Garrafão

por Américo Paim

Naquele dia o trânsito ruim de Salvador estava caótico e resolvi parar no posto do Itaigara, perto do Parque da Cidade. Já passava das seis da tarde. Comprei uma barra de cereal – ia chegar tarde em casa. Depois de pagar, ouvi meu nome como na infância:

– Fernandão? Perna? É você?

– Moacir pirralho? Véi, tu tá igual. Tá perdido aqui?

– Tô mermo. Nem moro mais aqui. Vim pra uma reunião. Volto pro Rio daqui a pouco.

– Poxa, quanto tempo. Você foi embora cedo, nem terminou o ano na escola.

– Colégio Antônio Vieira! O velho CAV! Saudade.

– Tempo massa…

– Meu pai foi exilado, né? Paraguai, Inglaterra, França.

– Me lembro. Entraram lá em casa também, sabia? Não deu em nada.

– É mesmo?

– Meu pai contava que caçavam material subversivo. Chegou a ser interrogado.

– Caramba. E você, casou?

– Sim, dois filhos. E você?

– Tô no terceiro, mas sem bacurinhos.

– Eita! Poxa, rapaz, tá na minha hora. Bom lhe ver, viu?

– Ah, peraí, você nem vai acreditar quem é meu sócio aqui.

Foi uma surpresa quando ele apontou o sujeito entrando na loja. Celso Fragoso. O andar manco, inconfundível. O antigo cabelão virou quase uma tatuagem de tão curto, à escovinha, como diria meu pai. Eu acho que era ele na rua uma vez, há muito tempo, só que não me viu. A única vez nesses anos todos. A reação dele ali espantou a mim e a pirralho. Não apertou minha mão, apenas me olhou rápido. Parecia bem incomodado: “vai perder o voo” e puxou Moa pelo braço. Fiquei olhando até sumirem no carro.

Trinta anos depois e ele ainda não superou? Foi o que pensei. Para mim é só uma lembrança, mas fiquei com um gosto ruim na boca até em casa. Diana chegou e me encontrou na cozinha. Contei a ela o que aconteceu no posto.

– Por que isso, Nando?

– A gente teve um problema na época da escola.

– O que foi?

– Vou lhe contar na sala. Aqui tá calor.

Foi em 1977, no CAV, escola de padres onde entrei com dez anos e já tinha quase quatorze. Gostava de lá, apesar da disciplina excessiva. Toda segunda-feira alinhamento logo cedo para cantar o hino nacional e hastear a bandeira. Os nomes das turmas (5ª F, 6ª C, 7ª H etc.) e as linhas grossas separando os grupos de alunos. Tudo pintado de amarelo no chão. Guardar distância do colega à frente: “cobrir!”. Odiava esse comando. Cândido, uma espécie de Supervisor, falava de cima de um modesto palanque de madeira, com sua camisa de botão e calça de tergal cintada quase no umbigo de tão alta. Tinha bigode grosso, grisalho como os cabelos de brilhantina. Os óculos “fundo de garrafa” lhe emagreciam. Passava o hino esticando o pescoço para achar algum engraçadinho desatento e aplicar suas famosas punições. A mais temida era ficar sentado nas escadas defronte à diretoria. Humilhação pública. Eu entendia que nem precisava servir às forças armadas, o exército já vinha a mim. Falei isso no ano anterior e Cândido me repreendeu grosseiro. Eu questionava o rigor da fila. Não bastava ficar de pé? Era o mesmo respeito. Não queria prestar serviço militar quando chegasse a hora e aquilo só reforçava meu desejo.

Eu sempre fui ótimo aluno, o tal CDF. Como também me envolvia com atividades esportivas, culturais, trabalhos sociais, então não era taxado de “crânio chato”. Sempre fui uma cara legal, compartilhava, ensinava. Só uma coisa: não dava pesca. Isso me irritava e os colegas sabiam. Foi aí que entrou o Celso na história. A gente tinha se estranhado por causa do time de futebol. Ele ficou puto porque tomei o lugar dele, por escolha dos outros. Vinha pirraçando, procurando problema e eu já estava de saco bem cheio.

– Até agora tô boiando na história.

– Calma, Di, cê vai entender.

– Ele lhe provocava como?

– Ah, tentava colocar apelido, enchia minha mochila de pedra.

– Você reclamava?

– Sim, mas eu era pacífico.

– Ué, você é.

– Escute. 

Em um dia de prova de Ciências, Eduardo, popular “marreco”, me procurou com dúvida sobre uma fórmula. Pediu que escrevesse num papel. Queria tentar decorar. Fiz. Na sala, ficamos na mesma fila, pela ordem, eu, marreco e atrás dele, Celso. Com meia hora de prova, Professor Meireles se aproximou.

