Quem você quis ser antes de crescer?

“Uma pequena joia, um livro pra se carregar no bolso pra ler e reler”, disse Patti Smitth de Space Invaders (Moinhos), em que a atriz e escritora chilena Nona Fernández elabora uma curta e densa narrativa sobre o tenso período da ditadura de Pinochet.

Um grupo de amigos está tendo sonhos inquietos com Estrella González Jepsen, amiga de infância do pessoal. Nesse clima onírico, os personagens ouvem ecos da voz de Estrella, leem cartas que ela enviava e lembram episódios nacionalistas, frutos da ditadura, que viveram na escola.

A história vai ficando estranha quando se descobre que o pai da menina era funcionário de alto escalão do governo, com parte em ações violentas cometidas pela ditadura de Pinochet, e o grupo começa a pensar sobre as circunstâncias que envolvem o desaparecimento de Estrella.

Obviamente há uma referência indireta não só à estrela da bandeira do Chile como ao romance Estrela Distante, de Roberto Bolaño, que também trata do mesmo período.

Alinhado a outras obras de ficção sobre a memória da ditadura, Space Invaders é uma história de afeto pessoal e de afecção política e trata do que há de residual e fragmentário na memória infantil. Nona venceu em 2017 o prêmio principal da Feira de Guadalajara com outro livro, La Dimensión Desconocida. Aqui tem um ótimo artigo escrito por ela, e aqui um ensaio sobre como o passado pode ser reorganizado em forma de jogo. Claro que em nosso querido site russo o livro já foi pirateado.

Um bom artigo sobre o livro foi escrito pela Micheliny Verunschk aqui.

*

SPACE INVADERS

A Estrella González J.


Estou preso a este sonho:
sei que é apenas um sonho,
mas não posso escapar dele.
Georges Perec, La boutique obscure


I
Santiago do Chile. Ano de 1980. Num pequeno colégio da
avenida Matta, uma menina de dez anos entra de mãos dadas
com o pai. Leva uma mochila de couro pendurada no ombro, e o
cadarço do sapato de seu pé direito está desamarrado. Lá fora, na
rua, ainda há vestígios de uma comemoração que deixou alguns
panfletos, garrafas vazias e lixo espalhado pela calçada. A nova
Constituição proposta pela Junta Militar foi aprovada por uma
ampla maioria. O zelador varre a sujeira da entrada do colégio
enquanto observa o pai da menina. O homem tira a boina de
oficial para se despedir da filha. Dá um beijo em sua bochecha e
lhe diz algumas palavras no ouvido. A menina sorri e depois
avança pelo corredor com seu cadarço desamarrado, que se
arrasta pelas lajotas do piso. Ela se ajoelha diante da estátua de
Nossa Senhora do Carmo e beija seu polegar.


II
Às vezes sonhamos com ela. De nossos colchões espalhados
por Puente Alto, La Florida, Estación Central ou San Miguel, nos
lençóis sujos que delimitam nossa localização atual, refugiados
nos catres que sustentam nossos corpos cansados que trabalham
sem parar; de noite, e às vezes até de dia, sonhamos com ela. Os
sonhos são variados, como variadas são nossas cabeças, e
variadas são nossas lembranças, e variados somos e variados
crescemos. De nossa onírica variedade, podemos concordar que,
a seu próprio modo, cada um a vê como se lembra dela. Acosta
diz que em seu sonho ela aparece criança, tal como a
conhecemos, de uniforme escolar, com o cabelo penteado em
duas tranças compridas. Zúñiga diz que não, que ela nunca usou
tranças, que ela aparece, para ele, com uma cabeleira preta e
grossa que lhe emoldura o rosto, cabeleira que apenas ele
recorda, porque Bustamante tem outra imagem, e Maldonado
outra, e Riquelme outra, e Donoso outra, e todas e cada uma
delas são diferentes. Os penteados e as cores variam, as feições
nunca são enfocadas com nitidez, as formas se esfumaçam, e não
há jeito de entrar num acordo porque nos sonhos, do mesmo
modo que nas lembranças, não pode nem deve haver consenso
possível.
Fuenzalida sonha com a primeira vez que a viu. Quando
acorda, não se lembra muito bem de como era seu penteado,
portanto não entra nessa discussão com o resto do grupo,
porque, para Fuenzalida, o importante nos sonhos são as vozes,
não os penteados. Fuenzalida sonha com muitas vozes infantis
cochichando na sala de aula do quinto ano e com o professor da
matéria fazendo a chamada. Acosta, presente. Bustamante,
presente. A voz de cada uma das crianças vai respondendo com o
tom exato, tal como era, porque, embora as vozes se diluam com
o tempo, os sonhos sabem ressuscitá-las. Donoso, presente.
Fuenzalida, presente. E então a vez dela, seu nome pronunciado
sob o bigode preto do professor. González, escuta-se na sala, e de
uma carteira solitária da última fila, a aluna nova, ou talvez nem
tão nova, responde presente. É ela. Não importa como estão seus
cabelos, sua cor de pele ou seus olhos. Tudo é relativo, menos o
som de sua voz, pois quando se trata de sonhos, segundo
Fuenzalida, a voz é como uma impressão digital. A voz de
González se arrasta para dentro de nós vinda do sonho de
Fuenzalida e invade nossas próprias imagens, nossas próprias
versões de González, e aí se instala e permanece para nos
acompanhar noite após noite. Em certas noites, ela visita o
travesseiro de Acosta; em outras, o colchão de Maldonado; em
outras, os lençóis esfarrapados de Donoso. E assim o percurso
noturno é uma lista de chamada circular que nunca termina, uma
inspeção eterna que não nos deixa dormir tranquilos. Passaramse
anos. Muitos anos. Nossos colchões, da mesma forma que
nossas vidas, se espalharam pela cidade até nos desconectar uns
dos outros. O que aconteceu com cada um de nós? É uma
incógnita que pouco importa resolver. A distância,
compartilhamos sonhos. Pelo menos um sonho, bordado com
linha branca na lapela de um avental xadrez: Estrella González.


