(Angélica)
A princípio comprei a boneca inflável só pra transar. No site havia um monte de opções, acabei escolhendo a loira, que tinha o cabelo liso na altura dos ombros e uma franjinha que terminava no meio da testa. Os olhos eram arregalados, de quem estava sempre surpresa e isso me agradou muito. Na descrição do produto dizia que era possível mudar a expressão do seu olhar girando uma chavinha na têmpora. Ou as bolinhas azuis subiam deixando à mostra a parte branca do olho ou fechava as pálpebras.
Depois que fizeram a entrega e desembrulhei o pacote, confesso que pensei em desistir. Além da embalagem ser igual a da Barbie, pelo buraco do celofane era possível ver apenas o seu rosto sorrindo pra mim. A ideia de ficar deitado na cama com uma cabeça me aterrorizou.
Também não foi uma experiência boa tirar a boneca da caixa toda dobrada. Não tinha pescoço nem barriga e muito menos pernas. Parecia uma miniatura de anã que podia sair correndo a qualquer momento balançando as mãos e os seios murchos. Só que ela não iria muito longe, porque um dos seus pés estava invertido, com a sola pra cima. Ainda bem que no outro as unhas foram pintadas de vermelho, senão ia pro lixo.
Assim que estiquei a anã, me senti melhor. Não foi fácil assoprar no bico que saía do umbigo, me arrependi de não ter comprado uma bomba, quem mandou ser pão-duro. Esse procedimento me deixou bastante tonto. Ela ficou bem maior do que eu havia imaginado: coxas grossas, bunda imensa e peitos gigantescos, tanto melhor. Escolhi um nome proporcional ao seu tamanho, Catarina. E Catarina era bem gostosa.
Passou a morar na minha cama e tivemos muitas noites quentes. Não só por causa do rala e rola, mas também porque sua pele de plástico me fazia suar. Aos poucos fui levando Catarina pra ver televisão comigo na sala ou pra cozinha, gostava que ela me visse lavando louça.
No escritório era complicado. Como a sua vagina parecia um mouse cor-de-rosa com um furo no lugar do disco, quando eu estava trabalhando e deslizava meu dedo no mouse preto, perdia a concentração e era obrigado a dar uma paradinha, lógico que isso não era de todo mal. Mas parar toda hora começou a me atrapalhar nos prazos.
Pra desviar os ânimos, porque nem banho eu tomava mais sozinho, achei melhor colocar uma roupa em Catarina. Se fosse de escafandrista, eu ia sossegar de vez, como isso estava fora de cogitação, fui pro shopping procurar algo conveniente. Acabei levando um penhoar comprido, desses de vó, acolchoado e com umas flores desbotadas. Não adiantou nada. Ela vivia grudada em mim e talvez mais do que antes.
No dia que recebi um e-mail do meu chefe me dando um esporro, fiquei bastante deprimido. Ele achou minhas matérias fracas, feitas nas coxas. E na verdade foram. Quem estava preocupado com o acasalamento das rãs ou como um hipopótamo macho seduzia uma fêmea? O que me deixou pra baixo mesmo não foi a comida de rabo em si e sim o fato de que eu ia ter que me dedicar mais pra não perder o emprego. Em vez de gastar meu tempo com a rã-hipopótamo que eu tinha em casa, ia ter que passar os dias escrevendo essas asneiras.
Pus Catarina sentada no sofá, deitei minha cabeça no seu colo e me encolhi todo. Olhando pra a mesinha ao nosso lado, vi o provolone que eu tinha beliscado na noite anterior e dei um pulo. Arranquei a cordinha que estava amarrada nele. Prendi no pulso de Catarina e puxando sua mão com ela, fiz com que acariciasse meus cabelos. Depois disso começamos a dormir de conchinha.
Se eu pudesse, levaria Catarina comigo pra todos os lugares. Pegar a Mogi-Bertioga e depois ir pra praia da Baleia ou jantar em algum restaurante com vista panorâmica, mas isso estava fora de cogitação, as pessoas sempre tiveram o péssimo hábito de ver malícia em tudo. Resolvi me virar em casa mesmo, não tinha outra saída. Quando estava sol, banho de esguicho, algumas cervejas e um tira-gosto. Se eu ficasse com o corpo ardendo, Catarina e a cordinha passavam creme nas minhas costas. À noite, eu colocava a mesa no quintal, embaixo das bananeiras e acendia umas velas antes de servir os pratos e o vinho. Só que um jantarzinho romântico não combinava com o penhoar de Catarina. Ela precisava de um vestido, sandálias, na verdade, de um guarda-roupa completo.
