
Mary Gaitskill, 64, é autora do conto “Secretary”, que deu origem à obra-prima Secretary, de Steven Scheinberg, com Maggie Ghyllehall no papel da secretária masoquista apaixonada pelo seu chefe sádico. A narrativa é uma das 8 narrativas na terceira pessoa de Mau Comportamento, que acaba de sair pela Fósforo (tem mais uma, na primeira pessoa), na tradução da Bruna Beber. Há quatro histórias do ponto de vista de um homem, e 4 do ponto de vista de uma mulher. São ficções urbanas realistas com jovens adultos sedentos de sexo e drogas, circulando entre trabalhos ruins e interesses artísticos em Nova York. Comportamentos bizarros e alguma violência comparece em cada conto. Dona Mary é uma craque.
O paquera de Daisy
Joey sacou que o romance com Daisy poderia arruinar sua
vida, mas isso não o impediu de nada. Ele até gostava da ideia.
Fazia muito tempo desde a última vez em que sentira que sua
vida corria o risco de se afundar em ruína, e era divertido pensar
que restava essa possibilidade.
Trabalhava com Daisy no administrativo de um sebo decrépito
no Lower East Side de Manhattan. O departamento
era um cubículo ladrilhado e torreado de livros em estantes de
metal cinza macabro, que tinha como paisagem de fundo uma
parede imunda com canos brancos pendurados. Caixas de papelão
com livros para todo lado, papéis espalhados, cinzeiros,
copinhos descartáveis, cadeiras quebradas, um rato sorrateiro
de estimação. Clientes perambulavam por ali ao procurar a
porta de saída. Daisy, que se sentava perto do corredor, sempre
se levantava da mesa para atender algum velho perplexo de rosto
ensebado e óculos tortos.
A mesa de Joey ficava a meio metro oblíquo da de Daisy, de
onde caminhava até o bebedouro olhando para ela, sacudindo o
crachá de epilético que carregava no pescoço, aos suspiros. Aí
voltava para a sua mesa e ficava atirando elásticos na direção
dela. Nem sempre ela percebia esse gesto, até que ele lotava o
entorno da sua máquina de escrever com as tiras de borracha
vermelha. Ela olhava para cima e sorria sempre do mesmo jeito,
chapada e amável, e voltava a remexer os papéis com movimentos
longos e lentos.
Ele tinha passado quase um ano espreitando Daisy antes de se
aproximar dela. Vivia com Diane havia oito anos e relutava em
mexer numa relação tão estável. Além do mais, amava Diane.
Oito bons anos juntos, mas que agora se tornavam quase uma
sistematização.
Conhecera Diane na faculdade, na Bennington College. Tinha
ficado impressionado com o prestígio dela no departamento
de artes plásticas, com a qualidade do lsd que vendia e com
a sua insolência. Era uma mulher alta e bonita de trinta e três
anos e de ombros firmes e compactos, tensíssima pela contração
abaloada e recorrente dos músculos. Em consequência, era
muito musculosa, embora não fizesse nada além de ficar largada
em seu loft se drogando. Ele sustentava Diane com o trabalho
de contador no sebo e vendendo drogas. Ela contribuía
com a grana que o governo lhe dava por ser, comprovadamente,
uma pessoa com distúrbios mentais.
Eles se chapavam de Dexedrine uns três ou quatro dias por
semana. E levaram a sério esse ritual durante todo o tempo em
que viveram juntos. Começavam na quinta de manhã, o primeiro
dia útil para Joey. Ele trabalhava o dia inteiro no sebo,
voltava pra casa e tocava seus projetos pessoais. Desmontava
o computador e espalhava as pecinhas cinzentas pelo chão.
Agachado, brincava com aqueles montinhos durante horas e
depois remontava do zero. Fazia outras coisas também. Uma
vez tirou uma série de fotografias azul e branco da caveira de
boi que tinham na sala de estar. Gravava fitas cassetes com
barulhos que julgava soarem bem quando misturados. Programava
o computador. Ou então só desenterrava seus bonecos de
corda do cesto de brinquedos e os soltava pelo chão enquanto
ouvia uns vinis. No passado, Diane trabalhava nos borrões de
seus quadros gigantes. Aos domingos, o chão do loft acordava
coberto de papel de cera com nódoas de tinta acrílica e de
água borrifada, que confluíam em riachos de um roxo opaco.
