Bergamotas com alvejante

Silvia Argenta

Débora sai cedo de casa sem nem sentir o costumeiro odor do café matinal. De madrugada na beira da rodovia, espera pela viação Ouro e Prata, pensando se está na hora ou não de pegar uma caneca. Ao seu lado, no chão, estão a mala com roupas suficientes para a visita de vinte dias às netas e a sacola com duas garrafas térmicas, providenciadas pela filha que lhe deu carona até a estrada: uma com a água quente do chimarrão e outra com o café.

Ela hesitou em fazer a viagem. O problema não são as mais de 24 horas para sair do Horizonte para chegar ao interior do Mato Grosso nem as estradas esburacadas, muito menos as brincadeiras do seu filho, pai das suas netas. O que a fazia adiar o inadiável é o cheiro do interior do ônibus. Bafo de 51 misturado com Fandangos regados à Coca-Cola com cheiro de pum mais o frango frito adormecido à la inhaca do banheiro. Ela se arrepia toda só de pensar no que está por vir. Avessa a experiências exóticas, não leva comida na viagem porque se sente mal tanto ao se alimentar com o veículo em movimento quanto ao ver outras pessoas comendo.

O ônibus chega com quase uma hora de atraso. As mãos tremem e não se sabe se é pelo início da aventura ou pela abstinência da cafeína. Ela se senta na primeira poltrona, acena para a filha pela janela e posiciona a sacola na frente das pernas. O motorista mal dá a partida e ela projeta o corpo para frente em busca da caneca para servir o café. O balanço do ônibus não a atrapalha e em menos de um minuto saboreia o Passos de Clevelândia, já adoçado. Costume da família é colocar açúcar direto no bule mesmo. Depois de tomar o café, guarda a caneca na sacola e estende as pernas na poltrona vazia ao lado para tirar um cochilo.

Acorda algumas horas depois quando o ônibus faz a primeira parada num posto para o café da manhã. “Vinte minutos”, grita o motorista ao abrir a porta que bate alto nas laterais. A maioria dos passageiros só desce para esticar as pernas. Ela aproveita para sair rapidinho, ir ao banheiro e comer um misto na lanchonete, mesmo com o letreiro gigante anunciando “sorvetes e picolezes”, que ela ama. De pé, na frente do balcão, coloca o sanduíche de queijo e presunto na boca e sente um gosto estranho. Mastiga devagar enquanto olha para a estufa e percebe os espetinhos de carne amarelados e os risoles e as coxinhas com a casquinha dourada e murcha. Insiste no misto e dá mais uma mordida. Agitadas com o lixo transbordando de restos de comida, as moscas pousam no sanduíche. Débora afasta os insetos abanando as mãos, abre o misto e se depara com o presunto… verde! Tira o resto de sanduíche que ainda tem da boca e chama o atendente. “Vai sair”, alerta o motorista. Não dá tempo de reclamar nem de lavar a boca.

Novos passageiros entram e agora o ônibus está lotado. Uma adolescente com fones de ouvido e uma mochila no colo senta ao seu lado. Débora busca de novo pela caneca para tomar água, nem que seja quente. Faz um bochecho e engole, já que não tem onde cuspir. Pega um Halls melancia na bolsa para tentar tirar o gosto de podre da boca e inclina a poltrona para se ajeitar melhor no pequeno espaço onde vai ficar por pelo menos mais vinte horas. Não consegue pensar em outra coisa senão no presunto vencido e o estômago começa a embrulhar. O ônibus faz uma curva fechada a mil por hora, e a garota mexe na mochila e pega uma Ruffles. O som estridente do pacote já dá uma ânsia maior ainda. O banheiro fica longe e Débora não vai vomitar na sacola das garrafas térmicas. Quando sente o jato subindo pela garganta, tenta abrir a janela e não consegue. Ela então rouba o pacote da adolescente e banha as batatas de restos de presunto radioativo sabor melancia.

Cinco poltronas atrás, um garoto também passa mal, mas não tem a habilidade de Débora. Ele vomita (não se sabe o quê) nas costas do banco da frente. Não tem jeito. Com tanta reclamação dos passageiros, o motorista é obrigado a parar num posto e manda todo mundo descer para lavar o ônibus, o que atrasa a viagem em mais uma hora. Pelo menos esse banho deve melhorar a catinga, ela pensa. Rá! Não podia estar mais enganada. Os Baconzitos e as sacolas de bergamotas de quaisquer fileiras passam a ser saborizados com alvejante. Nojo define. Já a vergonha continua em família, pois a adolescente troca de lugar e agora a mãe dela se senta ao lado de Débora, que decide não comer mais nada e se abastece de chimarrão para enganar a fome até o final da viagem.

Ao chegar ao destino, ela desce a escada do ônibus tomada por um rastro de farofa. Abraça o filho na rodoviária e logo diz que não deseja café e precisa comer. É cedo, mas ela quer almoçar.

– Ontem fui lá no Rio Vermelho e pesquei um hypoglós. A senhora vai gostar.

– Hã?

– Pacu, mãe! Um peixe do Pantanal.

– Ah, para de gracinha e não inventa moda. Não estou raciocinando direito porque faz mais de um dia que não como. Quero sustança e bem basiquinho.

– Tá bom. Então vou te dar um… tucunaré.

– Tucuno quê?

– Aré.

Como ótima cozinheira, ela se encanta com o pescado. Tira a pele brilhosa, prepara o tacho no fogão à lenha e ela mesma frita as postas carnudas temperadas apenas com sal enquanto entorna um cálice de araque. O estalar da carne no óleo faz com que a família toda se reúna na cozinha para almoçar às nove da manhã, afinal para comida de vó toda hora é hora. Ela não aguenta mais de tanta fome, mas mesmo assim espera o tempo certo da fritura para usar a espátula, virar a posta e depois repousá-la no papel toalha para escorrer a gordura. Quando tudo está pronto, devora o primeiro prato com o arroz mais a salada de repolho com tomate e vinagre. Respira um pouco e conta para todos sobre os enjoos da viagem exótica e seu esforço para chegar ali, além de como estava ansiosa por uma comida caseira em terra firme, sem radioatividade nem alvejantes. Na segunda rodada, agora apreciando melhor o sabor da refeição, ela fala que realmente a fome é a melhor cozinheira porque nunca havia comido peixe tão delicioso, de um sabor inigualável e que já é seu preferido de todos, ao que o filho pergunta: “E aí, mãe, então quer dizer que gostou do jacaré?”.

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