Quando a gente acha que atingiu o Nirvana, aparece um outro paraíso pra atormentar. Ao ir pro shopping de novo, entrei numa loja de lingerie. Quando pedi uma calcinha G, a vendedora prima do belzebu fez uma cara de safada e perguntou se minha esposa era cheinha. Sem saber o que responder, disse que era pra minha avó, que a coitada vivia de penhoar. Mas ao escolher a de rendinha, ela ficou desconfiada. Era pequena, com a pele de toddynho e uns cabelos pretos compridos que chacoalhavam como um chicote quando ela se virava. Na hora que me mostrou um sutiã extra grande e eu disse que ia ficar apertado, fez a mesma cara de surpresa de Catarina, olhos arregalados e boca aberta, e com um detalhe que me deixou louco, entre aqueles lábios, que cabiam uns cem canudinhos, dava pra ver os dentes e que dentes! Saí de lá com a sacola cheia e com o número do celular da Regiane.
Voltei pra casa me sentindo culpado e ao entrar levei um susto. Catarina estava sentada no chão, ao lado da porta. Não me lembrava de ter posto ela lá e muito menos se eu tinha mexido na chavinha da têmpora. Olhava pra mim com a íris pra cima como se esperasse alguma explicação e estivesse sentida. Fui pro quarto com ela nos braços. No vaivém pra colocar a minissaia e o top, sua expressão voltou a ser como antes, não sei se foi porque a sacudi demais ou se foi por causa das compras.
Durante a semana nossa relação esfriou um pouco. Meu chefe não parava de me mandar trabalho e agora eu tinha que escrever a epopeia dos mamutes, como copular com duas presas mastodônticas. Na sexta-feira não aguentei mais, me escondi no banheiro e mandei uma mensagem pra Regiane, queria beber do achocolatado. Como as primas do belzebu nunca foram de enrolação, ela topou sem pestanejar. Ficou marcado pro dia seguinte, depois que a loja fechasse.
No sábado, eu estava uma pilha. Não sabia muito bem o que fazer com Catarina. E precisava ter uma resposta antes que eu começasse a arrumar os aperitivos. Esvaziar estava fora de cogitação, seria muita crueldade com ela e com meus pulmões. O jeito seria esconder e não havia muitas alternativas. O box era transparente, no jardim podia furar em algum espinho e levar Catariana a um borracheiro seria um tormento. Talvez se eu colocasse um lençol por cima dela e pusesse na área de serviço, mas e se Regiane quisesse conhecer o quintal e no caminho visse aquilo, ia querer saber o que era. A vó que usa calcinha de renda? Então o que sobrou foi dentro do armário. Debaixo da cama seria demais.
Depois que a casa já estava arrumada e eu também, sentei Catarina na cama. Antes que fosse pro guarda-roupa, virei a chavinha até fechar seus olhos. A ideia de que ficasse tão próxima me incomodava bastante, talvez afetasse o meu desempenho. Engraçado que a boca também fechou. Depois eu veria isso, Regiane tinha acabado de mandar uma mensagem dizendo que ia chegar em cinco minutos.
Não podia estar mais linda e seu cheiro me deixou maluco. Como previ, quis ver o quintal e como havia lua, sentamos por lá. Não deu nem tempo de tomar duas taças e já estávamos nos atracando. Pra minha sorte, nem fomos pro quarto. O que me fez ficar ainda mais excitado. Prima do belzebu era pouco, devia ser filha ou a amante. E como era bom sentir seus dentes e as pequenas mordidas. Passamos pela sala, depois por cima da mesa da cozinha e finalizamos na bananeira. Quando ela foi embora, eu estava engatinhando nas nuvens e achei melhor dormir no sofá.
No outro dia de manhã, a primeira coisa que fiz foi tirar Catarina do armário. Não sei se foi impressão, mas parecia que seu corpo estava mais vazio. Por mais que eu tentasse, não conseguia abrir seu olhos. E muito menos sua boca. Ao tocar no meu mouse preferido, notei que lá também não ia ter mais brincadeira. Eu devia ficar chateado, mas em vez disso, só de não poder, me deu um tesão daqueles. À medida que fui me animando e o sangue desceu, comecei a sentir arder. Só depois vi as marcas dos dentes de Regiane. Além de estar muito vermelho também tinha inchado, me desesperei. Arrependimento não mata, dói.
A semana passou chocha, tudo na mesma e a matéria dessa vez era o ritual da abertura das narinas pra atrair a foca fêmea. Numa manhã que eu estava estendendo roupa, e que pus Catarina no sol pra que não ficasse com mofo, ela abriu os olhos e a boca, assim, do nada. Por um breve segundo percebi que tinha piscado pra mim. Por coincidência ou não, os cortes das mordidas já haviam cicatrizado. Dava pra amar mais Catarina?