Ela costumava trabalhar numa pintura meses a fio para depois
destruí-la. Mas havia parado de pintar. Agora passava o tempo
assistindo tv, levando os cachorros para passear e fazendo cálculos
de biorritmo no computador.
Aos domingos, Joey voltava do trabalho cheio de olheiras,
tenso e baqueado. Diane o aguardava com tigelas de salada
vermelhas e gêmeas que havia ganhado de presente da sua avó.
Sempre tinha rabanete umedecido e bem cortadinho no topo
da salada. Comiam e dormiam até segunda-feira à noite. Aí
Diane pedia sushi do japonês da esquina e, quando chegava,
ela arrumava cada peça sobre uma tábua de madeira comprida.
Espirravam limão e sal e comiam com a mão. Às vezes alguém
aparecia pra comprar drogas e eles ficavam ali fazendo um social,
curtindo um som. Depois iam dormir. Na quinta de manhã
já estavam revigorados e a postos para ficarem acordados até o
domingo seguinte.
Transavam uma vez por mês. Durava pouco tempo porque
ambos concordavam que ficava monótono e porque Diane ficava
enojada com as situações que as pessoas armavam para esticar
a transa. Entretanto, quando Joey começou a ficar de olho em
Daisy, parou com as investidas em Diane e ela ficou ressentida.
Ficou ressentida também com outras coisas. Incomodava-
-se com os bonecos de corda. Se ele deixasse algum dando bobeira
no chão, ela chutava. Não gostava mais dos enroladinhos
de noz-pecã que ele comia às quartas-feiras de manhã. Reclamava
do aspecto nojento daqueles pãezinhos, em seguida comia
a metade.
Daisy também vivia com outra pessoa, mas saçaricava pelo
sebo balbuciando sua infidelidade como se fosse o único assunto
que tivesse a tratar. Ele gostava de assisti-la peregrinar de
mesa em mesa vestindo um tênis branco e um jeans que raspava
de leve entre as coxas socadas a cada mínimo passo. Ela queria
saber o que Evelyn ou Ariel e qualquer um que estivesse por
perto achavam do fulano de tal que tinha ficado de telefonar
pra ela, mas nem tchum. Também queria saber o que achavam de
ela telefonar para o talzinho e falar um monte de merda. Algo
desse naipe. O supervisor, Tommy, só aturava esse comportamento
porque era aquele tipo de gay que gostava de ouvir os
quiproquós românticos das moças. Ele não aprovava as voltas
que ela dava no namorado na surdina, mas não perdia uma
oportunidade de moralizar a cada vez que um cara novo aparecia
e jogava seu nome na lama, nas palavras dela. Daisy sempre
dizia a mesma coisa:
— Tommy, eu tô tentando mandar ele passear. Mas tá difícil.
Não posso fazer nada.
Uma vez Joey ouviu Tommy confessar para outro supervisor
que Daisy era uma péssima funcionária.
— Mas é uma figuraça — disse Tommy. — Nunca que vou
botar na rua. O que a coitada faria da vida?
Joey sentiu uma pontada incrédula de afeto. Será que ela
conseguia ser mais incompetente do que os parasitas da datilografia?
Todos eram péssimos funcionários, à exceção de Evelyn.
Evelyn, aliás, era a única outra mulher do sebo. Enérgica, maxilar
quadrado, datilografava oitenta palavras por minuto. Usava
jeans apertados no corpo, camisa de caubói e sempre tinha um
acúmulo de delineador preto embolado no canto do olho. As me-
chas loiras do cabelo caíam sobre o rosto e lhe davam uma aparência
mascarada e bestial. Tinha uma coleção de livros de grandes
assassinos da humanidade em cima da mesa e sabia narrar a
biografia deles de cabo a rabo.
Os outros três datilógrafos eram bichas gordas e carrancudas
que ficavam em suas mesas comendo pacotes de biscoito
e reclamando. Trabalhavam no sebo havia anos e diziam num
uníssono desesperado que iam “cair fora”. Ariel era o funcionário
mais antigo da casa. Tinha um metro e noventa de altura
e ombros engolfados, recatados, um quadril largo e seios carnudos
bem marcados que eram o seu maior constrangimento.
