(Bruno Vicentini)
Há uma fila em frente ao bar.
Você a procura entre as pessoas na fila, tentando ser discreto, mas logo vê que ela não está lá. Há diversas garotas na fila, inclusive uma com o cabelo pintado de preto e preso num rabo-de-cavalo, que até poderia ser ela, mas que no fim não é.
Você para atrás do grupo animado que conversa no final da fila e mete a mão no bolso interno da jaqueta, em busca dos seus cigarros. Você pensa que agora é um bom momento pra fumar, já que você vai ter mesmo que ficar na fila, sem fazer nada, mas também porque antes, enquanto caminhava da sua casa até o bar, você não fumou, porque fumar andando é uma merda, você se distrai e no fim não aproveita nada, o vento vai tragando a fumaça contra sua vontade e o cigarro acaba rápido demais. Além disso você espera encontrá-la lá dentro e não sabe se quer que ela te veja fumando, porque você não sabe se ela também fuma. Você não tem certeza de que impressão isso poderia causar nela. Pode até ser que cause uma boa impressão, é verdade, mas isso só se ela também fumar. Você adora ver garotas fumando. Mas isso é porque você também fuma.
As pessoas que formam a fila ficam dando passinhos sem sair do lugar, ansiosas. Você quase não acredita que está junto com aquelas pessoas numa fila em frente ao Tribos, porque o Tribos tá sempre vazio. Você, além disso, se sente meio irritado, como se pertencesse mais àquele ambiente do que as outras pessoas, que só estão lá pra ver o show da banda que vai tocar hoje e que é uma banda famosa, como se você tivesse mais direito de estar lá do que o resto das pessoas que formam a fila, que são apenas aventureiros. Você não, você é diferente, você frequenta mesmo o bar, frequenta de verdade, já viu shows lá dentro que estavam vazios, não havia quase ninguém, mas você sim, você tava lá, sempre no mesmo lugar, próximo ao balcão. Mas não hoje, você hoje não quer ver merda de banda nenhuma, não foi por isso que você se arrumou e saiu de casa. Você hoje só pensa em encontrá-la, é só nisso que você pensa, em topar com ela, meio ao acaso, no meio daquele bando de aventureiros, mesmo sem ter a certeza de que ela virá, porque na verdade você não sabe, ela pode ter um compromisso, pode estar sem dinheiro, pode haver qualquer outro motivo para que ela não venha, vocês não conversaram antes, você só sabe que ela adora aquela banda de merda.
No meio do seu terceiro cigarro chega um punk com uma camiseta do Dead Kennedys. Você não sabe o nome dele, mas o reconhece, sabe que ele sim é prata da casa, um cliente habitual, como você. Que que tem aí hoje?, ele diz. Sei não, você diz, é uma banda qualquer, uma banda de fora.
(É claro que você sabe o nome da banda, mas você não diz, não ia pegar bem.)
O tipo logo na sua frente na fila olha pra trás como se você tivesse lhe contado uma piada de pontinho no meio do velório da sua própria mãe. O punk te pede um cigarro, acende, agradece e segue caminho. Vai bicando uma garrafinha d’água, com conhaque até quase a metade. A simpatia que você sente por ele é inversamente proporcional à aversão que você sente pelas outras pessoas na fila. Você sabe que ele comprou o gole no Guadalajara. Você sabe que ele vai seguir andando até o Asterisco, onde talvez esteja tocando uma banda de que ele goste.
Quem está na portaria do bar é a Dami. Oi, Ginho, ela diz. Você sabe que a Dami é amiga dela. Talvez amiga não seja a palavra, mas ainda assim você podia perguntar por ela, saber se ela chegou, se já tá lá dentro, a Dami ia saber. Acaba que você não pergunta nada. Você só diz Oi, Dami, e entra. A garota aproveita que você é uma cara conhecida e começa a desabafar enquanto faz a sua ficha, diz que você está cometendo um erro de estar ali, que a banda é uma merda, uma coisa ridícula, melodramática, que nem fudendo que ela vai se espremer pra ver aquele show, nunca, vai só terminar de taxiar aquele monte de mané pra dentro e vai lá pro fundo do bar, encher a lata. Então te encontro lá, você diz, e Dami ri. Você ri também, mas a risada sai meio amarela, meio nervosa. Você quer andar logo.
