Leandro Reis
E houve este dia no bar em que ele ouviu uma história contada pelo Chileno, uma história na verdade bastante estúpida, ele soube logo depois ouvi-la. Mas talvez porque o Chileno contasse com energia ele se deixasse ouvir, não porque o convencesse, estava claro que apenas ilustrava seu argumento sobre a natureza da Seção 7, num daqueles monólogos que se estendiam pela madrugada depois do expediente no Diário. O Chileno fazia coro às teorias conspiratórias acerca da natureza da Seção 7, como se o empreendimento tivesse motivos transcendentais: dizia-se que o local tinha vida própria, que influenciava tudo o que estivesse ao seu redor, que era capaz de interpor uma situação ou um objeto na rotina de uma pessoa, revelando o núcleo real de sua identidade. Ou que simplesmente era um portal para um lugar desconhecido, incluindo a identidade da pessoa, explicava o Chileno. Contra as suas ideias, a opinião geral, quaisquer que fossem os integrantes da mesa, era de que o Chileno tinha assistido muitos filmes ou lido muita ficção científica, o que fazia sentido, todos concordavam, chamando atenção para a quantidade incomum do gênero no caderno de cultura do Diário. Mas a seriedade do Chileno ao contar a história era quase comovente, então quando começava todos se compraziam e enchiam os copos. Ele chamou aquela história estúpida de a história de Jaime, e começou a narrá-la.
Jaime era um homem simples, como se diz sobre os homens dos quais esperamos pouco, qualquer que seja a atividade que se imagina para ele. Jaime vinha do interior do estado, onde desempenhava trabalhos manuais nas plantações de café, milho ou soja, e cuidava de rebanhos e criações de galinha. Era ninguém, por isso quando veio para a capital aceitou o primeiro trabalho que apareceu, de carregador de carga. Sua rotina era entrar e sair de caminhões, retirar caixas e sacolas de caçambas e depositá-las em galpões ou armazéns. Não havia muita diferença para o trabalho na roça, e Jaime gostava disso, pois via na semelhança um sinal de estabilidade, com a vantagem de que praticamente não havia patrão, ou este era invisível, uma vez que Jaime passava o dia vendo as caras apenas dos colegas, e a única ordem que recebia vinha escrita na planilha do dia, ao bater o ponto na sede da empresa, um galpão como outro qualquer, do qual ele nunca passava da primeira porta, a sala onde recebia a também o pagamento da diária. Era bom receber todo dia.
Mas a melhor parte era que todos os dias, nos fins de tarde, ele e os colegas paravam o caminhão diante do fosso no centro da cidade, num lugar mais ou menos ermo, de frente para o cais onde os navios abasteciam quando o porto funcionava. Lá, sem as camisas pesadas de suor, ficavam bebendo cachaça e fumando cigarros, deixando a fumaça e o álcool adormecerem os músculos cansados. Às vezes, quando terminavam as entregas mais cedo, conseguiam ouvir as partidas de futebol pelo rádio, o único momento que o laconismo e os poucos gestos de Jaime se dissipavam, e no lugar um outro Jaime assumia, ajudado pela cachaça e pelo destempero dos outros colegas, atirando garrafas e pedras nos farrapos vagando pelo fosso.
Numa dessas tardes, Jaime avistou um ponto preto no chão, coberto de entulho. Era uma bolsa. Nesse ponto, o Chileno enfatizava, Jaime devia ter desconfiado que a bolsa, achada de maneira tão fortuita nos arredores do porto, era um artifício da Seção 7, uma isca elaborada para desviá-lo da rotina que havia criado para si. Mas uma pessoa tem que querer perceber, disse o Chileno antes de continuar a narrar. Jaime recolheu a bolsa do chão e, antes de abri-la, olhou para os colegas, que pareciam querer se certificar do que havia dentro dela antes de deixá-lo. sozinho com o conteúdo. Dentro da bolsa, encontrou, entre itens de menor importância, uma carteira com documentos e cartões de uma mulher, além de dinheiro, uma quantia que não deixaria nenhum dos três ricos, mas equivalia, pelo menos, a um dia de trabalho. Quando Jaime levantou os olhos, o sorriso indisfarçável dos colegas não era menos que uma coação a ficarem com o dinheiro, e talvez atirar a bolsa com os documentos na cabeça de algum farrapo antes de gastarem num boteco muito melhor do que aqueles a que se acostumaram.