Uma cabeça pequena, um nariz grande e esburacado e olhões
castanhos que variavam entre a candura e o desamparo, mas
fora isso tinha uma figura confusa e perturbadora. Desfrutara
de certa notoriedade nos círculos do punk rock por sua música
composta em piano elétrico. Falava do sucesso de priscas eras
com uma voz tímida e melancólica, e mostrava fotografias antigas
nas quais aparecia todo vestido de preto com óculos de
sol modelo gatinho. Era um cara muito sensível, e Tommy se
aproveitava disso para tirar um sarro da cara dele:
— Ariel é a encarnação da datilografia — dizia Tommy, enquanto
ele corria de balconista em balconista com uma pilha de
papel no braço. — Sempre que estiverem sem inspiração, observem
o Ariel.
— Para com isso, Tom, estou a uma piscada do choro — respondia
Ariel, num tom fúnebre.
— Mas é disso que se trata! — gritava Tom.
Na primeira vez em que reparou em Daisy, Joey se perguntou por
que uma gatinha daquelas tinha escolhido trabalhar num sebo
imundo e à beira da falência junto com bichas desgostosas. Com
o passar do tempo, a situação lhe pareceu ainda mais despropositada.
Daisy se sentia bem na datilografia. Gostava de ouvir os
rapazes contando suas aventuras nos leather bars, onde os homens
curtiam boquetes em cabines de madeira ou mijavam uns
sobre os outros. Ela contava piadas que misturavam sexo e Helen
Keller. Falava sobre seus namorados e quadros. Sempre estava
agachada do lado da mesa da Evelyn, cochichando ou rindo de
qualquer coisa, ou folheando as edições antigas da revista True
Detective sobre a mesa. Ela usava camisetas com personagens
de desenho animado e calças coloridas. Seu cabelo castanho tinha
um corte reto que encurvava as laterais sobre as bochechas
salientes. Ao caminhar, os ombros e o pescoção ficavam tesos e
bamboleavam pra frente como se fosse um pato, mas gingava os
quadris e a cintura com suavidade.
Os héteros sempre saracoteavam pela mesa dela, falando
dos poemas que escreviam ou de suas posições políticas; ela
só olhava e assentia. Até os gays ensaiavam bravatas para ela.
Tommy seguia assegurando que ela encontraria o príncipe encantado
na próxima esquina.
— Eu sinto que sim, Daisy — dizia, exultante. — Você está
na rota de colisão com O Cara da Sua Vida.
— Você acha, Tom?
— É óbvio! Não está animada?
Então Ariel se levantava da mesa, se arrastava até a dela,
curvava o corpo e passava seus brações rotundos sobre os ombros
de Daisy. Joey conseguia enxergar a mãozinha de Daisy se
esgueirando em meio ao flanco obeso de Ariel enquanto ela, tolerante,
o acariciava.
E, como se não bastasse ser a arrasa-corações da gentalha,
ela ainda era gentil com pessoas indefesas e repulsivas. Tinha
uma velha grotesca que virava e mexia dava as caras no sebo em
busca da gentileza de Daisy. A mulher tinha no mínimo sessenta
anos, e besuntava o rosto inteiro de maquiagem terracota. Comprava
best-sellers sofríveis e livros de autoajuda com capas em
vermelho cheguei. Encostava na mesa de Daisy e ficava quase
uma hora contando de sua depressão. Daisy desligava a máquina
de escrever e se voltava para a mulher segurando o queixo com a
mão. Ouvia com muita atenção, às vezes concordava, e aceitava
de bom grado os saquinhos de bala e os beijinhos que a mulher
dava em sua bochecha. Todos faziam comentários maliciosos
sobre Daisy e “a velha maluca sapatão”. Mas Daisy seguia reafirmando
a cortesia e a atenção que dirigia àquela criatura penosa,
embora às vezes caçoasse dela depois que ela ia embora.
Joey não pensava em transar com Daisy, pelo menos não em
minúcias. Era mais a ideia de estar perto dela, de protegê-la.
É claro que ela era muito confusa. Buscava respostas por toda
parte, queria que lhe dissessem o que pensar. “Quero saber sua
opinião”, costumava dizer.
Tinha um freguês que apelidara de “horóscopo”, porque ele
se dizia capaz de prever o futuro por meio da “escrita automática”.
Era um coroa bonitão que usava ternos elegantes e caros
e parecia ter pelo menos uma plástica na cara. Frequentava o
sebo havia anos. Toda vez que aparecia, Daisy o arrastava para
um canto e lhe fazia perguntas. Ele rabiscava as respostas com
uma caneta vermelha de ponta fina e as entregava com um
olhar particularmente arrogante. Ela ficava ou perplexa ou alegre.
