa constatação fabulosa, Raquel decidiu que iria, sim, pra Índia. Tinha feito alguns contatos e conseguido uma ponta num filme de Bollywood. Quem sabe seria o começo de uma carreira internacional. O fato de ser loira ajudou bastante. Mesmo que ficasse mais lisa que seu calcanhar ao sair da pedicure, resolveu correr o risco. Com o que restava de suas economias comprou a passagem, arrumou as malas e partiu. O combinado era que alguém a buscasse no aeroporto.

Ao sair do desembarque, viu um cartaz com seu nome. Na sua cabeça, foi o primeiro indício de que seu sonho ia dar certo. Logo sua foto estaria estampada por todos os outdoors da cidade, mesmo que aparecesse minúscula e num canto. O sujeito que a aguardava foi bem seco, quase não conversaram pelo caminho e deixou Raquel num hotelzinho como se ela fosse uma de suas malas. Antes de sair arrancando, deu um papel com o endereço pra onde ela devia ir no dia seguinte. Achou o quarto bem chinfrim, melhor dormir com a cabeça coberta pra evitar as baratas. Exausta, não demorou nem dez minutos pra pegar no sono.

No outro dia de manhã, depois de comer banana com pimenta e tomar café, pegou um táxi e foi pro estúdio. Ficava a uns trinta quilômetros de Mumbai. O trânsito tumultuado e o calor escaldante fizeram com que ela chegasse esbaforida. Não era como ela havia imaginado, apesar de ter um galpão grande, alguns estúdios não passavam de uma estrutura de bambu com uma lona por cima. Por sorte, o dela, que ficava bem mais pra frente, na beira de um barranco, possuía quatro paredes.

Ao sair do carro, um macaco passou no meio das suas pernas. Ela abafou o grito fingindo estar acostumada com isso. Macacos são ótimos até quando mordem. Mesmo com o rímel e a base do rosto derretendo, e a panturrilha sangrando, manteve a pose. Lá dentro alguém daria um jeito.

Assim que entrou, um assistente veio falar com ela. Raquel? Yes. Por favor, camarim 3, em dez minutos alguém vai levar o seu figurino. E o script? Você não vai falar quase nada, na hora te passam o texto. Chamar aquilo de camarim era a mesma coisa que chamar banheiro de boteco de lavabo. Quando vieram entregar o cabide com a roupa, ela perguntou pelo maquiador. Que maquiador? Essas manchas pretas embaixo dos seus olhos? Pode deixar, as olheiras estão perfeitas, vão combinar muito bem com o seu papel. E desde quando a amiga da inglesinha rica que se apaixona por um vendedor de cachorro-quente precisa ter olheiras? Desistiu de entender. Quando tirou o saco que envolvia o figurino, Raquel teve um piripaque. Pediu a senha do wi-fi do estúdio e mandou uma mensagem pro produtor que tinha tratado o trabalho. No mesmo instante ele respondeu. Foram te buscar, como você não apareceu, concluímos que não viria mais. Contratamos outra. Tentou explicar que houve algum equívoco, mas ele nem leu o que ela tinha escrito. Sem escapatória, achou melhor se vestir e ver no que ia dar.

Se sentiu ridícula de lesma. O figurino era todo bege com umas pintas mais escuras espalhadas pelo tecido, a parte de trás arrastava pelo chão. O rosto ficou todo tampado, só com uns buracos pra que pudesse ver, respirar e dizer alguma coisa, se por acaso fosse uma lesma falante. Por isso que não estavam preocupados com a maquiagem. As olheiras fizeram os olhos pularem pra fora, o efeito não podia ser melhor. No topo da cabeça saltavam duas antenas compridas com uma bolinha no final. Alguma coisa por dentro do figurino, na altura da nuca, não deixava Raquel mexer o pescoço. Até então estava achando que ia fazer um filme infantil, mas quando perguntaram se ela tinha tirado a lingerie, teve certeza de que não se tratava bem disso. Se despiu e ficou apreensiva por não estar toda depilada.

