Não me traga esse traste

por Américo Paim

Ela não gostava de receber. Preferia ser convidada e havia uma lógica. Se quisesse ir embora, dava uma dor e se picava. Se fosse na sua casa, era mais complicado. Tem sempre alguém que, se acaba a cerveja, encara até querosene pra não largar a boca livre. Além disso, o temperamento dela era assim, difícil. Amor e ódio na mesma porção. Um eventual desafeto não apenas teria que morrer, mas com dor e sofrimento. E sua energia era retada. Se desejasse o mal, era um problema… Pior é que todos adoravam a criatura. Simpática, educada, atenciosa e melhor amiga! Só não triscasse no calo.

A família sempre fez piada: “onde vai ser a festa de Natal? Na casa de Cecília”; “vamos tomar uma agora de surpresa na casa de Cecília!”. Ela ria. Tinha ótimo humor. Gérson, seu marido há mais de dez anos, foi o primeiro a saber sobre o inesperado evento.

– Resolvi fazer um almoço de Páscoa aqui em casa.

– Cê tá bem? Chamo o médico?

– Muito engraçadinho.

– Por que isso?

– Deu na telha. Eu mesma vou convidar. Um por um.

– Coloca no grupo da família.

– Nada de zap! Quero dar meus recados.

Isso queria dizer: pode isso e não pode aquilo. Por exemplo, não aparecesse com alguém sem avisar. Pense no problema. Decidiu que estrearia a receita nova de penne ao molho de gorgonzola com camarão. Ela não era muito de cozinhar, mas era boa. Gérson ficou com as compras e os três filhos com decoração, louças, talheres e bebidas. Eles se divertiam pirraçando: “mãe, eu soube que tio Chico vai trazer a turma toda do baba dele”, “mãe, no elevador tem um convite geral pro almoço”. Cecília ria, tensa. Fez uma prévia do prato do domingo no almoço da quinta-feira. Um pouquinho, só para degustação.

– Mãe, tem certeza que tá tudo certo?

– Não tá bom?

– É que tá doce, véi!

– Hein? Cês tão esculhambando, né?

– É sério, na moral, mãe, gostei não…

Ela, que nunca errou receita, descobriu o que houve. Os potes de açúcar e sal estavam em posição invertida. Ela pegou sem olhar. Bateu uma insegurança para o domingo. Achou que aquilo era um sinal, coisa de energia. Apesar disso, passou.

No grande dia, lá se foi para a cozinha. Estava de bom humor e nada estragaria. Enquanto o pessoal ajeitava tudo, preparou as entradas: canoas de tapioca amanteigadas, que todo mundo adorava e seus tradicionais quibes apimentados. A pimenta, aliás, era um dos seus orgulhos, com pitadas secretas de azeite e ervas. O pãozinho delícia e as empadas foram encomendadas. A sobremesa seria sorvete de chocolate e frutas de época, para quem não comia doce. A casa cheirava a comida gostosa. Os filhos iam à cozinha para aventurar uma amostra. Então, ela partiu para a receita principal.

Ferveu a água já com sal (sim, ela conferiu!), alho esmagado e azeite. Colocou a massa para cozinhar, já com a manha de usar muita água e bem quente. Aprendeu com Dona Verena, sua avó. Era cozinheira fera e macarrão então nem se fala. Deu saudade. Não perdia os almoços em família. Cinco anos sem ela, mas ali nas panelas reviveu aquele amor. O vapor escondeu uma lágrima fujona. Na hora certa, escorreu bem e temperou do seu jeito, com azeite e pimenta-do-reino. O teste da mordida mostrou que o penne estava como ela queria, al dente. Agora, o camarão.

Passou os bichos no azeite de oliva já quente, com alho espremido. Por uns cinco minutos, apenas para ele ficar rosado. Se demora mais, fica borrachudo. Essa dica foi enquanto não começava uma reunião de condomínio, conversando com Dona Amélia, da época do outro prédio. Quando ela fazia camarão, toda a vizinhança ficava com água na boca. Ficou orgulhosa do jeitão final.

Foi para o molho, a parte principal. Na Internet tem umas receitas que usam manteiga, leite, maisena e tal e coisa. Não a dela. Nesse ponto ela apenas derreteu o queijo e o misturou com o creme de leite e os camarões. E foi tudo por cima da massa. Estava pronto! O cheiro tomou todo o apartamento e ganhou elogios imediatos, além de pedidos de “uma garfada só, por favor, nunca lhe pedi nada”!

Quase na hora de os convidados chegarem, o telefone tocou. Era Dona Janice, a mãe de Cecília, que sabia muito bem em que vespeiro iria mexer.

– Filha, adivinhe quem está aqui comigo?

– A essa hora do domingo? Não deve ser coisa boa.

– Seu tio Julito.

– E daí?

– Ele não tem com quem almoçar.

– Não.

– O quê?

– A resposta é não.

– Você não tem compaixão?

– Nenhuma e muito menos com esse aí.

– Por que isso?

– Esqueceu do seu aniversário ano passado?

– É o quê?

– Ele me chamou de gorda pra quem quisesse ouvir. Véio sem noção.

– Ora, isso já caducou.

– Pra mim não. Que queime no inferno! Aliás, nem sei por que tá vivo ainda.

– Que é isso! Quer que eu largue ele aqui?

– Problema da senhora. Só não me traga esse traste.

– Absurdo, Cecília!

– Tá avisada.

A cara de bicho que ela ficou depois que desligou deixou Gérson se coçando de agonia. Ele cortou um dobrado para evitar que ela cancelasse o evento, ali na boca do caixa! Estava disposta e ele bem sabia que ela era capaz daquilo. Deu uma cerveja para ela se acalmar “coma uma canoinha, tá maravilhosa” e contornou, porém o clima pesou, não seria mais o mesmo.

Dona Janice chegou com o indesejado. Já havia outras pessoas, o que foi a sorte. Não teve cena pesada, mas Cecília fuzilou a mãe com o olhar. A bebida foi rolando e ela se entupindo. Gérson por perto evitando o pior, só que teve uma hora que não deu mais. Julito ficou sozinho em um canto do apartamento e ela aproveitou a chance. Lhe ofereceu um quibe. A sorrir, foi falando ao ouvido dele bem devagar. Pelas expressões de seu rosto, não ouviu nada agradável. Pelo se abanar e os longos goles de cerveja, algo deu errado na dose de pimenta da iguaria. Em menos de um minuto ele já se despedia das pessoas. Logo estava na porta de saída. Ela sorria satisfeita. Gérson olhava cheio de gastura. Foi a ela.

– O que disse a ele?

– O que tava entalado.

– Sua mãe percebeu. Acho que vai com ele.

– Oxe, cadê ela?

– Tá na frente do elevador.

– Corre lá, Gérson, não deixa não!

– Ué, que agonia é essa? Não já sabia?

– Eu desejei que o elevador caísse!

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