(Bruno Vicentini)
Algumas coisas acontecem sem que a gente saiba muito bem quando foi que aconteceram. Quando a gente vê, pimba: foi o boi com a corda. Uma vez, vocês sabem, a jovem Cecília Meireles perdeu o rosto num espelho, um que depois ela nem mesmo soube apontar qual tinha sido. De repente, pimba: se foi a face. Ficou o rosto assim calmo, assim triste, assim magro, os olhos tão vazios, o lábio amargo, as mãos sem força, tão paradas e frias e mortas, além de um coração, que nem se mostra. Eu, por minha vez, também não dei por esta mudança (tão simples, tão certa, tão fácil): em que momento os restaurantes substituíram as marmitas de alumínio pelas de isopor?
Sou um entusiasta do marmitex. Começou quando eu era criança.Meu pai chegava da rua sem avisar, trazendo aquelas curiosas embalagens de alumínio com comida dentro. O dia, até então um dia comum, virava o melhor da semana. Ele me deixava abrir o pacote e eu desdobrava com cuidado as beiradinhas de metal, com o prazer de quem puxa a casca de um machucado no joelho. A tampa serpenteava levemente entre meus dedos, fazendo um barulho de tempestade. Sem abrir os olhos eu respirava fundo e podia saber se a pessoa que montou a marmita tinha colocado ali dentro, sobre a tela em branco do feijão com arroz, uma banana à milanesa, algo que meu paladar infantil não aceitava, ou bolinhos de arroz, a glória da humanidade.
No entanto vou assumir a derrota: a nova marmita, feita de isopor, é muito melhor que a antiga, por uma série motivos. É uma embalagem térmica, que mantém a comida quentinha por mais tempo. A tampa também encaixa melhor, de modo que é difícil acontecer um vazamento de percurso, seja na sacola, quando você mesmo tá levando seu almoço pra casa ou pro trabalho, ou então na caixinha do motoboy, essa figura indômita, que enfrenta com bravura o risco diário de morrer no trânsito só pra matar a sua fome (e a dele). Mas o motivo principal, talvez o único que importa, é outro: ela é bem mais barata. Até mesmo o feijão-tropeiro, aquele que há décadas é servido dentro do Mineirão e ajudou a popularizar a blindadona, já capitulou. Agora vem no isopor. O marmitex perdeu a batalha e também a guerra. Descansa em paz no paraíso das listas telefônicas, dos despertadores, das máquinas de escrever.
Mas então… por que essa sensação de mal-estar? De onde vem a certeza que me invade quando eu removo a tampa silenciosa e muito bem encaixada da marmita de isopor, de que algo ali está profundamente equivocado? Seria eu uma nova modalidade de hipster, o saudosista do marmitex? Nada mais ridículo. Mas e esse gosto de plástico no meu feijão? É sequela da COVID-19? Segura tua onda, Bruno. A marmita mudou, ok, mas ninguém se importa. Talvez só você e o fabricante.
Resolvo apelar aos oráculos, quero dizer, aos meus amigos.
Niltinho, tremendo gozador, ao ouvir a palavra marmita, catapulta sem dó o assunto desta crônica e relembra imediatamente o conceito, desenvolvido pelo Xico Sá, do famigerado homem-marmita – aquele que a mulher guarda embalado pra comer no dia seguinte, porque de madrugada, no momento da captura, o tipo tá imprestável de tanto birinaite. Niltinho aproveita o ensejo pra me confessar, meio envergonhado, que muitas vezes já foi o homem-marmita. Eu também já fui, meu amigo, muitas vezes.
Thiago, por sua vez, retoma o assunto original pra me garantir que eu tô exagerando, que o caso não é assim tão grave. Ora, a blindadona resiste, afinal. É preciso um pouco mais de dedicação pra encontrá-la, só isso. Nos confins da Zona Seis, segundo ele, tem uma birosca de esquina, onde a marmita de alumínio ainda impera, soberana. Vá e veja, diz.
Mas esse papo com o Thiago já tem coisa de quatro, cinco meses. Desde então, venho juntando a coragem necessária pra ir lá conferir, e é uma coragem que eu não encontro. Fecho os olhos e revivo a cena: meu pai segura a marmita com a mão esquerda, apoiada em cima de um pano de prato, e almoça sentado em frente à televisão. As garfadas tomam o cuidado de não perfurar o alumínio. O bife ele pega com a mão, rasga um naco com os dentes. No horário de almoço seu uniforme é a camisa de botões aberta até a altura do umbigo, pra aliviar o calor. Faz muito calor. O sapato social lhe aperta os pés, faz calos em cima de calos. Meu pai andava muito rápido pelas ruas do Centro, olhando meio pra baixo, pras pedras do calçamento.
Abro os olhos. Não vou procurar birosca nenhuma.
Mais vale salvar uma lembrança.