Mas Jaime não era esse tipo de homem, ele repetia para si, e não queria desviar nem um metro da rota que vinha trilhando na capital. E decidiu celebrar sua moral inabalável entregando a bolsa com os documentos e o dinheiro, toda a quantia, para a polícia. Pode ter passado pela cabeça dos colegas o seguinte: somos dois contra um; mas também o seguinte: o dinheiro não valeria o esforço, além do mais Jaime era apenas um homem, mas não devia ser fraco, e para impedi-lo alguma decisão irreversível teria que ser tomada. Então não fizeram nada além de xingá-lo de veado e de medroso e de bicha arrombada.
Na manhã seguinte, antes de começar o turno, Jaime foi na delegacia do bairro entregar a bolsa. A recepcionista ouviu com indiferença seu relato enquanto vasculhava o interior da bolsa, dispondo os objetos no balcão, e ao abrir a carteira olhou para Jaime e ergueu as sobrancelhas. Depois pediu alguns dados e mandou que ele se sentasse e esperasse um instante. De fato, um instante mais tarde um policial se aproximou e pediu que Jaime o acompanhasse até outra sala, passando por um corredor e duas portas, onde se via ao redor pessoas sem farda abrindo e fechando gavetas, preenchendo folhas em cima de mesas compartilhadas na frente de computadores antigos. Ao chegarem na sala então referida pelo policial, Jaime fez menção de perguntar, mas o policial rapidamente disse que esperasse alguns minutos sentado à uma mesa retangular, e saiu.
Quando a porta se abriu novamente, dois homens sem farda entraram sorrindo para Jaime e o chamando de senhor. Ele se adiantou e começou a contar sobre a bolsa, que tinha achado por acaso enquanto, Enquanto o que, um dos policiais perguntou, mas Jaime hesitava ao lembrar das circunstâncias em que achara a bolsa, porque havia ocasiões em que uma coisa podia ser crime mesmo que não se soubesse como nem por quê. Ele logo entendeu, no entanto, que a história da bolsa era secundária, que o policial que havia perguntado o fez apenas para se divertir, porque não tirava o sorriso da boca, e pior, alargava-o a cada olhada para o colega, por sua vez nem um pouco risonho.
Este último logo revelaria suas intenções: em vez de agradecê-lo por retornar a bolsa da mulher, o policial abriu a pasta preta que segurava, tirou uma folha com um desenho e a depositou na mesa, na frente de Jaime. Ele olhou aquele retrato que se parecia mais com ele do que seu próprio rosto refletido no espelho trincado de sua quitinete. Estamos observando você há muito tempo, senhor Paco. Jaime disse o que era possível: meu nome é Jaime, não sou Paco. Mas os homens sabiam como trai-lo: o senhor está dizendo que este retrato não é o senhor? Este sou eu, mas meu nome é Jaime. E depois: este sou eu, mas não sou Paco. E ainda: este não sou eu, não sou eu, meu nome é Jaime. A última frase o policial que carregava a pasta nem sequer ouviu, aproveitou que Jaime se enredava nas próprias verdades e com a mão que sobrava lhe deu dois tapas no rosto. O outro se pôs atrás de Jaime e o algemou, enterrando sua cabeça na mesa para que encarasse o retrato. Quer refazer, senhor Paco? Como o senhor desenharia sua própria cara de cavalo?
O policial sorridente disse então que precisariam refazer mesmo o retrato, Jaime babava na folha, ele dizia isso e apertava a cabeça de Jaime contra a mesa. Tentando mover os lábios sem cortá-los nos dentes pressionados, Jaime conseguia que algumas palavras escapassem, que em resumo suplicavam para que os policiais checassem seu nome na empresa de transporte de cargas, onde o conheciam. O sorridente o largou e pegou o celular. O policial que o estapeou continuava olhando com fúria para Jaime, que pensou no que Paco devia ter feito com aquele homem, talvez com a filha ou o filho daquele homem, ou talvez com ninguém, talvez aquele homem fosse apenas mau, mau como Paco.
