(Angélica)
Depois dos dois filmes, me avisaram que iam demorar um tempo pra me chamar de novo. Estava topando fazer qualquer coisa pra permanecer em Mumbai, não queria voltar pra São Paulo com o meu rabo-de-cavalo entre as pernas de jeito nenhum. Como tinha trazido minha roupa de dança do ventre, resolvi ir atrás de algum local pra me apresentar.
Logo meu faz de conta de arranjar uma casa descolada foi pro bueiro junto com a água suja que escorria pela sarjeta, nenhuma delas se interessou. Até que eu vi um lugar diferente dos demais, todo forrado com uns tecidos azuis no teto e nas paredes. Se chamava Jaadoo Tamboo, que traduzindo queria dizer Tenda Mágica. Não havia cadeiras, apenas uns tapetinhos pelo salão com uma mesa baixa na frente. No fundo, um palco pequeno rodeado por espelhos. Apesar de ser quase uma espelunca, aquele ambiente me fascinou. Gênios, tapetes voadores e um sultão podre de rico, que na verdade nunca iria pôr os pés lá. A minha odalisca na hora ficou assanhada. Deixa eu ver você dançar. Até que você se requebra bem, fica marcado pra quinta, se o público gostar, mudamos pro sábado.
Tive receio de perguntar se ali as dançarinas faziam programa quando Pavak, o dono, disse que o que eu arranjasse por fora era meu. Com uma barriga grande e careca, tinha a mania de passar o dedo no bigode enquanto pensava. Pela quantidade de anéis de ouro, dava pra ver que tirava uma boa grana dali.
Na noite do show, entrei pela porta lateral. Depois de passar por um corredor escuro e comprido, dei num camarim que parecia a continuação da tenda, só que com uns panos beges encardidos. Duas dançarinas já estavam se trocando. Vocês dançam aqui faz tempo? Não me responderam. Nem ao menos se deram ao trabalham de olhar pra mim. Pelas pálpebras caídas, já deviam fazer parte da mobília. A baixinha com uma roupa amarela estava se aquecendo e se seu quadril saísse andando sozinho, não ia me espantar, e a outra, de lilás, tinha uma bunda de dar inveja na mulher melancia. Deu uma insegura daquelas.
Fiz a besteira de não experimentar a roupa antes. Como eu comia cada vez menos, por causa das pimentas e do medo de ter outra intoxicação, a saia estava larga e em vez de ficar um pouco abaixo do umbigo, foi parar no começo da calcinha. Por sorte era de um biquíni. Sem muito o que fazer, coloquei o cinto de pedrarias como um prendedor de guardanapo. Fora que os meus seios também sobravam dentro do bustiê, mesmo abotoado no último colchete. Mal me vesti e Pavak apareceu me assustando. Você parecia mais cheinha, espero que no final eles fiquem com vontade de roer seus ossos, disse isso dando uma risada mas agora alisou o bigode com o dorso da mão, talvez pra limpar a baba. Por eu estar de vermelho, me senti uma fatia de costela. Antes que ele saísse, dei o pen drive com a música que eu iria dançar e frisei, falando mais alto, que era a faixa oito. Nervosa, tive que esperar um tempão até que chegasse a minha vez.
Assim que subi no palco, várias luzes coloridas começaram a piscar. Não tinha uma mulher na plateia. Não sei se foi pra me sacanear ou se não prestou atenção no que havia falado, mas Pavak pôs outra música, muito mais agitada. Frenética seria a palavra adequada. Pra manter o ritmo, tive que tremer meu quadril como se ele estivesse num freezer e a qualquer segundo fosse congelar. E foi tanto que minha saia se desprendeu do cinto e escorregou ainda mais do que antes, até o comecinho da coxa. Os clientes arregalaram os olhos. Querendo fazer de conta que não era comigo, prendi o polegar na cintura e com os outros dedos tentei puxar a saia pra cima. Só que não adiantou nada, voltava a cair. Nem levantar muito os braços eu podia, porque quando fiz isso, o bustiê veio junto e a base do meu peito ficou de fora. Todos me encaravam desconcertados e dava pra ver na cara deles que estavam em dúvida se aquilo seria uma apresentação cômica ou se eu era uma péssima dançarina.
Me atrapalhando toda, fui até a coxia, que parecia mais um puxadinho. Ao chegar perto de Pavak, que estava suando e desesperado vendo o fogo apagar, apertei algumas vezes o botão do aparelho de som pra mudar a música, sabia de cor a ordem das faixas. Voltei pro meio do palco arrancando a saia antes que ela fosse parar nas minhas canelas.
Na ponta dos pés, comecei a sambar. De cinto, bustiê e a calcinha do biquíni, eu era quase uma rainha da bateria, só faltava um penacho na cabeça. Não tinha mais essa de ficar erguendo os braços, samba se dança com a bunda, por isso soltei o rebolado com tudo. Ninguém piscava. Eles pararam de olhar pros lados, agora era só pra mim. Provavelmente nunca tinham ouvido a bateria da Mangueira e pareciam gostar. De tanto que me secavam, se eu já estava magra, agora eu ia desaparecer. Ou ser queimada viva até virar carvão, já que dos olhos de um dos clientes não saía uma faísca e sim uma labareda. Caramba, ele era lindo.
Pra impressionar o moreno encorpado que sorria mostrando até o dente do siso, desci rebolando até o chão. Apesar da pele escura, os traços do rosto eram diferentes dos demais, não devia ser indiano. Ao chegar lá embaixo, imaginei que ele podia estar deitado entre minhas pernas esperando por mim. Estava tão entretida com as fantasias que brotavam na minha cabeça, que nem prestei atenção no que Pavak falava. Só na terceira vez que repetiu, me dei conta. Vai pro meio dos tapetes usar seu varal. Que varal? Fui sem entender. E ao passar pelo cliente mais próximo, ele prendeu uma nota no meu cinto. Os outros clientes fizeram a mesma coisa quando passei sambando pelo salão. Até que cheguei no pedaço de filé mignon. Bateu uma vontade irresistível de comer um bife e de preferência que pingasse sangue. Raspando a unha na minha barriga, ele não colocou apenas o dinheiro, tinha um bilhete também. Voltei ansiosa pro palco pra terminar meu número.
Eles me aplaudiram bastante e Pavak me olhou como se eu voltasse a ser uma peça de carne do seu churrasco. Por precaução, antes de ler o que estava escrito no papel, juntei todo dinheiro e escondi na minha calcinha. Você é um espetáculo, não precisa nem de palco. Mal pude acreditar que estava escrito em português. Te espero lá fora. Me arrumei depressa, e claro, levando o cachê comigo. Se for esse número, pode voltar no sábado, mas por favor, esqueça As mil e uma noites, iam cortar a sua cabeça na primeira noite. Agradeci Pavak e ao chegar na calçada, o moreno estava lá. Se chamava Marlon. Ri quando falou que era de Governador Valadares.
