Meen Moilee

(Angélica)

Raquel dormiu aflita, não sabia se seria chamada de novo ou teria que vagar pelas ruas de Mumbai à procura de um hotel mais barato, quem sabe uma barraca, até descolar uma ponta em outro filme. No café da manhã, de tanta pimenta, chorou ao comer flocos de arroz com cebola. Ao pensar na enrascada em que se meteu, só não chorou mais porque o recepcionista veio avisar que a esperavam no telefone. O dono do estúdio tinha visto as filmagens da lesma e ficou bastante ouriçado com seu desempenho, queria a todo custo que ela fizesse o próximo papel, ainda mais por sua pele ser bem branquinha. Claro que faço, mas do que se trata? Estão acabando o roteiro e preparando o cenário. Descansa hoje, amanhã começamos. Antes que eu me esqueça, é pra você se depilar toda. Todinha? E nada de maquiagem.

No outro dia foram buscar Raquel. O calor era ainda mais intenso e por ter passado a gilete com afinco, estava toda ardida, mesmo assim não parava de sorrir. Ao chegar no estúdio, quase derretendo e se coçando, subiu ainda mais os calcanhares em cima do salto. Já se sentia uma estrela, o detalhe de ser um filme pornô achou melhor deixar pra lá. Tudo na vida tem a hora certa e não importa se os ponteiros do relógio forem um casal pelado.

Assim que entrou no estúdio, foi direto pro camarim, agradecendo aos deuses por não ter encontrado nenhum macaco. O assistente veio trazer o seu figurino e ao tirar do cabide Raquel não entendeu nada. Um pedaço grande de tecido branco impermeável como uma toalha de cozinha. Era pra se enrolar nele e deixar só a cabeça de fora. Pensou que talvez fosse fazer o papel de uma romana, devia ser uma pé-rapada, não tinha nenhum acessório. Por último pediram que fizesse um rabo-de-cavalo baixo.

Assim que se dirigiu pro set entendeu menos ainda. No cenário havia uma piscina redonda, dessas de criança, só que um pouco maior e mais funda, revestida de branco, com algum material que a deixava brilhante. Como estava muito abafado, Raquel não achou de todo mal se molhar. Perguntou se não ia ter outro ator. Não, apenas você. Uma estrela e ainda por cima aquática. Desta vez, o diretor, que era o mesmo da filmagem anterior, e a equipe ficaram mais afastados e quando se sentaram deu pra ver que vestiam uma calça por debaixo da túnica.

Os assistentes de produção entraram carregando uns baldes e despejaram um pó na piscina mexendo com um cabo de vassoura. A água que até então era transparente ficou mais grossa e amarela esverdeada. Raquel não gostou, ia esconder seu corpo e cheirava a curry. Em seguida, trouxeram um pufe vermelho tomate e outro verde pimentão e arremessaram lá dentro. Pediram pra que ela boiasse e não abrisse os olhos de jeito nenhum. Raquel molhou a pontinha do dedão do pé pra sentir a temperatura da água, estava pelando, talvez pra que as especiarias derretessem. Deitou de barriga pra cima achando que em pouco tempo estaria cozida.

Bateram a claquete e começaram a gravar. Raquel percebia o movimento da câmera mas nada além disso. Quando já estava cansada e tinha afundado um pouco, ouviu um barulho. De repente, alguma coisa mergulhou na água e passou por baixo do seu corpo. Com o susto, ela não teve como não arregalar os olhos. Uma língua enorme cor-de-rosa envolveu Raquel e a tirou da piscina. Parecia que estava sendo levada pela mão do King Kong. Tentando se equilibrar, foi sendo levada na direção de uma boca gigante.

