por Américo Paim
Claro que não foi a primeira vez. A implicância era seu jeito cachorro de ser, marcando território, feito mijo. Se Berna não estivesse no controle, não sossegava. Talvez por ser arquiteta, não sei. Eu nem ligava no começo porque tudo parece lindo, não é? Notava as mudanças no rosto, nos gestos, mas tava apaixonado. E assim a gente dançava nossa música.
Naquele sábado choveu horrores. Não deu praia nem baba com o pessoal. Berna viria à noite. Decidi dar uma geral no quarto da bagunça, antes que baratas e aranhas crescessem e me engolissem como tira-gosto. Entre os bagulhos, achei Jano e Sula. Um paninho e pronto: novos. Fui à varanda e coloquei os dois sobre a mesinha, junto com a primeira Heineken do dia. Olhei a chuva e fiquei nostálgico. Clichê, mas foi assim.
Comprei comida e birinaites, limpei a casa. A idolatrada chegou chegando. Nosso lance já tinha uns seis meses e ela ainda me surpreendia. Veio num vestido estampado, com colares, pulseiras e sandálias, encantadora. Parecia uma toada de Caymmi. Cabelos soltos, como eu curtia, as covinhas nas bochechas morenas e a combinação linda de dentes brancos e olhos negros que me falavam tanto. Tô romanceando, mas eu tava fisgado mesmo. Fomos ao sofá, de frente para a estante da TV. Diante do pratinho com queijos caros que ela gostava, brindamos com um tinto português. Aí, inchou.
– Novidade na área. O que é aquilo ali?
– Ah, cê nem acredita. Achei hoje na arrumação.
– Olha só, resolveu mexer no lixão?
– Tá vendo só? Mereço elogios.
– Então, o que é essa breguice na estante?
O tom foi claro. Eu é que não dei corda. Expliquei que era artesanato, coisa velha. Ela sugeriu lixo. Eu ri. Ela não. Foi foda aquilo ter estragado a noite. Uma banalidade que ficou pesada. Dias depois, no mesmo sofá, achei que entendi. Tudo ali, vasos, livros, objetos, estava como ela queria, no lugar de cada um e até na combinação de cores. Nunca fui ligado nisso, só que ficou claro que Jano e Sula eram intrusos. Aí, em vez de tirar de lá, preferi bancar a bagaça, pra saber até que ponto a coisa chegaria. Nos vimos outras vezes depois, sem falar no incidente. Tirei do meu HD. Ela demorou de vir ao apartamento. Voltou quando comemoramos a promoção do Hercílio na empresa de engenharia que trabalhávamos. Coisa simples, só eu e ela, ele e Carmem, amiga antiga de Berna. Casal figura. Ele baixinho e bigodudo, cabra feio. Ela toda serena, bonitona. Minha iluminada chegou junto com eles e não demorou a bater.
– Hercílio, a festa é sua hoje. Tem direito a escolher música e tudo.
– Oba!
– Peça uma boa praquele casal sair rodopiando pela sala.
– Jano e Sula?
– Ah, isso aí tem nome?
– Sim, foi batizado e tudo.
– Uma escultura de bichos dançando? Por favor… E eu odeio sapos!
– Que bobagem, Berna.
– E que nomes são esses, Miguel?
– Deixa pra lá, coisa besta. Esquece isso.
Carmem contornou servindo mais vinho. Fiquei surpreso como Berna estava incomodada. O assunto tinha voltado com mais força. Na varanda ou na sala, observei alternar olhares para a peça e para mim. Mais tarde, com “Kátia” já no comando, Hercílio largou a merda.
– E aí, Miguelito, parou de dançar?
– Eu? Nem lembro mais disso.
– Ah, ele é bom de pista?
– O quê? Berna, minha filha, você não tem noção.
– Conte tudo, não me esconda nada.
– Vamos mudar o rumo dessa prosa?
– Não, o assunto me interessa.
– Oxe, a mulherada fazia fila!
– Hercílio, já chega, né?
– Ué, só tô falando.
– Carmem, querida, deixe seu namorado contar.
– Era o rei do salão!
– Que coisa, né? Ele nem dança comigo.
– Ah, qualé, não acredito!
– Vamos, Hercílio, tá na nossa hora.
Um alívio a intervenção de Carmem. Só que Berna ficou e foi complicado. Despejou uma caçamba de queixas sobre os meus supostos segredos. Já achei aquilo demais, mas a coisa ainda engrossou. Gritou que não tínhamos história, algo pra lembrar no futuro, numa roda de papo furado. Disse que eu não me envolvia. Que não queria construir nada com ela. Falou um monte. Voltou à estante e entornou o caldo.
– Até essa coisa horrorosa é uma memória.
– É só um enfeite, que saco.
