
Nina Horta foi a melhor crítica de comida dos últimos 30 anos. Colunista da Folha de S.Paulo de 1987 até morrer, em 2019, começou escrevendo receitas que eram verdadeiras crônicas – várias reunidas no delicioso Não É Sopa. Seu texto foi ficando mais apurado quando a chef e dona de bufê começou a adicionar aos textos sobre receitas personagens, situações, lições de vida e muitos livros. O Frango Ensopado da Minha Mãe (Cia das Letras) reúne, além de receitas que não são receitas, mas jeitos de escrever sobre o preparo de refeições, perfis de pessoas que passaram por sua cozinha e sua vida, digressões sobre sabores do Brasil e iluminações existenciais em meio à azáfama com as panelas. Deixou uma lacuna imensa – o cronista que mais chega perto em usar a comida como ponto de partida para outros assuntos é o jornalista Marcos Nogueira, do Cozinha Bruta, e o crítico JB, do Boteco do Jotabê. Mas só Nina deixa qualquer um satisfeito. Aqui vai um belo perfil escrito pelo Júlio Pimentel. E aí vão algumas das minhas crônicas favoritas.
PROPOSTA
Bom, é isso o que você vai fazer: comer e/ou cozinhar.
Você vai escrever uma ficção sobre comida.
Sobre o que você pode falar?
Sobre o preparo do seu prato favorito; um almoço, uma noite ou um café da manhã inesquecível (com companhia ou sem); garçons, chefes, cozinheiros, restaurantes, parceiros de comilança que você tenha conhecido em alguma jornada específica; um ingrediente que mudou o modo como você via determinada coisa; um lugar onde teve uma experiência sensorial, erótica ou metafísica com a companhia de um prato; alguma iguaria inusual que tenha descoberto; um sabor específico da infância, da juventude; uma receita de um prato que só você sabe preparar e como isso acontece ou aconteceu; uma refeição em que tudo deu absolutamente errado.
Centre fogo na refeição. Procure ser bastante sensorial. Mostre, ofereça, apresente, faça o leitor sentir o cheiro, o sabor, o som, o visual e o tato dos acepipes.
Não se esqueça de levar ao fogo certa tensão, um conflito para temperar o seu prato – sem conflito não existe texto saboroso.
Escreva na qualquer pessoa, em até uns 6 mil toques.


