III
Fomos ordenados um atrás do outro numa longa fila no meio
do pátio do colégio. Ao nosso lado, outra longa fila, e depois
outra, e mais outra. Formamos um quadrado perfeito, uma
espécie de tabuleiro. Somos as peças de um jogo, mas não
sabemos qual. Tomamos distância, apoiamos o braço direito no
ombro do colega da frente para demarcar o espaço justo entre
cada um de nós. Nosso uniforme bem alinhado. O último botão da
camisa abotoado, o nó da gravata perfeito, o avental escuro
abaixo dos joelhos, as meias azuis acima, as calças perfeitamente
passadas, o emblema do colégio costurado no peito, na altura
correta, sem linhas penduradas, os sapatos recém-engraxados.
Mostrar as unhas polidas, as mãos sem anéis, a cara limpa, o
cabelo domesticado. Cantar o Hino Nacional todas as segundasfeiras
na hora da entrada, entoá-lo do jeito de cada um, com
vozes agudas e desafinadas, vozes estridentes que saem um
pouco do tom, nossas vozes repetindo entusiasmadas o
estribilho, enquanto lá na frente um de nós hasteia a bandeira
chilena e outro a sustenta nos braços. A estrelinha de algodão
branco subindo e subindo e subindo até alcançar o céu. A
bandeira finalmente acima da haste, tremulando sobre nossa
cabeça, ao compasso de nossa voz, e todos nós olhando para ela
protegidos por sua sombra escura.


IV
Maldonado sonha com cartas. São cartas antigas escritas com
a caligrafia de uma menina de dez anos. Cartas que González e
ela enviavam uma à outra pelo correio, como se não tivessem se
visto na sala de aula todos os dias, como se estivessem tão
distantes como estão agora. Maldonado diz que a ortografia de
González não é boa, mas que ela desenha as letras com capricho,
com disciplina. Ela parece outra nas cartas, não a menina calada e
tímida da última fileira da classe. Os sonhos de Maldonado são a
leitura de cada uma dessas cartas. Sonhos que se armam de
palavras, que se articulam com base em letras e frases.
Remetentes escritos com uma caligrafia azul, e endereços e
assinaturas e saudações cordiais, e se despede atenciosamente, e
a cumprimenta com carinho, e espero sua resposta, e não deixe
de me escrever, amigas para sempre, não me esqueça, por favor.
Fuenzalida diz que cada um sonha como pode. Que enquanto
ela escuta vozes e outros só veem imagens, Maldonado tem todo
o direito de que seus sonhos sejam construídos de palavras. Cada
tijolo é um verbo, um artigo, um adjetivo, e assim a construção
cresce, levanta escadas e se transforma num túnel alto que pode
comunicar o céu com o inferno. Maldonado sonha palavras azuis
escritas pela mão de uma menina. A palavra que mais se repete é
seu nome. Está escrito no remetente e na assinatura de cada
carta. Junto a ele, o desenho de uma estrela pintada com tinta,
como uma espécie de marca pessoal, como um emblema caído de
alguma bandeira.