– Você comprou isso?
– Não.
– Então foi presente de umazinha, né?
– Olhe, você bebeu muito. Melhor parar aqui.
– Não, fale, eu aguento. Quem foi a puta?
– Epa! Vou lhe levar em casa, já chega!
Foi reclamando até o prédio dela. De volta, bebi a saideira na sala, olhando Jano e Sula. Foi impossível não ter saudade daquele tempo bom. Queria só ouvir a voz dela outra vez. Onde andará? O que será que está fazendo? Ainda pensa em mim?
Berna não voltou ao assunto por semanas e a coisa entre nós esfriou. Pouco falava comigo. Convidei pra passeios, eventos. Não deu certo. O relacionamento ia dançar. Eu gostava tanto dela, mas havia um limite. Tomando uma com Hercílio, desabafei.
– Tá foda, véi, acho que não dá mais.
– Será que ela faz terapia?
– Me diz que sim.
– Por que não vai direto ao ponto?
– Tipo o quê?
– Resolve ou acaba de vez.
– Assim, na tora?
– Vai esperar até quando?
– Talvez tenha razão.
– Só não vá perder a cabeça por causa de mulher…
Em uma última tentativa, convenci Berna que uma viagem seria uma ótima opção, sair da pressão da cidade, da rotina. Daria para conversar, namorar e tudo mais. Teríamos as tais memórias, mas isso eu nem toquei no assunto que eu não sou doido. Propus a Chapada, que ela não conhecia. Ela topou na hora, mas depois lembrei que é um lugar que tem muitos bichos.
– Olhe, me desculpe. Foi sem pensar. Esqueci que não gosta de sapo.
– Hein?
– Você falou lá em casa, lembra?
– Ah, tá…
– Nas trilhas podem aparecer.
– Tudo bem. Mas por que falou disso agora?
– Nada, só um cuidado.
– Você lembrou daquela coisa medonha de novo?
– O quê? Peraí, não foi nada disso.
– Tá me levando pra um lugar que já foi com outra?
– Que confusão é essa, véi?
– Responda. Você já foi lá?
– Na Chapada? Várias vezes.
– Com muitas?
– Que ideia é essa, Berna? É uma viagem só nossa.
– Eu é que não vou nessa barca sua de flashback romântico! Tô fora!
– Mas, rapaz, o que é isso? Mania de perseguição?
– Tá me usando pra lembrar de outra?
– Velho, cê tá louca, na moral. Deixa quieto.
Acabei com tudo ali. Não tinha mais paciência. Só quis cuidar da pessoa! Ela me ligou algumas vezes. Não atendi. Passados uns dias, cedi e ela foi me ver.
– Nossa briga foi desnecessária.
– Aleluia, Berna!
– Temos quase trinta anos, Miguel. Basta um gesto seu.
– Meu? O que quer que eu faça?
– Jogue aquilo fora. Mostre que sou importante.
– De novo essa conversa?
– É tão simples. Fica tudo bem assim.
– Que maluquice retada. Você só pensa nas coisas. E nós?
– Isso está entre nós, você não vê?
– Não mesmo. Cê tá obcecada! Dança outra música aí, véi!
Ela gritou feito uma louca, correu até a estante e tentou me acertar com Jano e Sula. Ainda deu tempo de me abaixar. Bateu na quina do corredor e caiu sobre uma cadeira da mesa de canto. Saiu chutando porta, no choro, a falar coisas incompreensíveis. Não fui atrás. Tava chocado. Foi o fim mesmo. Contei a Hercílio e Carmem.
– Vocês acreditam numa merda dessa?
– Miguelito, tu tem dedo podre pra mulher…
– É sério, véi. Carminha, tô errado?
– É, ela é minha amiga, mas é complicada mesmo.
– Que loucura!
– É que nem porrinha, já nasceu morta.
– Como assim, mulher?
– Já acabou, posso falar. Ela tem uns problemas.
– Uns? A mulher é doida, mermão!
– Nunca durou muito com ninguém.
– Oxe, quem aguenta isso?
– Muita insegurança o tempo todo.
– E eu com isso?
– Teve uma vez que ela ficou caidaça por um cara.
– Ué e cadê esse peão?
– Largou ela por uma professora de dança.
– Eita! Porra, como eu ia saber?
– Não eram sapos ou lembranças.
– Então foi tudo por causa de um corno?
– Não é simples assim, mas ela ainda não superou.
– Me inclua fora dessa.
Jano e Sula agora estão no meu quarto, na prateleira. Assim vejo com mais frequência. Jano quase perdeu a cabeça por causa de uma mulher, mas antes ele do que eu. Quebrou em vários lugares, mas remendei. Sula não teve nada. Mais ou menos como minha realidade, mas não estou falando de Berna.