Raquel ficou com medo que aqueles dentes dessem uma mordida nela. Não era isso, a engrenagem parou antes. O diretor pediu pra ela arrancar o tecido branco de um jeito sensual e depois que estivesse pelada começasse a transar com a língua. Gostou da ideia, além do quê, o que ela mais queria era se esfregar em algum lugar, não aguentava mais tanta coceira. Na água quente, os poros tinham ficado ainda mais abertos e com a ajuda do curry quase saía fogo. Alucinada era pouco. Raquel ralou de tal maneira que dali começaram a voar uns pedaços do revestimento de espuma. O produtor brincou com o contra regra que nunca tinha visto um filé de robalo tão assanhado, que ele que ia devorar a língua a qualquer momento.

O que Raquel não sabia, já que o estúdio não tinha muitos recursos, que quem fazia tudo aquilo se mover eram dois estagiários. Mukesh empurrava ou puxava uma alavanca pra que a língua pudesse descer ou subir. E Raman, que a essa altura ninguém mais lembrava de sua existência, estava dentro da espuma sendo friccionado por um pedaço de peixe enlouquecido. Ele fazia com que a língua se movimentasse levantando as pernas ou o tronco. Não conseguia mexer os braços nem a cabeça que tinha sido encaixada bem na ponta da língua. Pra que Raman conseguisse respirar, fizeram uns furos, só que com a ralação toda, eles começaram a rasgar e se tornaram bem maiores.

Ele que já estava quase desmaiando, ao ver o corpo de Raquel a poucos milímetros de seu rosto, ficou mais acordado do que nunca. Raman colocou a língua pra fora. Agora eram duas. Assim que o peixe sentiu algo vivo, molhado e morno, foi fisgado pelo anzol. Não queria nunca mais sair dali. O diretor pedia pra que ela explorasse outras partes da língua ou até mesmo que se pendurasse nela. Raquel não saía do lugar e gemia alto.

Só quando ela começou a arrancar o revestimento da parte superior foi que se deram conta do que estava acontecendo. E deixaram a câmera rodar. Nessa altura, toda a equipe já estava de pé. Aí sim ela foi pra região das grandes papilas e ficou se esbaldando com sua boca e seu rabo de peixe.

Mukesh vendo tudo de perto e com testosterona saindo pelos ouvidos, não aguentou. Era muita injustiça. Sem roupa, foi escorregando pelo sulco até se entrelaçar em Raquel. A equipe ficou atônita. Raman gritava com o peso dos dois se atracando em cima de sua barriga. Raquel resolveu não desprezar o pobrezinho e mesmo com ele ainda preso nas paredes da língua foi um ménage daqueles.

Com a movimentação, a estrutura cedeu e os três caíram na piscina. Raman foi lá pro fundo, por mais que ele tentasse subir o tronco, não era o suficiente pra que sua cabeça saísse fora da água. Como a equipe não queria cortar a cena, ninguém foi salvá-lo, já que os outros dois estavam muito ocupados. Por sorte, os peixes não abandonam seus filhotes. Raquel puxou Raman e o encostou na borda da piscina, além de tonto, seu pescoço caía pra frente. Mukesh desempenhou bem seu papel, mas em certo momento, de tão esgotado, começou a engolir água e foi pro canto também. Raman já abria os olhos e Raquel não demorou muito pra abocanhar o estagiário outra vez. O peixe ficou indo de um lado pro outro sem parar. A tomada se estendeu por muito tempo.

Quando os dois estagiários estavam praticamente desacordados e viram Raquel ainda pronta pra mais uma investida, o diretor olhou pro contra regra, pro assistente de produção, pro iluminador e pra todos que acompanhavam as filmagens pra ver se alguém se candidatava a entrar no caldo de curry. Apesar de estarem loucos de vontade, ninguém quis. Ficaram com medo de não dar conta de Raquel e passar vergonha com o fiasco. Permaneceram mudos como se esse olhar nem tivesse existido. Desligaram as câmeras e terminaram a filmagem. De noite, todos, até mesmo Raman e Mukesh, pediram uma porção de Meen Moilee pra comer em casa. O que eles fizeram com ela não se sabe.

Deixe um comentário