Olá, querida Amiga! Como você está, e sua família? Espero que
bem; já eu, fiquei um pouquinho resfriada e com alguns problemas.
Lembra daquela carta que você me mandou? Eu ainda não
respondi, mas tenho que responder porque, se não respondesse, eu
não seria uma boa amiga, e acho que nós somos sim boas amigas,
embora às vezes na classe você não me dê bola. Eu sei que posso
contar com você. Você não sabe quantas coisas eu tenho pra te
falar. Coisas secretas que só você pode saber, coisas que não posso
contar pra mais ninguém, coisas que eu nem falei, escrevi ou
pensei. Muitas coisas. Coisas que não estão relacionadas com o
Zúñiga ou com as pessoas me enchendo por causa dele, eu não
gosto disso. São outras coisas, coisas mais importantes e secretas
que eu tenho que te contar. Mas essa folha é tão pequenininha e eu
tenho a letra tão grande, tão gorda. Meu pai diz que eu tenho que
diminuir um pouco a letra e alinhar ela, mas não é muito fácil
diminuir e alinhar porque as linhas são fraquinhas e quase não dá
pra ver. Se eu ouvisse o que meu pai diz, agora podia te contar
mais, mas como não consigo diminuir a letra nem ajeitar ela nas
linhas fraquinhas agora tenho que diminuir minhas palavras. Eu
devia tentar obedecer o papai. Ele merece isto, que eu obedeça ele.
Agora ele está no Hospital de Carabineiros. Você sabia que
aconteceu um acidente no trabalho do papai? Ninguém no colégio
sabe. Ele fez um monte de operações. Por isso eu devia tentar
escrever mais pequenininho, como ele me diz. A mamãe também
está de cama, mas aqui em casa. É que ela está esperando um
irmãozinho novo, mas não é uma gravidez como as outras. Você
sabia que meu irmãozinho Rodrigo morreu no ano passado? E olhe
que a gente tinha só um ano de diferença, ou seja, quando eu
completasse onze anos ele ia fazer dez. Por isso a mamãe, o papai e
eu queremos tanto ter um irmãozinho novo. Eu acho que ele vai ser
um pouco meu filho também. Você quer ter filhos? Eu, quando for
grande, quero ter muitos. Vou ser mãe de vários filhos e com
nenhum deles vai acontecer o que aconteceu com meu irmãozinho
Rodrigo. Confio na Virgem que vai ser assim. Também confio na
Virgem que a mamãe vai ficar bem com a gravidez dela. Então eu
tenho que me comportar bem, é minha obrigação, fazer as tarefas e
tentar diminuir minha letra. Espero que você tire boas notas em
todas as provas. Você sabia que dia 12 de agosto foi aniversário do
meu pai? Agora tenho que me despedir, ou então eu teria que
pensar em mais coisas pra dizer e não sei mais o que escrever e a
folha é pequena e minha letra é grande e gorda, e também não tem
mais espaço.
Tchau, amiga Maldonado.
Espero que você goste da minha cartinha tão pequenininha.
Espero sua resposta.
Sua colega. ★
P.S. O que você me disse do Zúñiga é verdade. Mas eu só gosto do
cabelo dele e dos olhos, porque o resto é preto e feio.