O sorridente desligou o celular e acertou Jaime na ponta do queixo, com um soco ou um chute ou uma cadeirada. Enquanto estava no chão, vendo os corpos dos policiais se condensarem num vulto, Jaime ouviu que ninguém com aquele nome, ninguém sequer com a sua inicial trabalhava na empresa de transporte de cargas. No caminho da inconsciência, as imagens dos policiais desfeitas chutando seu corpo caído, pensou na bolsa da mulher desconhecida, pensou que talvez ela não fosse apenas desconhecida mas inexistente, assim como seus colegas de trabalho, responsáveis por aquele engano, pois tinham armado para ele, apagado seus registros, tornando-o volúvel a qualquer identidade criminosa, como a de Paco. É claro que Jaime não pensou nesses termos, mas o Chileno contou com essas palavras, que eram as únicas que tinha, afinal.
Um tempo depois, Jaime acordou numa cela com mais dez homens, embora o espaço não fosse adequado para mais de três, então Jaime acordou a pontapés, pois um homem deitado ocupava o lugar de cinco de pé. Olhou em volta para os companheiros de cela e estes lhe devolveram caretas de desprezo ou juras de morte, ele não pôde identificar. Na hora do jantar, entregue pelos guardas entre as barras de ferro, Jaime não conseguiu se levantar, de modo que os outros detentos comeram por ele. Passou aquele primeiro dia agachado, e chorou sem fazer barulho quando os outros foram dormir.
Apenas no terceiro dia Jaime saiu da cela e foi caminhar no pátio, durante o banho de sol. Os homens que andavam em grupo olhavam para ele, estacavam na sua frente e miravam seus olhos, como a desafiá-lo. Os que estavam sozinhos olhavam-no rapidamente e abaixavam a cabeça. Um desses homens recostava numa parede e fumava um cigarro. Jaime sentia muita falta dos cigarros, que fumava sempre nos intervalos das entregas. Pensou em pedir para o homem, mas em pouco tempo na cadeia qualquer um conseguia saber que esse tipo de coisa não funciona. Então ele parou na frente do homem, cujos braços finos cobriam-se de tatuagens, talvez dispostas também no tórax, porque os desenhos e as palavras coloridas escorriam até o início da garganta. Ao ver o estranho parado na sua frente, ele praguejou e entregou o maço. Naquela noite, Jaime fumou vários cigarros e ainda pôde distribuir para os colegas de cela, que inclusive cederam espaço para que ele descansasse quase inteiramente deitado.
Na manhã seguinte, um homem gordo e alto o abordou na fila do banho, chamando-o de Paco. Disse que finalmente tinham resolvido um problema e uma vaga na cela tinha aberto, e que se desculpavam pelo contratempo. Sem se reconhecer – ou enfim reconhecendo-se, comentava o Chileno –, Jaime ou Paco respondeu que aquilo, a espera pela cela, não podia ficar de graça. O gordo perguntou qual seria o preço. Jaime virou-se para o resto da fila e localizou o magrelo que havia lhe dado os cigarros. O gordo entendeu que aquele era outro problema a se resolver, e disse a Jaime que resolveria ainda naquele dia. Jaime tomou um banho gelado e sem preocupações. E assim, sem se preocupar, passaram alguns dias.
Quando completou uma semana de detenção, ainda sem saber qualquer coisa sobre os crimes de Paco, ele recebeu um bilhete de um guarda. Os colegas de cela, os lacaios de Paco, assistiam com ansiedade à cena em que Jaime abria o papel. “Albino, pátio, oito horas.” Aquilo só podia significar uma coisa, a noite em que Jaime vestiria a pele de Paco e levaria a cabo o seu legado. Não seria exagero dizer que Jaime já esperava aquele momento desde que a vida de Paco tinha cruzado a sua. Na hora marcada, aliás, os que testemunharam aquela noite e sobretudo os eventos futuros, disseram que foi o próprio Paco quem saiu de sua cela, seu jeito de esconder entre os dedos a escova de dentes lascada nas pontas, aproveitando as mangas compridas para escondê-la do Albino ao apertar a sua mão, encenando uma transação costumeira à vista dos guardas, que no entanto abandonaram o pátio todos ao mesmo tempo, quando Jaime ou Paco cumpria os desígnios da Seção 7.
