Dia desses ali pelo bairro de Pinheiros, uma moça magra, loira de cabelos finos, vestido longo florido com tênis mais branco que pano de prato mergulhado no alvejante, quis se enturmar com um grupo de garçons à toa no bar que não tinha um mísero cliente e perguntou, enquanto se postava com seu lindo cachorro de porte médio e escovado ao lado do quadro de giz que trazia uma espécie de cardápio rápido:
– Nossa, mas o que é cozinha afetiva? Vocês vão me dar um abraço quando servirem?
Não se chamou de mau gosto o foi visto porque é uma tentativa de graça até mais baixa e menos bem sucedida do que a piada do tio do pavê. Mau gosto é jantar de chapéu. Talvez a moça só quisesse destilar seu sarcasmo com relação à falta de afetividade do marketing, esse senhor vestido de terno Gucci e sandálias Havaianas, armado com adaga numa mão e copo com boa noite cinderela na outra. Só que ela errou o alvo e a questão ficou no ar: o que é, afinal, cozinha afetiva? Comida caseira? A de Minas Gerais, a do subúrbio de Londres ou a da aldeia indígena?
Cada um vai ter sua comida que lembra a infância, se é que a infância foi boa pra todo mundo. Mas não tem como ser brasileiro e achar que conserva de beterraba gelada é afetivo. Havia uma senhora do sertão que da sua puberdade para a juventude, ou seja, idade de casar naquela época, foi morar na capital. O novo marido, um advogado que viria a ser respeitado, ganhar títulos etc. Ela? Dona de casa, oras, com muitas habilidades. No apartamento que compraram quando os três filhos já eram pré-adolescentes, quando vieram os tempos de bonança, uma cozinha toda azulejada – não muito comprida, mas com uma pia boa para ter espaço de picar os ingredientes do almoço e ter uma mesa de apoio para o café da manhã que não era servido na sala de jantar.
Nos primeiros anos ali, cuidou de decorar a sala e os quartos. Era importante que a prataria estivesse de acordo com os tons das paredes e quadros, além dos puxadores dos móveis. As muitas madeiras escuras absorviam a luz natural da varanda, mas continuava sendo uma sala alegre, com seus santos barrocos e tapeçarias em azul, branco e verde enquadradas. A cozinha foi a última a ser decorada. Pode ser até que tenha-se levado anos pra fazer isso, sendo, arqueologicamente, a obra mais recente de Dona Maria Quitéria – a Quita.
Em cada ladrilho de louça esmaltada acima do fogão começavam núcleos de rosas coloridas que tinham suas pétalas e folhas espalhadas lateral e verticalmente, com suas cores sendo misturadas entre si e ao verde dos caules. O mesmo padrão se repetia nos seis azulejos que deveriam ser um mosaico em cima da mesa pequena de seis lugares encostada na parede oposta, de onde flores mais discretas também surgiam.
As pinturas deviam ter uns bons 40 anos quando Quita era já avó de dois netos e avançava na casa dos 80 anos. Já nem ia mais ao banco ou à delicatessen, porque os três lances de escada ficaram demais pra ela. E não era nem por falta de disposição, vontade ou lucidez, mas a agilidade dos membros não era confiável, ainda mais naquele piso de ardósia. Quita tomava seu nespresso com leite pela manhã e, quase sempre, cozinhava. “O dia fica sem graça pedindo comida”, dizia até por volta de uns 87. E o almoço, ah, o almoço! Era nele que Quita se vangloriava de sua saúde. E, depois, Vídeo Show ou Dr House enquanto tirava a soneca, que tinha dias que se prolongava até quase 17h.
– Vocês nunca comem nada, por isso ficam com essa cara de desânimo. Eu como isso aqui todo dia, minha vida inteira.
Quita só batia pratão. Com feijão, farinha e dendê. E a neta mais nova fritando o ovo na água. Mas não tinha jeito, vivia de dieta. E inventava de fazer comida para ela e a avó. Peixe assado com recheio de pimentão, tomate, cebola, coentro, mas não tinha corte perfeito que convencesse Quita de que aquilo ali ia sair certo. Com gosto. Tanto que nesse dia fez seu movimento clássico, se apoiou no topo da cadeira de madeira com pátina ao lado da que estava, virada para o fogão, e foi em direção ao forno tirar a panelinha de alumínio e base torta pra esquentar.
– Isso aí vai demorar demais, Lucinha. Se ficar bom eu como no jantar.
Nesse dia, Joana, uma amiga de faculdade de Lucinha, almoçaria no apartamento da família, em que hoje só moravam neta e avó.
– Vem, minha filha, pra você não morrer de fome. Prova essa minha comida aqui e depois você come junto com Lucinha de novo, porque está muito magra.
Na panelinha tinha uma mistura verde e amarela que reluzia como ouro, numa amálgama de cores que a bandeira do Brasil jamais sonhará em ter. Maxixe no dendê. Uma mamona mais crescida, deve dar também em qualquer pedaço de terra que sobre em quintais e barrancos, só que com mais líquido. E, mesmo assim, mais saboroso que chuchu. E no dendê! Na cabeça de Joana veio uma dúvida de “vou ou não vou nisso aí, rapaz”, mas não deu tempo, não. Quando viu já tinha dois pratos postos. Aí Quita puxou mais outra panelinha do forno com uma carne escura cortada em cubinhos. Despejou mais ou menos uma dúzia deles no prato da garota e tacou farinha.
– Não é carne igual a que se faz debaixo do sol lá do sertão, que eu comia quando era menina, mas dá pro gasto também.
Na primeira garfada, juntando uma rodela do maxixe já enfarinhado com um cubinho da carne, a menina Joana foi mastigando uma explosão de sabores a cada vez que seu maxilar se movimentava: o salgado do boi com a crocância mole do maxixe, o adocicado intenso do dendê com o doce seco da farinha de mandioca torrada. Joana acha até hoje que passou vergonha tentando dizer o quanto aquilo estava gostoso, ao mesmo tempo em que ficou preocupada de dona Quita achar que não era verdade e da amiga achar que ela não iria mais comer do peixe. Mas Quita entendeu, sim, armando um sorrisinho sarcástico no canto da boca, vestida com sua elegância dentro do penhoir. E amiga também, porque ria, dizendo:
– Esse aí bateu lá no cerebelo, não foi, Jô? Se você fechar o olho agora vai conseguir até ver o sertão verde de minha avó.
Num instante o impasse publicitário de enfiar o afeto como produto em todo tipo de ramo de produção se dissipou.
– Teu chopp é qual, amigo?