Depois corria de mesa em mesa contando o que havia lhe
dito, tendo em alta conta os memorandos rabiscados em tinta
vermelha: “Diz ele que meus quadros vão começar a fazer sucesso
daqui a um ano meio”, “Ele disse que não há um homem
que presta à minha volta e que assim será por meses”, “Segundo
ele, David enfim sai de casa no mês que vem”.
— Por acaso você leva essas coisas a sério? — perguntou Joey.
— No fundo, não — disse ela. — Mas acho interessante.
Voltou para sua mesa, guardou os papéis dentro de uma gaveta
e começou a datilografar; seu rosto ainda estava iluminado,
a cabeça erguida, porque alguém que provavelmente não
batia bem da cabeça havia lhe dito que enfim ela faria sucesso.
Joey passou a pensar em Daisy quando estava em casa. Imaginava
o corpo dela recostado no dele, imaginava tê-la em seus braços.
Imaginou Daisy vestida com um quimono branco, espiando
por trás de um leque, a maquiagem dos olhos enrugando-se a
cada sorriso. Diane ficou desconfiada.
— Você tá em outro planeta — disse na hora da salada de
domingo. — O que tá rolando?
— Tô preocupado — o tom de voz deixava claro que aquela
queixa era em vão, e ela ficou assustada e raivosa. Não disse mais
nada, e era tudo o que Joey queria.
Não dormiu com ela naquela noite, embora estivesse exausto.
Ficou andando de um lado para o outro no apartamento,
açoitando os móveis com o chicote de montaria de Diane, infernizando
os gatos, fazendo-os se arrastar pelo chão, os olhos
irados, os rabos eriçados. Os olhos de Joey esturricaram dentro
das órbitas. Suas costas doíam e ganharam nós pelos três dias
que passou acordado.
Começou a fazer coisas para chamar a atenção de Daisy.
Contava piadas. Salpicava o rosto com água-de-colônia. Usava
calças vermelhas e um facão pendurado no cinto. Fazia agachamento
e plantava bananeira. Falava da importância que
teve na cena teatral de Bennington e das aulas que fizera com
André Gregory. Contou da única aula de caratê a que assistiu e
do rombo que fez numa caixa de livros. Até que ela disse:
— Joey já fez de tudo! — e havia uma nota de glória em sua
voz.
Por um longo tempo, bastava-lhe olhar para ela. Só isso já o
deixava feliz, temia qualquer investida mais ousada. Achou que
talvez fosse melhor conter a imagem de sua sombra alada num
lugar seguro da memória do que tocar aquela criatura vivente
e perdê-la.
Decidiu presenteá-la com um cartão de Dia dos Namorados.
Passou dias e dias procurando um cartãozinho interessante.
Encontrou o que desejava num livro infantil ilustrado e velho.
Era uma aquarela desbotada de um campo com três papoulas
vermelhas, trevos cor-de-rosa e algumas ervas daninhas irrepreensíveis.
Uma abelha cor de mel sonhava de olhos fechados,
escalando um talo de planta. Um gafanhoto verde-água sobrevoava
um céu azul que era turvo e decadente, também de olhos
fechados, mas jubilosos, suas patas dianteiras pendiam ao léu
e as traseiras, exultantes, chutavam o ar. Era uma ilustraçãozinha
delirante e deformada. As cores não faziam sentido. Ele
associou tudo isso ao paraíso.
Arrancou a página do livro, cobriu com um pedaço de papel
manteiga, e a cena ilustrativa, velada pela névoa amarelada, tornou-
se longínqua e misteriosa. Desenhou cinco corações tortos,
de tamanhos diferentes e numa escala sem sentido, na parte inferior.
Pintou os corações de vermelho. Escreveu “Voici le temps
des assassins” como legenda.
Levou o cartão para o trabalho vários dias antes e vários
dias depois do Dia dos Namorados. Decidiu entregá-lo algumas
vezes, mas mudou de ideia em todas elas. Examinava o objeto
diariamente, ponderava sua qualidade. Quando concluiu
que era um objeto perfeito, achou que talvez fosse melhor deixá-
lo na gaveta, preservando sua existência como um segredo.
Enfim disse:
— Fiz um cartão de Dia dos Namorados pra você.
