Fichas no caixa

por Américo Paim

– Rá! Não caio mais nessa!

– Barca furada da porra!

– Peraí, véi, vocês são foda… Quando é que arrumei esquema escroto?

– Quer cálculo normal ou potência de dez?

– Cês vão roer? Vão me deixar só?

Começou mais ou menos assim, naquele verão de 1985, em Soterópolis. Sábado à tarde, eu, Ademir e Zezo na casa de Dudu, na Joana Angélica. A gente tinha vinte, vinte e um anos. Ele falou da festa de aniversário de um colega de faculdade, Bibi. Um sambão na Boca do Rio: comes, bebes e um monte de mulher. “Hoje até os chacais vão se dar bem!”, falou pro Ademir, nosso percussa, sujeito que não era feio, só que sem confiança com a mulherada. Magro, mas forte, cabeleira black, sorrisão alto astral. A coisa incomodava tanto o cara que ele nos agrupou assim: Dudu, o pegador supremo, atlético, sedutor até com um “bom dia”, eu, alto, com cara de confiável e mais uns amigos que se davam bem éramos os grandes felinos; ele, Zezo, gordinho sardento, espirituoso e bem esquentado e mais outros, eram os chacais, que ficavam com as sobras.

– Vai se lascar com esse migué.

– É sério, vai ser muita mulher. Tô lhe dizendo. Bibi conhece é gente.

– Aliás, que apelido é esse, hein?

– Ah, o nome dele é João Correia da Mata.

– E daí?

– A turma chama de “da Mata”. Como ele bebe bonito, virou “Bibi da Mata”, bibida mata. Sacou?

Só ele riu. Todo mundo ainda puto com a última dele, do baba em Amaralina, com um monte de peão forte que terminou em porrada. Como amigo bom não larga o outro na merda, topamos.

– Não esqueçam dos instrumentos.

– Oxe, não já tem os músicos?

– Ah, sempre tem espaço. Alguém pode ouvir, gostar e aí…

– E aí porra niúma.

– Qualé, Gersinho, custa nada, leva a viola!

– Mas não tem os caras contratados?

– É um pessoal amigo que vai tocar. Tudo de graça.

Cada um foi pra casa. Peguei o violão, como ele pediu. Ademir e Zezo iam de bongô, chocalho e timbau. Dudu era o cantor. Iriam outros amigos: Caniço, Gringo, Nariga e Toloco. Eu e Ademir chegamos às sete, marcado pra seis. Era uma casa branca pequena, de terreno amplo, de frente pra Praia dos Artistas, entrada pela rua da Porteira. No portão, um aviso: “entre de uma vez, campainha quebrada”. Seguimos um caminho de pedra barata até a varanda, onde havia uma furiosa “chupa catarro” mandando ver. Um senhor fumando unzinho de cheiro estranho explicou ser o fim de um ensaio. Ficamos apreciando. Nos contou que ali era a sede de um clube social da vizinhança. Nunca tinha ouvido falar de nenhum Bibi.

A varanda tinha quatro colunas finas, pé direito alto e ventilava bem. As cadeiras e mesas eram de plástico. Ao fundo, um bar com freezer, pia, churrasqueira, sem ninguém. Havia uma barreira escrito “sanitários” e duas portas atrás. As lâmpadas eram incandescentes e sujas e o piso maltratado. Os amigos chegaram pelas oito, menos nosso cantor, que gostava de entradas triunfais e sempre era o último.

– Véi, vou me picar. Isso aqui não vai dar em nada.

– Oxe, Nariga, chegou agora.

– Não tem comida, freezer trancado. Que porra é essa?

– E aquela placa: “fichas no caixa”?

Debatíamos o tipo de dor que Dudu merecia sofrer, quando chegou uma mulher, meio deslocada. Mais velha, nem bonita, nem feia, maquiagem pesada, mandou uma bem real.

– Boa noite. É aqui o aniversário de João da Mata?

– Boa. Foi o que nos disseram.

– E ele vem?

– A senhora conhece a figura?

– Meu irmão.

Nós rimos, ela balançou a cabeça e foi embora dali! Como assim? Não muito depois, Dudu apareceu. Veio a nós com um sujeito de bigodinho fino, cara de vendedor de gelo no Polo Norte, cabelo gosmento e entupido de perfume.

– E aí, pessoal? Esse é o grande João.

– Ah, o famoso Bibi…

– Ele veio! Não era seis horas?

– Que bobagem, Toloco. A festa começa agora.

– Feliz Aniversário, véi. Trouxe bebida e comida?

– Ih, rapaz, esqueci de deixar a chave da friza. Foi mal.

– Abre logo aquilo lá, mermão!

– Ah, e o cozinheiro chegou!

– Agora vai…

– Tá tudo certo: comida, bebida e os músicos.

Bibi falou isso e foi se misturar aos outros convidados, a essa altura muitos. Não deu trela pra nossas ironias. A gente prensou Dudu.

