Lembro do bagre que espetou o ferrão nas minhas costas quando eu pegava um jacaré.
Lembro do chá de cidreira que meu avô fazia arrancando folhas do capim nos fundos de casa. Hoje ele prefere o Doces Sonhos da Dr. Oetker.
Lembro quando não tinha McDonald’s em Manaus e meu pai contrabandeava Big Macs no avião, vindo de São Paulo.
Lembro de combinar o tempo de duração do namoro com a Raquel, minha esposa. Eu disse algo brega como “eu sempre começo pensando no pra sempre”.
Lembro do Vitor, meu filho, boiando na piscina e falando “me ajuda” de um jeito errado. Me azuda, me azuda.
Lembro do último ponto na final de vôlei dos Jogos da Juventude. A bola caindo em câmera lenta do outro lado da rede.
Lembro que no último round do campeonato de Counter-Strike eu disse pro time rushar B e deu tudo errado.
Lembro que sei imitar o Gollum, de O Senhos dos Anéis.
Lembro que quase sei imitar o Pato Donald.
Lembro do meu pai dizendo que pescava no máximo três vezes por ano. Ele disse isso enquanto saía para a décima pescaria de 2021.
Lembro da minha primeira refeição em São Paulo: batata frita com maionese no New Dog. Nunca tinha feito essa mistura bizarra e deliciosa antes.
Lembro que ao chegar em São Paulo morei uma semana num motel. O estabelecimento não se considerava um motel, mas era um. Podia ter “hotel” na fachada, mas as camas eram de concreto.
Lembro do meu primeiro dia em uma grande agência de propaganda. Eu achava que qualquer zé cueca era gênio.
Lembro do meu primeiro dia em uma pequena agência de propaganda. Eu me achava um gênio.
Lembro da máquina de lavar roupas com abertura frontal, fiquei sentado no chão olhando a roupa girar lá dentro.
Lembro das despedidas. Lembro muito delas.
Lembro de diálogos completos de filmes.
No momento, não lembro de nenhum diálogo para escrever aqui.
Lembro da Pizzaria Dom Jordão, no Ipiranga, e seu enorme urso polar da Coca-Cola, roubado de algum entulho, bem na frente.
Lembro da professora Wen, de química. Um colega fez uma música falando das pernas dela. A música era ruim, as pernas por outro lado…
Lembro que as meninas tinham fotolog e escreviam coisas como “navegar é preciso senão a rotina te cansa”. Rotina? Aos 14 anos? Fala sério.
Lembro da amante do meu tio invadindo o Natal em família dizendo que ele tinha prometido casamento. O peru estava bom.
Lembro da minha avó assistindo jornal e falando “Meeeu Deus… não, não…”.
Lembro de caçar gambás na casa de praia em Imbé.
Lembro da casa de praia em Imbé.
Lembro das minhas primas. Bruna e Bianca de um lado. Juliana, Isabella e Victória do outro.
Lembro dos meus tios. Alemão, Fernando, Rogério e Roger. Rogério e Roger não são irmãos, mas tenho duas tias irmãs chamadas Cristina e Cristiane.
Lembro dos meus avós. Laci, Darci, Diná e Máximo.
Não lembro da minha mãe.
Lembro da casa do Pablo Neruda em Santiago. Nunca li o livro que comprei lá.
Lembro quando a Laika fugiu logo depois que a adotamos. Estava tudo tão caótico, ela era tão bagunceira, eu queria muito que ela corresse pra sempre e nunca mais voltasse. Mas ela voltou. Graças a Deus.
Lembro que não sou muito religioso e que talvez use “Graças a Deus” por falta de opção e preguiça.
Lembro de pegar o Vitor no colo.
Lembro das decisões que voltam para me atormentar. A maioria delas relacionadas ao trabalho.
Lembro de ler Cem anos de solidão e ficar emocionado com o final. Não necessariamente porque o final era emocionante, mas porque senti ter algo grande nas mãos.
