O que seria de você?

(Angélica)

Eu me lembro do pirulito do Zorro.

Eu me lembro que ao encontrar o filho de um casal de amigos dos meus pais, as Susis e os Betos sempre tiravam as roupinhas e acabavam numa suruba.

Eu me lembro que meu irmão tinha uma cabana de índio que ficava no fundo do quintal de casa. Numa de nossas brincadeiras, ele me amarrou e me deixou lá. Por mais que eu gritasse ou chorasse, ninguém veio me resgatar. Nesse dia descobri o quanto me amavam.

Eu me lembro de, junto com minhas primas, carimbar toda a Variant branca da minha tia com uma cueca cheia de lama.

Eu me lembro de ganhar a Mãezinha da Estrela num Natal. Ela ninava um bebê indo com o tronco de um lado pro outro. Nunca brinquei com essa boneca, era de se esperar que eu não tivesse filhos.

Eu me lembro de viajar ao lado do Chacrinha. Se ele não estivesse vestido de Abelardo, teria dito pra ele que meu sonho era ser chacrete. Eu amava as botas que cobriam os joelhos.

Eu me lembro que a primeira vez que vi um pau desmaiado, eu devia ter uns sete anos. Isso se mexe? Perguntei incrédula.

Eu me lembro de ter quebrado a lâmpada do abajur que ficava em cima do criado-mudo do meu pai. Deixei um tapetinho de cacos no pé da cama dele. Finos e quase invisíveis. Já estava dormindo quando ele entrou no meu quarto. Nesse dia, apanhei de cinta. Os pais, às vezes, são sábios.

Eu me lembro que o Alain Delon estava hospedado no mesmo hotel que eu na Bahia. Nessas horas, ser criança é uma merda.

Eu me lembro de ir pro quarto da empregada e ao escutar Cadeira de Rodas no radinho de pilha, chorei de felicidade pela menina da música. Ela desapareceu sem dar trela pro vacilão.

Eu me lembro de um lugar perto da minha casa que se chamava Love Story. Num final de tarde, o porteiro que usava uma cartola e uma espécie de casaca havia sumido e a porta estava aberta. Eu e minha vizinha corremos lá pra dentro. Não deu pra ver coisa nenhuma, os cafofos ficavam escondidos atrás de umas cortinas vermelhas. Já escutar, isso deu, e os barulhos eram bem interessantes.

Eu me lembro que com uns onze anos eu dancei fantasiada de Mulher Maravilha no Anhembi. De mulher eu não tinha nada e muito menos de maravilha. Uma barriga igual ao topete cheio de laquê da super-heroína pulava do meu collant repleto de estrelas.

Eu me lembro que no meu bairro havia um monte de drive-ins. Não, eu e minhas amigas não subíamos em nenhuma mureta pra olhar o rala e rola por entre as frestas dos outdoors.

Eu me lembro do meu primeiro sutiã. Lembro? Lembro nada, puta história de mentiroso.

Eu me lembro de alguns velhos apertando o meu braço e eu tentado me safar. Quando me chamavam de Lolita, dava pra ver que não tinham dentes.

Eu me lembro do meu primeiro beijo. Foi aos treze anos. Como ele era mais baixo do que eu, teve que sentar na calota de um fusca pra ficar da minha altura. Por estar nervosa, enfiei a língua com tudo na boca dele. Fiz cócegas nas suas amígdalas.

Eu me lembro de ter lido todos os livros do Nelson Rodrigues aos quinze anos. A vida como ela é? Não, Nelson, é ainda muito pior.

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