V
Riquelme sonha com mãos sobressalentes. São as mãos da
casa de González. Ele foi o único que esteve lá certa vez, então
seus sonhos são como um testemunho. Riquelme diz que a casa
era grande, escura e cheia de portas fechadas. Atrás de uma
dessas portas, ficava o quarto do irmão de González. Era proibido
entrar lá. Atrás de outras duas portas, num segundo andar ao
qual se chegava por uma escada sem corrimão, ficavam os
quartos de González e de seus pais. Ali, sim, era permitido entrar,
mas ele não entrou. Não o convidaram. No andar de baixo, ele
esteve numa sala de jantar e numa sala de estar e numa outra sala
com uma televisão e um videogame Atari que tinha sido do irmão
de González, mas agora era de González e eles podiam usar sem
problema. Riquelme e González jogaram Space Invaders durante
muitas horas. As balas verdes fosforescentes dos canhões
terrícolas avançavam rápidas pela tela até atingir algum
alienígena. Os marcianinhos desciam em bloco, num quadrado
perfeito, lançando seus projéteis, movendo seus tentáculos de
polvo ou lula, mas o poder de González e Riquelme era enorme e
eles sempre terminavam explodindo. Dez pontos por cada
marciano da primeira fila, vinte pelos da segunda e quarenta
pelos da última fila. E quando o último morria, quando a tela
ficava vazia, outro exército de alienígenas aparecia do céu,
disposto a continuar batalhando. Entregavam ao combate uma
vida, outra e mais outra, numa matança cíclica sem possibilidade
de terminar. Os projéteis iam e vinham. González e Riquelme
mataram tantos marcianos quantos puderam, mas nunca, apesar
de seus esforços, conseguiram ultrapassar o recorde que o irmão
de González tinha atingido um ano atrás. Era um high score difícil
de superar. Por mais que tentassem, o combate antialienígena
daquela tarde fracassou em quebrar o recorde.
Depois de um tempo, a mãe de González, dona González,
serviu-lhes um lanche e disse que eles tinham de fazer a lição de
casa. Era um trabalho de história sobre a Guerra do Pacífico, a
eterna disputa entre o Chile, o Peru e a Bolívia; e então González
e Riquelme se sentaram na mesa da sala de jantar e começaram a
estudar. Riquelme não se lembra muito do trabalho, lembra mais
das sopaipillas com açúcar de confeiteiro que dona González lhes
serviu, e da fotografia do irmão de González pendurada na
parede. Segundo Riquelme, o irmão de González se parecia muito
com ela. Uma espécie de cópia, mas na versão masculina.
Riquelme quis perguntar o que tinha acontecido com ele, mas
não se atreveu. Ao lado da foto do irmão de González havia
também algumas medalhas penduradas. Todas com fitas
tricolores, como as que um atleta ou um militar ganha. Havia
plaquinhas feitas de cobre, havia bandeiras, muitas minibandeiras
de tecido, de metal, todas pequenas, poderiam ser usadas no
trabalho da Guerra do Pacífico ou cravadas na conquista de
algum território marciano.
Nisso estava Riquelme, olhando para o irmão de González e as
honrarias penduradas na parede, quando chegou o pai de
González, dom González. Riquelme não o conhecia. Poucos de
nós o conhecíamos. Era um homem grande, de uniforme, que
sempre estava viajando e só aparecia às vezes, quando levava
González de manhã ao colégio. Naquela tarde, como
seguramente fazia sempre, dom González beijou a mulher e a
filha, fez um gesto amável para Riquelme, e depois de
cumprimentar, como um exercício cotidiano, como quem afrouxa
a gravata para relaxar por um instante, dom González se sentou
numa poltrona e tirou sua mão esquerda. Era uma mão de
madeira, como as pernas ocas dos piratas. Ele a escondia sob uma
luva de couro preta.
A mãe de González se deu conta do desconforto de Riquelme.
Rapidamente levou o marido e sua mão de madeira para o
segundo andar. González explicou a Riquelme que seu pai sofrera
um acidente terrível e que por isso não tinha mais a mão
esquerda. Um policial colega dele, por acaso, pegou uma bomba
e, por acaso, tirou o pininho. Dom González, para salvar a vida de
seu colega, fez algo, ninguém entende muito bem o que foi, e
parece que pegou a bomba com sua mão esquerda, e tentou
atirá-la muito longe com sua mão esquerda, mas, antes que
fizesse isso, a bomba estourou em sua mão esquerda. Quando
chegava em casa, à noite, como agora, tirava a prótese que fazia
as vezes de mão esquerda e descansava, pois as próteses apertam
e não se pode ficar com elas por tanto tempo. Tinha várias,
contou-lhe, guardava-as num móvel especial. Todas de madeira,
de faia, de lariço, todas feitas unicamente para ele, com suas
medidas, para que não sentisse falta do membro ausente.
Riquelme nunca mais voltou à casa de González. A ideia
daquelas mãos ortopédicas o aterrorizava. Vez ou outra voltou a
fazer trabalhos com González, mas preferia convidá-la para ir ao
seu apartamento, onde as mãos não saíam dos corpos nem as
crianças ficavam penduradas nas paredes. O boato se tornou
conhecido no colégio como uma espécie de mito e ninguém,
absolutamente ninguém, nem Maldonado, que trocava cartas
com González e se dizia sua melhor amiga, se atreveu a ir à casa
dela por medo das mãos sobressalentes de dom González. Diziam
que havia algumas de ferro, outras de prata e de bronze. Alguém
disse que dom González tinha uma que disparava e outra que
podia te apunhalar, porque dela saíam facas. Dedos afiados, unhas
calibre 2.5, mãos de canhão ou guilhotina.
Agora Riquelme sonha com aquele móvel cheio de próteses
que nunca viu e com um menino que nunca conheceu brincando
com elas. O menino abre as portas do móvel e mostra as mãos
ortopédicas ordenadas uma ao lado da outra, alinhadas como
num arsenal. São de cor verde fosforescente como as balas do
Space Invaders. O menino dá uma ordem e elas lhe obedecem
como animais amestrados. Riquelme sente que elas saem do
móvel e avançam atrás dele. Espreitam-no. Perseguem-no.
Aproximam-se como um exército terrícola à caça de algum
alienígena.