Ui.
– Boris? Boris the blade? Boris the bullet dodger?
– Why do you call him the bullet dodger?
– Because he dodges bullets, Avi.
Lembrei de um diálogo completo de filme. Snatch: porcos e diamantes. Brad Pitt, Benício del Toro, Jason Statham, Guy Ritchie na direção.
– Do you like dags? Yeah dags. Do you like dags?
Mais uma lembrancinha de Snatch.
Lembro do cheiro de panetone caseiro assando no forno. O segredo é essência de laranja misturada com essência de baunilha, pode anotar.
Lembro do medo de avião.
E lembro das viagens.
Consequentemente lembro do Rivotril, que me ajuda nessas horas.
Lembro que já ganhei de aniversário uma caixa de Rivotril. Ótimo presente.
Lembro quando a Raquel disse, numa sexta depois do trabalho, que a gente estava indo passar o aniversário do meu avô com ele, em Porto Alegre. Eu fiquei muito puto, transtornado, desesperado de medo. Pau no cu do Rivotril. Quando cheguei em casa, meu avô e minha avó estavam lá.
Meu avô assou um churrasco naquele fim de semana. Nunca vou esquecer.
Lembro da estrada. Gosto de estradas.
Lembro que costumo me demitir depois de longas viagens de carro.
Lembro de uma lojinha em frente a uma das escolas onde estudei. O nome dela era “Mil e uma dicas”, mas eu e minhas primas só conseguíamos chamar de “Mil dicas”.
Lembro de um amigo secreto entre Bruna, Bianca e eu. Só nós três. Todos os presentes foram comprados na “Mil dicas”.
Lembro quando tirei meu pai em outro amigo secreto e comprei uma carretilha. Coloquei a carretilha dentro de uma caixa da Natura e o velho ficou sem reação quando abriu.
Lembro da Raquel mexendo os dedos dos pés com os calcanhares apoiados no painel do carro.
Lembro que tomei Freixenet quando me casei com a Raquel. Eu nem gosto de beber.
Lembro do Fruki Cola. Muito melhor que Freixenet.
Lembro do especial Inside, do Bo Burnham. “Apathy is a tragedy and boredom is a crime”. Tem na Netflix.
Lembro do show do Foo Fighters. A lista dizia que Everlong seria a última música, mas o safado do Dave Grohl cantou ela primeiro.
Lembro que sabia tocar “caminhando e cantando” no violão.
Lembro que não lembro mais como fazer isso.
Lembro de uma pessoa.
Lembro de um fato.
Lembro de uma cor.
Lembrei da Marília Gabriela.
Lembro do Roger Federer.
Lembro do Australian Open 2017. Federer voltando de lesão, seis meses sem jogar, encontra Rafael Nadal, seu maior rival, na decisão. Venceu em cinco sets, o último de virada. Chorou. Acho que eu também.
Lembro da final de Wimbledon 2019. No último set, Federer tem 40 a 15 contra Djokovic. Sacando. Match point. Não converte, Djoko campeão.
Lembro que se não fosse isso, hoje, Federer teria 21 grand slams contra 20 de Nadal e 19 de Djokovic.
Lembro da copa de 94. Romário, Bebeto, Aldair.
Lembro da copa de 98. Se as pessoas soubessem o que aconteceu, ficariam enojadas.
Lembro do Lanche do Mario, em Manaus. Meu casamento começou ali, regado à maionese caseira.
Lembro que dava pra lanchar com 10 reais. Dois kikão e duas coquinha.
Lembro de viajar 12 horas de barco até Alter do Chão. Voltamos de avião.
Lembro do horário comercial. 9 às 19. 2 horas de almoço.
Lembro que meu chefe pode mandar uma mensagem a qualquer momento pedindo que eu escreva um comercial para o Banco Santander.
Lembro que escrever lembranças durante o trabalho é muito melhor que trabalhar.
Tenho certeza de que lembro mais coisas.
Só não lembro agora.