Ela batucou na mesa, ávida de curiosidade e disse sorrindo:
— Cadê?
— Tá na minha gaveta. Mas acho que ainda não é a hora.
— Como não? O Dia dos Namorados foi na semana passada.
Por que não agora? — disse ela, pousando os dedos, feito garras
macias, nos ombros dele. — Me dá agora.
Quando ele entregou o cartão, ela o abraçou e apertou seu
corpo contra o dele. Ele riu e retribuiu. E se livrou da sombra
alada e cativa dela.
Naquela noite não conseguiu comer a salada de espinafre. O
rabanete com suas flores sapecas entre o vermelho e o branco
não o convenceram em nada. Diane se sentou na frente dele, e
parecia que mastigava pedra. Estava com as costas eretas e o
pescoço tão esticado que não parecia fácil engolir qualquer coisa.
Ele pegou a tigela de salada e remexeu as verduras lavadas
de um lado para o outro. Olhava através de Diane, suspirando,
os olhos ressecados, injetados nas órbitas.
— Você está parecendo um idiota — disse ela.
— Eu sou.
No dia seguinte levou Daisy para almoçar, embora não conseguisse
comer. Pediu uma salada, que chegou numa tigela bege
de plástico. Atulhada de cenoura pálida ralada e rodelas de rabanete
que o incriminaram. Ignorou. Ficou olhando para ela,
que comia fios de macarrão gelados, meio verdes, meio brancos.
Enrodilhados e brilhando de óleo, a tigela salpicada de tiras
oleosas de carne e vegetais. Daisy garfou com serenidade, três
rodilhas por vez.
— Você não imagina a maravilha que é estar aqui — disse
ele. — Estou de olho em você há tanto tempo.
Ela sorriu, ele pensou, mas não tinha certeza.
— Você é tão delicada e gentil. Tem a delicadeza de uma rosa
branca.
— Não sou não.
— Imagino que não. Mas parece, isso me basta.
— E a Diane?
— Vou me separar.
Ela largou o garfo e ficou olhando para ele. O movimento
de suas mandíbulas era doce e sincero. Ele sorriu para ela, que
engoliu em seco, resoluta, e disse:
— Não faça isso.
— Por que não? Eu te amo.
— Ah, não — disse ela. — Já está passando dos limites. Por
que não come a salada?
— Não consigo. Tô bolado.
— Tá o quê?
Ele se forçou a comer as folhas desbotadas e os fiapos de cenoura.
Saíram do restaurante e deram uma volta pelo quarteirão.
Daisy levou uma pancada forte de vento na cabeça; seu casaco
cinza flutuava atrás do corpo como uma vela. Ele segurou sua
mão, dentro da meia-luva: “Eu te amo”, disse. “Nada mais tem
importância. Quero cobri-la com meu manto de proteção.”
— Vamos sentar um pouco aqui — disse ela.
Sentou-se numa mureta de tijolos amarelados em frente a
um prédio residencial que era um arremedo de tijolos amarelados
com vidros de um cinza tenebroso escudando a sombra
deprimente de um porteiro. Ele se sentou bem próximo a ela e
segurou sua mão.
— Primeiro você precisa saber algumas coisas sobre mim —
disse ela. — Eu não lido bem com galanteios.
— Não me importo. Continuo encantado.
— Mas você não vai ficar mal se não for correspondido?
— Acho que ficaria desapontado. Mas ainda satisfeito com o
que sinto por você. Não preciso ser correspondido.
Ele quis segurar a cabeça dela e espremer.
Ela devolveu um olhar atento e falou:
— Eu disse exatamente isso a outra pessoa há pouco tempo.
Você acha que está na moda dizer isso?
O vento soprou a franja dela, revelando a testa branca. Ele
beijou sua testa exposta. Ela recostou a cabeça no ombro dele.
Uma velha de casaco rosa com uma flor de pétalas espalhafatosas
de lantejoulas na lapela olhou para eles e sorriu. Seu
rosto branco era muito enrugado, usava uma maquiagem cor-
-de-rosa carregada, e o sorriso se esgueirava sob as tintas. Ela
estava sentada numa mureta de tijolos a poucos passos deles.
— Acho que não estou sendo clara — disse Daisy, e levantou
a cabeça, com os olhos arregalados e atônitos. — Se for legal
comigo, provavelmente vou te fazer sofrer. Outras pessoas já
passaram por isso.