VI
Abotoamos nossos aventais xadrezes, nossos paletós cor de
café com leite. Um botão atrás do outro, com muito cuidado, para
que nenhuma casa fique vazia, seis vezes o mesmo exercício
desde lá de cima, na altura do pescoço, até chegar lá embaixo, na
barra. Quando já estamos prontos, ficamos ao lado de nossa
carteira de madeira. Estamos um atrás do outro numa longa fila
em nossa sala de aula. Ao nosso lado, outra longa fila, e depois
outra, e mais outra. Somos várias colunas formando um quadrado
perfeito, uma espécie de tabuleiro. Com a mão direita, todos ao
mesmo tempo, fazemos o sinal da cruz olhando para a imagem da
Virgem do Carmo que está em cima da lousa, exatamente acima
de nossa cabeça. É um quadrinho pequeno, um pouco desbotado,
mas eis ali a senhora com sua coroa de ouro e sua faixinha
tricolor que lhe cruza o peito, levando nos braços seu filho, o
menino Jesus. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
rezamos alguma oração à Virgem para iniciar o dia e pedimos
pelos mais pobres, pelos desamparados, pelos que não têm casa,
pelos que não podem estudar no colégio como nós. Nossas vozes
em coro numa oração idêntica à de ontem, e à de anteontem e à
de amanhã. Virgenzinha, nossa mãe, vós que cuidais de todas as
crianças, cuidai de nós, dos vossos filhos, também. Protegei-nos
do mal, não nos deixeis cair em tentação. Virgenzinha, nossa mãe
e mãe do senhor salvador, guiai-nos por um caminho de paz, por
uma estrada livre de medos e perigos, por uma vida luminosa e
plena, longe das dificuldades e dos horrores do mundo. Não nos
desampareis na incerteza, mãezinha, não nos abandoneis na dor,
e alcançai para nós a felicidade do vosso reino eterno, mãe boa,
toda santíssima, pelos séculos dos séculos. Amém. Um beijo no
polegar para concluir e depois tomamos assento em nossa
carteira de madeira para começar a aula da vez, amparados pela
Virgem que nos observa lá do alto. Ela sempre nos observa lá do
alto. Seus olhos de vidro nos espiam por cima de nossa cabeça
penteada.


