Leandro Reis
Mesmo num lugar como o Diário, onde Martim trabalhava desde que voltara à cidade, a morte de um ascendente lhe garantia o direito de se ausentar por dois dias. Isso se devia à dor do luto, mas também aos trâmites burocráticos e aos preparativos do enterro, entregues a ele, o filho da casa morta. Após deixar o centro da cidade, embrenhou-se num dia de providências, assinando papéis, ditando endereços e números a funcionários cinzentos atrás de computadores. O processo produziu em Martim uma espécie de sonolência, a qual ele se agarrou tentando coagular o pensamento, impedindo-se de ir muito longe na lembrança que trazia o quarto membro daquela casa morta.
Ao chegar em casa, sentado à mesa da cozinha, ele começou a beber conhaque, como fazia todas as noites depois de chegar do Diário. O ritual o afundava num pântano de filmes paralelos assistidos na cabeça, projetando a vida de alguém que ele nunca nomeava, mas que se parecia muito com ele. Pensava em versões minimamente diferentes de si, como um jornalista destacado em editorias cujos meandros não entendia, política ou economia, setores de preferência da direção do Diário. Daí podia elaborar – um correspondente internacional, um colunista influente, um repórter investigativo, tão renomado que precisava de um pseudônimo e uma câmera escondida. Mas Martim podia pensar também em versões hiperbólicas, infantis, quando o álcool passa a associar fatos e desejos como se compusessem a mesma ordem, pensava, é claro, num jogador de futebol, um corpo masculino que se parecia com o dele cruzando um gramado em direção a gritos e aplausos, pensava, naturalmente, nos artistas que povoavam sua infância e até a adolescência, incorporando seus trejeitos, vibrando com os sucessos e escândalos estampados em revistas, de onde podia ressuscitá-los, até que morressem antes que fosse dormir.
E não demorava a recorrer ao seu tema favorito, para ele a escolha mais racional, pois havia um momento na embriaguez em que atingia a mais pura convicção, havia um ponto na embriaguez em que atingia a sobriedade: pensava então numa vida à margem de tudo e de todos. Entregava-se a um ideal, às lembranças dos filmes a que assistia, em que o personagem fugia da civilização em favor de uma vida visceral na natureza, tornando a necessidade mais básica um périplo que lhe conectaria ao que há de mais essencial no homem. Ele gostava de se testemunhar naquela posição pelo tempo que durasse, antes do cenário abstrato aos poucos ceder a circunstâncias mais prováveis, mais parecidas com os programas de TV que exibiam as trajetórias de pessoas incapazes de fazer fogueiras ou pescar. A diferença era que ele, ao contrário dos que tinham um objetivo ao adentrarem a mata, não pensava exatamente em sobreviver, não pensava em sobreviver como a última e óbvia cartada: havia, sempre houve em sua cabeça, uma espécie de indeterminação, a possibilidade do nada, um ponto futuro que o convidava a não-consciência, ao deixar-se minguar. Não sabia exatamente as razões daquele comportamento, e não se prestava a saber, porque a perfeição daquele modo de vida era justamente sua retroalimentação, não se perguntar, não investigar qualquer coisa, adentrar uma mata fechada e se deitar na relva, esperando os vermes e as estrelas mortas emitirem algum sinal.
Vencido pelo álcool, Martim dormiu. Dentro dos sonhos, de onde ele extrairia apenas movimentos do corpo e não sentido, as feições do quarto membro da casa morta retornavam buscando certa unidade, e na manhã ameaçavam adquirir uma voz há muito esquecida. Mas ele lutou contra essa voz ainda muda e sem rosto. Acordou sem despertar, como se tentasse fazer o caminho inverso, influenciando o pensamento através da inércia do corpo. Por muitas vezes ele usou essa estratégia, com menor ou maior sucesso, quando o ímpeto de recusar lhe irrompia nas tarefas mais cotidianas. Ele pensava essas coisas sem pensar de fato, sem concretizá-las na cabeça, como se o corpo tivesse sua própria clarividência. E no entanto a voz que vinha da casa morta se imiscuía nessa inércia, ameaçando elaborar-se dentro da manhã do quarto. Então ele se levantou.