Ao ir pro set, Raquel viu que a única coisa que havia no cenário era uma árvore baixa com galhos grossos. O diretor gordo que usava sandálias, pediu um ajuste de luz e se sentou. Outra lesma, bem mais alta do que ela, veio do outro lado do estúdio. Só aí soube que era um filme a respeito do acasalamento das lesmas leopardo. Pretexto pra uma sacanagem. Suou muito, não só poque ali não tinha ar-condicionado, a roupa da lesma era quente, mas acima de tudo porque ela sabia que quando se tratava de sexo, os seus instintos falavam mais alto. Antes que ela entrasse em cena, prenderem uma garrafa com algum tipo de líquido na sua barriga.

As duas lesmas deitaram embaixo da árvore. Ação! Raquel rastejou um bom pedaço do cenário, o que fez ela bufar bastante, abriu a garrafa deixando um rastro luminoso pelo caminho. A outra lesma, atraída pela gosma, foi atrás dela, quase saltitando, e deu uma cutuca com o corpo como se dissesse vem cá minha nega. Subiram num galho e se enroscaram tanto que Raquel mal conseguia respirar. A parte de se pendurar abraçadas de ponta-cabeça na árvore foi muito complicada. Precisou ser refeita várias vezes, cada hora era uma lesma que despencava. Por fim, conseguiram ficar suspensas por um fio de gosma, no caso uma corda, como se estivessem fazendo rapel. Até que chegou a hora de destravar o compartimento da nuca. Ao soltarem os fechos, os órgãos sexuais de cada uma pulou pra fora, eram gigantes. Uma gosma, agora azul, saiu junto melecando tudo. Elas arrancaram a parte de baixo do figurino. Raquel entrelaçou as pernas na outra lesma e fazendo um abdominal, subiu seu tronco. Começaram a acasalar.

Nunca na vida imaginou que uma lesma pudesse dar tanto tesão. Ela gemeu e foi ainda mais pro ataque. Aquele monte de gosma contribuiu bastante, podia deslizar e ficar em diversas posições diferentes. Parecia que usava a outra lesma de barra de pole dance. Todos no set estavam espantados. Olhavam surpresos uns pros outros, nunca tiveram uma atriz como Raquel. Com certeza o filme ia ser um sucesso.

O diretor já havia gritado corta umas cinco vezes. Ela não parava e a equipe ria. Só que alegria de lesma dura pouco, no caso da maior. Não sei se por estar de cabeça pra baixo por muito tempo, se pelo remedinho azul que tinha tomado antes da filmagem, por Raquel ser insaciável, ou por tudo isso junto e misturado, mas o órgão sexual da lesma inchou e atingiu quase o mesmo tamanho do outro que saiu do figurino. E pra piorar a situação, a lesma ninfomaníaca ficou mais alvoroçada ainda. Alguém no estúdio teve a infeliz ideia de brincar dizendo que a lesma banana se chamava assim porque se o bananão fosse muito grande e incomodasse, a parceira não perdoava e devorava cada milímetro.

Nessa altura, a outra lesma desmaiou, e como todo mundo que desmaia, ficou mole. Raquel que fazia um malabarismo ousado e estava presa no inchadinho, quase saiu voando, por sorte, conseguiu se segurar a tempo. Além de perder a calma, também não se conformava que a brincadeira tinha acabado. Virou uma fera. Assim que pôs os dentes de fora e ficou procurando outro candidato, começou uma correria no estúdio. Ninguém queria ou ousava se aproximar da lesma dentuça. Como não sabiam o que fazer, e por aquele estúdio ser clandestino, foram embora depressa levando os equipamentos. Só deu tempo porque Raquel ainda estava com o tornozelo amarrado num galho. O iluminador, que foi o último a sair, passou a chave nas quatro trancas depois de apagar a luz. O que ia acontecer com as lesmas era uma incógnita, talvez o macaco viesse bisbilhotar.

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