– Seu sacana, que merda de festa é essa?

– Tamo de bico seco!

– Calma, vai começar agora.

– E cadê os músicos?

– Já estão aqui. São vocês, aliás, somos nós.

Zezo voou nele, mas seguramos. A verdade é que ele ofereceu nossos serviços em troca de Bibi trazer Marieta para a festa. Dudu estava obcecado por ela. Descrevia como “morena formidável”, gostosa até o branco do olho, mais bonita que a Fonte Nova lotada, inteligente, estudante de Economia que conheceu em uma daquelas festas de faculdade e nunca pegou.

– Sim, seu filho da puta e vai ser tudo de graça?

– E a mulherada?

– O povo tá chegando, véi.

– Oxe, são quase nove!

– Vamo fazer um som pra animar.

Com as bebidas rolando e sem coisa melhor, ficamos. Quando íamos começar a tocar, Gringo chegou com as novas.

– Véi, a bebida é paga. Num falei?

– Dudu, porra é essa, véi?

– Depois se acerta, putada.

– Nada disso! Fala agora com ele!

Só que não deu tempo. A mesa foi cercada pelo povo querendo música. Começamos com Paulinho da Viola, João Bosco, Caetano, Gil, Djavan, Caymmi e por aí vai. O som rolando bonito, o pessoal dançava, cantava junto, só casais e machos. Alguém trouxe um bife hidráulico que boiava em uma piscina de óleo e gordura, com fritas que tingiram a toalha de papel como se fossem dendê. Dudu só cantava e olhava em volta, na expectativa de Marieta. Nada dela, mas chegaram várias meninas, um festival de mullets, cocotas, batas e blusinhas. Claro que eu, Zezo e Ademir, tocando, ficamos em desvantagem. A surpresa era o gato mestre. As criaturas se jogando e ele tirando de tempo, à espera da deusa. Perto das dez e meia, surgiram outras criaturas da noite.

Ele era uma mistura de Muhammad Ali e Miles Davis. Negro muito alto, com uma regata branca, músculo pra todo lado e um cabelo que começava no meio do enorme crânio e escorria para trás, com umas tranças no final. Dava medo. Segurava um djembê, primeira vez que vi aquele tambor. Com ele, uma mulher. Ela nem era tão bonita, mas já chegou iniciada. Toda apertadinha com uma calça preta jeans, cheia de colares e outros adereços, cheirava a jujuba. Logo tarou em Dudu. Até pensei que era a Marieta. Nosso cantor, resignado que a musa não vinha, lançou olhares para a recém-chegada.

O fortão perguntou muito por Bibi, com uma cara feia. Nosso anfitrião sumiu. Simples assim. Ninguém achava o mané. Sem sucesso, o gigante se juntou ao samba. No começo no chocalho, logo mudou para espancar seu instrumento, gritando comandos repetidos com vozeirão.

– Bongô, pra cima! Violão, cadê você?

Aquilo foi me irritando. Ele parecia estar em cima de um trio. Depois de uns quinze minutos da zoada em meu ouvido, parei de tocar e coloquei a mão sobre o djembê. Foi coragem, insanidade ou cansaço.

– Ô, véi, toque mais baixo!

– Calma, violão…

– Ou isso ou não toco mais nada.

Meus amigos me olharam: “vai morrer!”. Só que funcionou e ele parou. A paz foi breve. Após muitas roskas e cervas, a cocotinha iluminada resolveu que ia cantar. Pediu “Vai passar”. Perguntei a tonalidade. Ela respondeu que era um tipo de amarelo, apontando para a blusa. Ali lascou tudo. Ela entrou a plenos pulmões, fora do ritmo, com notas que as escalas musicais desconhecem. Nosso cantor, em choque, tentou cobrir a voz da moça, mas ela era destemida. Estava insuportável. Falei pra ele fazer um intervalo. Ele não quis, agora enfeitiçado pela gralha bêbada e lançou mão da solução perfeita: um repertório do fundo do baú, só com sambas da velha guarda. Entre Candeia, Cartola, Ataulfo, Noel e Assis, ela não conhecia nada! Enfim calou e saiu da mesa. Quando nós paramos, vimos que Gringo e Caniço, grandes felinos, já tinham se acertado com umas meninas. Toloco e Nariga, os chacais, pareciam perto disso. Demos ultimato a Dudu.

– Véi, já deu, né?

– Pera um pouco, só mais um bloco.

A frase mal terminou, interrompida por sons que vinham do banheiro. Não dava para entender as palavras, mas o tom de voz era inconfundível. Alguém estava cuidando dos exercícios vocais da moça e parecia conhecer muito de ritmo. Gemidos e gritos por toda a escala, sem preocupação com desafinos. Todos riam com o momento bizarro. Olhando a derrota do nosso amigo conquistador, Toloco não perdoou:

– Dudu, canta junto essa aê…

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