– Que papel é esse no chão, Eduardo?

– Sei não, fessô.

– É uma fórmula. É sua letra?

– Não, senhor.       

– É sua, Celso?

– Minha mermo não.

– Fernando?

Era pra eu ter sido esperto, só que no meu rosto tava quase escrito “culpado”. Disse que a letra era minha e que entreguei a ele antes da prova. Sempre achei melhor a verdade. Da boca vendida de marreco não nenhum quá quá de confirmação, acredita? Celso, cara mais limpa, afirmou que eu passei o papel. Fui pra cima dele, o professor me segurou, recolheu minha prova e parei na diretoria. Reclamei do absurdo. Fui ignorado. Falei que não ficaria ali como um preso, eu era inocente. Ameaçaram com suspensão. Até a prova acabar, fiquei exposto na tal escadaria. Não chorei de vergonha, mas foi crescendo um ódio.

– Vixe, logo você? Se fosse eu, tinha saído dali.

– Ah, fácil falar.

– Ia logo avisar meus pais.

– O que acha que a escola fez?

O professor Meireles chegou, expliquei tudo, em vão. Minha palavra contra a de Celso, que ratificou a mentira dele e saiu da diretoria me olhando e rindo. Fui pra casa com carta de advertência lacrada. Foi difícil encarar meus pais.

– Fernando, por que o choro?

– É raiva, pai. Muita!

– Conduta inadequada na prova?

– Aquele filho da puta!

– Ei, que linguajar é esse? Por muito menos meu pai quebrava meus dentes.

– Essa mentira toda e ainda vai me bater?

– Se acalme. Conte tudo.

Quando acabei, minha mãe chorava e meu pai em silêncio. Me avisou que iria à escola dois dias depois, depois que voltasse de viagem. Fiquei frustrado e a irritação aumentando. No dia seguinte, marreco, o covarde vendido, nem apareceu na escola. Era capacho de Celso desde o primário e foi usado de novo. Aí, na hora do recreio, veio uma oportunidade: ia ter garrafão e estariam todos lá.

– O que é garrafão?

– Uma brincadeira de porrada.

– Que idiotice é essa?

– Ah, menina não brincava disso.

– Explique aí.

– É fácil. Desenha uma garrafa no chão. Tem um pegador que só entra e sai pela boca. Os outros

  podem sair ou entrar pelas laterais, mas fica pulando em um pé só. Se for apanhado ou pisar na

  linha, corre para se salvar no pique. Até chegar lá, apanha de todo jeito. E valia tudo.

– Vocês eram uns animais.

– Escute o resto.

Era minha chance de me vingar. Como sempre fui quieto, esperavam que eu não fizesse nada. Na minha vez de pegar, ele tava fora e eu dentro da garrafa. Marcílio, amigo de fé, deu uma ombrada discreta no miserável. Ele se desequilibrou e alguém gritou: “pisou na linha”. Todos foram para o pique, esperando por ele para descer o cacete. Só que nem deixei chegar lá. Ensaiou correr e eu dei um carrinho com minhas famosas pernas compridas. Ele caiu e eu bati à vontade. Se o pessoal não me segura… Ameacei que ia ter mais se me denunciasse. De volta à sala, disse ao professor que caiu da escada. Nunca mais me aporrinhou e saiu da escola no fim do ano, reprovado.

– Que cara é essa, Di?

– Não estou lhe reconhecendo.

– Qualé, é uma história antiga.

– Mas o prazer parece bem atual.

– Que bobagem… Ouça o final.

Faltava meu pai no outro dia. Na hora marcada, estávamos nós dois, Cândido e professor Meireles. Eles fizeram um preâmbulo sobre ordem, moral, disciplina, valores da escola. Tudo contra mim. Meu pai mudo. Quando teve a palavra, argumentou que a versão deles era oposta a tudo o que eu contei em casa.

– Está sendo bem intransigente, Sr. Guilherme.

– Não há evidência para concordar com os senhores.

– Somos uma instituição de respeito, tradicional.

– Estou revendo esses conceitos.

– Questiona nossa palavra?

– Vocês duvidaram do meu filho.

– O senhor vai acreditar na versão de um adolescente em vez da de seus professores?

– Conheço meu filho há muito tempo. Vocês, estou conhecendo agora.

Era o fim da história. Diana ainda me encarava estranha.

– Qual foi que tá me olhando assim?

– Esse seu prazer com a violência é novo pra mim.

– Oxe, tá variando? De lá pra cá, ninguém mais pisou na linha.

Ela não riu. Saiu andando normal, como se fazia pela boca do garrafão.

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