— Não tem como você me fazer sofrer.
— Eu só consigo ser legal com pessoas que me tratam mal.
Uma vez me disseram pra ficar longe de um fulano porque ele
batia em mulher. Disseram que ele tinha quebrado o queixo da
namorada.
Ela fez uma pausa, para ser mais enfática, ele supôs. A velha
parecia que estava ficando deprimida.
— Aí eu comecei a paquerá-lo ainda mais. Não é louco?
— E o que aconteceu? — perguntou Joey, interessado.
— Nada. Ele foi internado no Bellevue antes. Mas não é medonho
isso? No fundo eu queria que aquele doido me batesse
— disse, fazendo mais uma pausa. — Você não está com nojo
de mim?
— Sei lá.
A velha se levantou devagar, de cabeça baixa, e saiu pisando
firme, revoltada. O casaco dela se abriu com o vento; as pernas
com varizes azuladas tinham uma beleza peculiar.
Daisy se virou para observá-la e disse:
— Viu só? Ela sim ficou enojada. Acabamos com o dia dela.
Todos os dias, depois do expediente, ele acompanhava Daisy até
uma esquina a dois quarteirões de seu apartamento para não cruzar
com o namorado dela, David. Na esquina tinha uma farmácia
cuja vitrine expunha vidros coloridos de perfume aninhados em
papel crepom. O farmacêutico, um coroa barrigudo de feição desiludida,
ficava em pé na porta assistindo à despedida deles. Era
uma esquina movimentada; tráfego intenso na rua, e as pessoas
transitavam impacientes, olhando em direções opostas, segurando
embrulhos, pastas e aparelhos de rádio gigantes e barulhentos,
rostos muito concentrados, mas vazios. Daisy ficava silenciosa e
combalida feito um caniço, a meia-luva preta e peluda nas mãos
de Joey, cujos olhos rastreavam a mínima sombra de David na rua.
Ela já tinha se despedido várias vezes, mas ele sempre a puxava
pela lapela do casaco quando ela se virava para atravessar a rua.
Depois do segundo puxão, ela bufou, olhou pra baixo e começou
a vasculhar os bolsos atrás de pedacinhos perdidos de papel, do
qual picotou flocos de neve, e despejou na lixeira de metal abarrotada
sob o poste de luz, como se, estando presa em uma esquina,
tivesse tempo para fazer coisa mais útil, como limpar os bolsos.
Naquele dia, quando enfim deixou que ela partisse, ficou
em pé por ali um tempo e a observou caminhando pela rua e
sumindo naquela multidão de pessoas apressadas. Andou até a
metade do quarteirão e entrou numa loja de doces cujo letreiro
era de neon laranja, comprou vários sacos de jujuba. Em seguida
pegou um táxi e voltou para casa como um sultão. Ignorou
o olhar amargurado de Diane enquanto cruzava a sala para se
trancar no quarto com suas jujubas.
Fantasiou que salvava a vida de Daisy. Ela atravessando a rua
com o semblante aéreo e alheio de sempre. Um carro rugindo
numa esquina atulhada de lixo, ela morrendo de frio no trajeto,
seu rosto pálido e desprotegido como um coelho agachado. Ele
surgiria do nada, num pulo, puxando-a pelo braço e os dois cairiam
na calçada, mas, por segurança, a cabeça dela seria amortecida
pelo braço dele. Ou ela sendo abordada por um adolescente
que a puxaria pelo casaco e a jogaria na parede. Ele apareceria de
repente para defendê-la. As pernas do punk sobrevoariam o ar
enquanto Joey o arremessava numa parede de tijolos caindo aos
pedaços. “Se você encostar um dedo nela, eu juro que…”
Respirou fundo, tomou mais um comprimido e engoliu uma
mãozada de jujubas.
— Minha mãe nunca conseguiu me entender nem fazer nada
para me ajudar — disse ele. — E ela achava que estava fazendo
a coisa certa.
— Que vaca — disse Daisy.
— Nem tanto. Ela fez tudo o que podia, dadas as circunstâncias.
E pelo menos conseguiu reconhecer que eu era mais
inteligente que ela.
— Então por que deixou o namorado dela bater em você?
— Ele não me batia. Era só um gordo preguiçoso que adorava
dar chave de braço num moleque de doze anos e ficar perguntando
“e agora, malandrinho?”.
