Acerolas maduras, cavalos selvagens, chuteiras e caneleiras

Leandro Reis

Lembro de me apaixonar com cinco anos pela dançarina de axé que se hospedava na mesma pousada, e de pensar que era mútuo quando ela me deu um autógrafo.

Lembro de continuar de pé no sofá, olhando pela janela, horas depois de o jogo já ter começado e acabado, meu pai não sabendo se justificar.

Lembro de meu pai tentando andar no meu skate, seus chinelos lançados pela queda, as sacolas de supermercado pousando lentamente no chão.

Lembro de mijar na cama e pôr a culpa na gata.

Lembro de Edmundo em 97, de Juninho e Donizete em 98, de Romário em 2000.

Lembro do gol que Diego Souza não fez.

Lembro de meu avô imóvel na cadeira-de-rodas segurando minha mão muito forte, como se não pudesse soltá-la, encenando o efeito da doença que de fato lhe tirava aos poucos os movimentos.

Lembro das mãos cor de cobre de meu outro avô lutando com as minhas em frente à televisão, num jogo criado espontaneamente ao longo da infância, uma espécie de balé eterno dos nossos dedos.

Lembro de minha avó intubada delirando com os braços pra cima, os dedos segurando agulhas de vento, como se estivesse bordando.

Lembro de economizar o dinheiro do lanche pra comprar figurinhas da Copa de 98.
Lembro de achar engraçado a brancura inesperada dos peitos da mãe de meu melhor amigo, que tomava banho de piscina pelada.
Lembro de Divina, a empregada manca, de quem eu fugia no trajeto pra escola, apelidada por meu tio de “ponto e vírgula”.
Lembro dos poemas de Franz Wright.
Lembro de matar a catequese jogando bola no portão da casa de Cardoso.
Lembro do sexo na adolescência.
Lembro de jogar fliperama na praia, garotos desconhecidos em volta, os pés na areia molhada e fria.
Lembro dos haikais de Kerouac na varanda, o sol de inverno batendo na página.

Lembro do fogo subindo o terreno baldio rapidamente até nossa casa, lembro do bombeiro olhando para os peitos de Camila na blusa molhada.

Lembro de tomar muitos remédios e nada de importante acontecer.
Lembro dos meus olhos vermelhos depois de procurar debaixo de todos os carros do condomínio nossa primeira gata, fugida na madrugada.
Lembro de achar nossa segunda gata que tinha caído do terceiro andar, um dente quebrado e nada mais.
Lembro do remorso paralisante ao ver minha mãe na UTI.
Lembro do pênalti que Marlon perdeu naquela final, lembro de sua cara de tristeza com o troféu de artilheiro nas mãos.
Lembro do quarto ensanguentado de PC Farias.
Lembro de minha mãe voando de asa delta, um V minúsculo e colorido no céu, o sol forte e os mosquitos e o cheiro de estrume, lembro de toda a operação de busca após o pouso, envolvendo rádios, coordenadas, bifurcações, matas fechadas.

Lembro de rezas de dez segundos todas as noites, rigorosamente, ou não conseguia dormir com medo de ser possuído pelo diabo.

Lembro da chuva de granizo furando as telhas da escola em 93.

Lembro de meu tio Régis, que mijava quando ria.

Lembro de meu tio Hélio, que bebia e tinha um Corolla.

Lembro de meu tio Décio, botafoguense e glutão.

Lembro de meu tio Dalty, tricolor, pés de elefantíase, diabetes, roubava no baralho.

Lembro de meu tio Milton, silencioso até o fim, quando morreu ficamos meses sem notar.

Lembro de minha avó me chamando pelo nome de meu tio, seguidas vezes.

Lembro do caixão de meu avô descendo pra cova, do abraço violento de meu pai e seus dois irmãos, por fim velando um pai ausente há vinte anos, e de depois pedirmos canelone.

Lembro de Dostoiévski aos 19, aos 26 e aos 31.

Lembro das consequências de Um homem que dorme.

Lembro de meu treinador Carlinhos, olhos de catarata, perguntando no meio das outras crianças se eu já tinha chupado uma bucetinha.

Lembro de Fabio, ex-padrasto, me dizendo que redação era coisa de viado e que eu tinha um nariz grande.

Lembro de minha avó dizendo a contragosto que ele devia ser um bom homem, já que reservava os fins de semana para os filhos (não reservava).

Lembro de ouvir minha mãe trepando no quarto ao lado depois do almoço.

Lembro de Thiago, da cocaína na capa do CD de John Frusciante, Thiago descendo as escadas usando o salto da namorada pra me acompanhar até a portaria.

Lembro das costas de Maria num quarto quente e insone.

Lembro das fantasias diárias de enforcamento.

Lembro de pular o muro da Ufes com Marco pra beber cerveja quente, lembro de seu cadáver exposto num site de notícias locais.

Lembro de encomendar roupas com um casal de amigos que as roubava na C&A.

Lembro de competições de embaixadinhas.

Lembro de descer de madrugada pra fumar na esquina, lembro de propostas de boquete e derivados, lembro de pensar “uma boca é uma boca é uma boca é uma boca”.

Lembro do vizinho que malhava com a trilha sonora de Rocky Balboa.

Lembro de acerolas maduras no quintal de meu pai, de cavalos selvagens na TV a cabo, de calçar chuteiras e caneleiras com os olhos pesados de sono, de minha avó fumando na área de serviço enquanto lixava o pé, da ansiedade pelo recreio.

Deixe um comentário