Dentro do bar tem tanta gente que não dá pra enxergar muito longe, os poucos rostos conhecidos vão aparecendo de súbito, quando você já está perto demais deles para ignorá-los. Você cumprimenta algumas pessoas, sem nunca deixar de ir em frente, em direção ao interior profundo do bar. Num determinado ponto há uma clareira, um espaço vazio entre as pessoas, formado por um garoto loiro caído numa poça do que parece ser o seu próprio vômito. Você pula por sobre as pernas do garoto e continua avançando. Você procura por rostos familiares em meio à turba, para que enfim você possa encontrar, em meio aos rostos familiares, o rosto dela, o único que lhe importa.
Você vê Juninho, o dono do bar, sentado sozinho numa mesa de lata, bebendo cerveja. Você acena e se dá conta de que é a primeira vez que vê o Juninho sorrindo. Deve ter enchido as burras com aquele tanto de gente lá dentro. O sorriso não lhe cai bem, parece algo que ele roubou de outra pessoa. Você termina de checar o fundo do bar, percorre toda a área externa, confere as mesas, uma por uma. Nem sinal dela. Você contorna o fundo, a área dos banheiros, espia dentro do feminino. O Tribos é pequeno e parece ainda menor cheio daquele jeito. Você vai se esgueirando, se espremendo, chega até perto do palco. E é isso. Ela não está lá.
No palco os roadies já afinam os instrumentos. Você calcula que o show deve estar prestes a começar, porque banda grande não gosta de tocar tarde em cidade pequena. Você se dá conta de que se ela viesse, já teria chegado. Na frente do bar não tem mais fila, tem só o segurança, a Dami sumiu, todo mundo já entrou. Ela não veio. Você entendeu tudo errado.
A primeira coisa em que você repara é nos cabelos dela, pintados de preto, e que hoje não estão presos num rabo-de-cavalo. Ela espera você desistir de encontrá-la e só então ela aparece. Vem do fundo do bar, de um canto onde você tem certeza de que olhou e ela não estava. Quando te vê ela arregala um pouco os olhos. Você a beija antes que ela possa dizer qualquer coisa. Antes que você possa dizer qualquer coisa, ela te puxa pelo braço, Vem, já vai começar o show, vamos lá pra dentro. Você se deixa levar. Você se arrepende de ter fumado três cigarros na fila, porque agora você sabe que ela não fuma, é óbvio que não.
***
Lá dentro o som preenche todos os espaços, o som é uma coisa material, opressora, que você poderia cortar com uma faca. As paredes estão molhadas de suor. Mesmo que estejam longe da frente do palco, vocês dois agora fazem parte da multidão, já não há escolha, vocês são parte de um todo que pula e que balança, de cá para lá, um organismo que pulsa e joga você de encontro a ela e ela de encontro a você, que cola o seu ventre no dela e o dela no seu. Ela busca o celular apertado no jeans e escreve uma mensagem que não envia, em vez disso ela te mostra a tela do celular, uma tela verde, onde ela escreveu: nao posso mais ficr com voce. Você leva a mão no bolso da calça, pensa em também responder por escrito, mas é só um ato reflexo, você não tem celular, você perdeu seu celular num assalto. Você quer saber por quê. Ela lê os seus lábios e apaga a mensagem, escreve outra: acho qu ainda gosto dele. dsculpa.
Parado ao lado dela, sem ter escolha, você presta atenção, pela primeira vez, nas palavras que o vocalista está cantando, e só então começa a compreender o que diz a canção.