No caminho para a cozinha, Martin já tinha se convencido de que as garrafas da casa não cumpririam o desejado. Mesmo assim pegou a garrafa de conhaque e se serviu, ensaiando um daquelas raras folgas em que começava a se embebedar pela manhã, acostumado nos últimos anos a não recorrer a outros artifícios. Então ele pegou o copo e tomou de uma vez; depois pegou o celular, e nesse ato sentiu o efeito da mera sugestão aquecendo o corpo. Não o suficiente para dissipar os traços, nem a voz irrompendo das infiltrações na parede. Tinha enviado a mensagem e restava esperar. Haveria um dia em que ele não teria nada na cabeça, nada para pensar, a mente totalmente coagulada e um corpo automático. Delegaria todas as decisões às entranhas. Cederia a todas as forças. Que forças, as forças da vida, ele respondia, as forças externas da vida. Seu corpo estava no meio desse joguete e tratava-se afinal apenas de esperar, pela mensagem, pelo fim da espera, ele delirava, deixando a boca balbuciar o delírio. O mal é um lugar morno, como o lar, muito familiar, como um sonho antigo. Por isso sempre se volta para ele, o mal vence pela temperatura.
Quando o celular vibrou duas vezes sinalizando a chegada de uma mensagem, ele já tinha uma resposta pronta para onde seria o local da entrega. Tinha decidido, ou deixado o corpo decidir, que usaria aquela folga repentina justamente para honrá-la – e honrar o legado da casa morta, desafiando o rosto que o ameaçava, como a quebrar um feitiço; ou quebrar-se, como num espelho. Ao ver a resposta de Martim com o ponto de encontro, o contato pode ter estranhado, pois sempre marcavam nos arredores do Diário, e sua demora em confirmar se devia ao perigo em ferir aquele hábito adquirido ao longo dos anos, aquela fotografia imutável do interior do carro de Martim – como se ele, o contato, fosse de fato uma fonte, retrato que ao mesmo tempo ele gostava e temia, Martim achava, porque na sua função não havia tanto glamour quanto na de informante –, a certeza de que a fotografia se repetiria, com Martim abrindo a porta e mal olhando para o lado, o olhar vidrado no para-brisa, a testa riscada de suor. A transação era rápida, e era bom que fosse assim, já que Martim mantinha os vidros fechados mesmo no calor, por medo ou preguiça de abri-los, o contato não podia saber, mas era provável que discordasse da estratégia, porque disfarçar uma venda de droga é o mesmo que anunciá-la.
O ponto de encontro sugerido por Martim foi a Praça da Catedral, na Cidade Alta, cujas ladeiras ele subia quando garoto, arrastado pela mão da Mulher, os olhos vermelhos de sono seguindo o rastro do véu preto, o céu ainda profundo da noite anterior, a missa das seis era a única realmente sagrada, segundo a Mulher. O contato confirmou o local depois de algum tempo, monossilábico, parecia não ter gostado da ideia, talvez fosse um homem religioso ou no mínimo supersticioso, talvez levasse a família aos domingos no lugar em que Martim queria profanar, talvez se sentasse nos bancos da praça e acendesse um cigarro, combinasse as próximas entregas pelo celular enquanto esperava a mulher e os filhos saírem da igreja; talvez entregasse algumas moedas para os filhos comprarem pipoca e fosse incisivo nas mensagens que digitava ao celular, que não ligassem ou marcassem entregas num domingo, porque tudo dependia daquele dia, do dia que devia guardar dos pecados, o dia que moldaria todo o resto da semana, na qual para cada entrega ele devia pagar uma reza no domingo próximo. Como não se tratava de um domingo, ele e Martim ainda tinham alguns dias de vantagem. E começariam a gastá-los naquela praça quase abandonada, agora que a vista da Cidade Alta não emoldurava mais os cargueiros atracando no porto, mas outro tipo de deus, embora ainda um deus silencioso.