VII
Estamos num barco de papel colorido. É um barco grande com
um grupo de trinta e quatro grumetes, que somos nós, todos sob
o comando de um de nós, que é Zúñiga, o capitão. Sua mãe
pintou nele uma barba preta com rolha queimada e lhe pôs um
traje de marinheiro, que não é nada mais que seu agasalho azul
do colégio com umas colagens de cartolina amarela. Uma música
infernal sai de um toca-discos enquanto González, que é a mais
alta dos grumetes, que somos nós, leva a bandeira chilena entre
as mãos e a movimenta ao ritmo da música. Zúñiga acha que ela
está linda vestida de homem. Também tem bigodes de rolha
queimada e um gorrinho branco de marinheiro, como todos nós.
Zúñiga a observa, todos nós percebemos, menos ela. Garotos, o
combate é difícil, diz nosso capitão, e nós olhamos para ele com
olhos patriotas. Porém, ânimo e bravura. Nossa bandeira nunca
arriou diante do inimigo e espero que hoje não seja diferente.
Enquanto eu viver, essa bandeira tremulará em seu lugar, e se eu
morrer, meus oficiais saberão cumprir com seu dever. Viva o
Chile, merda, termina Zúñiga, e se lança à abordagem do barco
inimigo.
Sou um herói. Todos os anos, nas comemorações do Vinte e
Um de Maio, esse é meu papel. Não sei por que me escolhem, não
me pareço com Arturo Prat, mas sou valente do mesmo jeito e
também podia morrer por algo ou alguém. Ano após ano repito
esse desastre contínuo que parece não ter fim. Como num déjà
vu, agora tenho de morrer de novo no convés inimigo por minha
pátria e minha honra. Da mesma forma que no ano passado, e no
retrasado, e ainda no anterior. Deixo meu barco de papel
colorido, salto com a espada na mão, mas, na tentativa de cair no
navio inimigo, acabo indo parar num lençol branco que é o mar.
Não caio no navio peruano que construímos no dia anterior na
sala de aula. Não faço o que havíamos ensaiado tantas vezes.
Com os olhos, procuro a professora entre o público, mas não a
encontro. Quero explicar a ela que isso não é minha culpa. Não é
que eu não queira combater, é que esse lençol branco me
atrapalha. Caio nele e ele me envolve, e me esconde, e me
adormece. Não me lembro desse lençol branco. Alguém o colocou
aqui de última hora. Não fazia parte da representação. Não fazia
parte desse combate. Quero pedir ajuda, mas não cairia bem. Sou
um herói, não um covarde. E embora saiba que de qualquer jeito
vou morrer, mesmo assim resisto e tento tirar a cabeça desse mar
de tecido. Vejo meus grumetes lá no barco. Todos me fazem
sinais com a mão direita. Parece uma despedida. González não
soltou a bandeira, ela a segura nas mãos e a movimenta como se
fosse um grande lenço. Ela se aproxima da balaustrada. Sua cara
se molha com gotas de mar que ela seca com a pontinha da
bandeira. Mas, agora que estou pensando nisso, acho que essas
gotas também podiam ser lágrimas.
González está chorando. Dizem que seu irmão morreu
afogado. Ninguém sabe como nem por quê. Quem sabe tenha
sido assim, enrolado num lençol branco que se parece com o mar.
González joga a bandeira para mim e eu tento pegá-la. Acho que
é um salva-vidas. A bandeira me cobre, da mesma forma que o
lençol. Eu dou voltas em mim mesmo, me contorço, vou pela
corrente, me afogo e durmo. Durmo profundamente. Acho que
morro sob o pano tricolor.
Acordo.
Ela está sentada em minha cama.
Sinto o peso de seu corpo junto a mim.
Zúñiga, ela me diz, você se salvou. Eu a escuto em meio ao
ruído branco da televisão ainda ligada. É tarde. Sei que estou
sonhando, mas sua voz junto ao meu ouvido é tão real como o
peso leve do lençol sobre meu corpo. É ela. A luz da tela do
televisor a ilumina. A cabeleira preta, as sardas do nariz, um gorro
branco de marinheiro e o bigode de rolha queimada um pouco
apagado por suas lágrimas. Você voltou?, pergunto-lhe, e ela
sorri. Sinto aquele cheirinho de chiclete que emana de seu
cabelo. A tela do televisor anuncia a programação de um novo
dia. Começa com o Hino Nacional e com imagens de todo o país,
de Arica a Punta Arenas.
Desperto outra vez.
Não há televisor.
Estou sozinho e envelheci.

*

PROPOSTA

E é isso o que você vai fazer: você vai jogar com as memórias da sua infância e adolescência.

Pense em algum acontecimento específico:

Um trauma. Uma alegria. Um arrebatamento. Uma descoberta. Um susto. Uma viagem. Um passeio. Uma amizade para sempre. Uma decepção violenta. Uma comida. Um crime. Um desastre. Um acidente. Uma paixão. Uma brincadeira.

Escolha uma ou poucas das sugestões acima e centre foco nela.

Em seu texto, você pode:

a) relatar o evento todo de um modo convencional, linear, começo-meio-fim;

B) ou pode usar fragmentos de lembranças, de sonhos, de cartas, de conversas com amigos da época de sua escola.

Você pode usar conversas daquele tempo ou conversas recentes com esses amigos antigos, tentando recuperar algum episódio.

Você vai escrever tudo na primeira pessoa, se referindo a você mesmo, e também na primeira pessoa, caso queira usar lembranças ou falas desses amigos.

Embora você use fragmentos, todos os fragmentos precisam estar relacionados ao mesmo evento lá em cima.

Não se esqueça do dialogo entre história e História: entrelace sutilmente suas memórias com eventos ou fatos daquele tempo.

Em até uns 8 mil toques.

Deixe um comentário