— Ele bateu em você.
Estavam num bar apertado e escuro. O piso e as mesas eram
de madeira velha rangente, e tinha um vitrô meia-lua de vidro
grosso numa das paredes. As mesas tinham muitos arranhões de
faca, as batatas fritas eram compridas e moles. As garçonetes se
arrastavam feito dinossauros com suas mãozinhas desengonçadas
e varizes arroxeadas nas pernas, embora fossem jovens. Mas
eram simpáticas, e olhavam no olho.
Daisy e Joey foram almoçar e se sentaram numa mesa de
banco alto nas profundezas do bar. Joey não comeu nada, mas
agora Daisy já sabia o motivo. Ele ficou bebendo e observando-
-a comer um hambúrguer às mordidinhas.
— Ainda não consigo entender por que ela se casou com aquele
porco asqueroso. Eu pergunto e ela diz “porque ele me traz estabilidade
e segurança”.
— Estabilidade pra mim é outra coisa.
— Em comparação ao meu pai, ele era uma pessoa estável.
Porque meu pai sempre estava mamado, mal conseguia descer
as escadas sem cair, quanto mais arrumar um trabalho. Estamos
falando de um cara que morreu numa enfermaria minúscula cantando
“Joey, Foey, Bo-Poey, Bananarama Oh-Boey”. Diante disso,
qualquer zé-mané é mais estável. Mas logo o Tom? Meu pai pelo
menos tinha estilo. Preferia morrer a usar aqueles trapos de tergal
que o Tom usa.
Daisy recostou a cabeça no banco alto e olhou para ele com
solenidade.
— Quando ela me contou pelo telefone que ia se casar com o
tio Tom, fiquei feliz. Pelo menos poderia passar o Natal em casa,
e não com meus parentes da ciência cristã que me faziam usar
aquelas calças xadrez de retardado pra ir pra escola.
— Mas ele nunca poderia ter te expulsado de casa daquele
jeito — disse Daisy.
Ela ajeitou a postura, puxou o drinque em direção à boca e
agarrou o canudo com um solavanco de lábios.
— Ela achou que era a coisa certa a se fazer depois que meu
pai morreu. Mas nunca soube que meus parentes me odiavam.
— Eu não sei como ela poderia achar que a coisa certa era
botar você pra fora de casa aos dezesseis anos.
— Ela não me botou pra fora. Mas eu sabia que aquela brigalhada
que rolava em casa especulando se eu era bicha ou não
magoava minha mãe. Saquei que eu era mais adulto do que eles
dois e que o controle da situação estava comigo.
Daisy se recostou no banco segurando o copo com as duas
mãos e chupou o canudo, suas bochechas pulsavam com delicadeza.
Um ruído frugal e gorgolejante ascendeu do fundo do copo
quando ela deu a chupada final no drinque. Ele sorriu e pegou na
mão dela. Ela apertou os dedos dele. Ele deu um gole no drinque,
sua pulsação disparou, descontrolada. Na verdade, não tinha
sido expulso de casa aos dezesseis. Tinha dezoito anos quando
Tom perdeu a cabeça ao avistar o pôster anti-Vietnã na parede
do quarto e quebrou seu nariz.
Daisy colocou o copo à mesa com um movimento mal articulado.
Recostou-se em Joey. Ele aninhou sua cabeça e pediu mais
drinques.
— Eles ficaram incrédulos quando consegui aquela bolsa
para estudar em Bennington. Eu nem tinha comentado sobre a
inscrição. Eles já se sentiam inferiores a mim.
— E você largou a faculdade pra voltar pra casa da sua mãe?
— disse Daisy, e mal dava pra ouvir sua voz, a boca abafada pelo
ombro dele.
— Eu larguei porque não suportava aquelas pessoas. Não
suportava a ideia que faziam da arte. A arte só presta no momento
em que é feita. Depois disso deixa de existir. Vira um
aterro de merda. E os artistas são pessoas catando suas próprias
merdas.
Ela se afastou dele, pegou o novo drinque sobre a mesa.
— Eu sou artista. Diane é artista. Por que gosta da gente,
então?
Ele beijou a veia azulada que ela tinha no pescoço e ficou
curtindo as batidas tolas de seu coração.
— Você tá mais pra uma miragem, uma bela miragem.
Os olhos dela dardejaram preocupação.
— Você gosta de mim porque eu sou igual a você.
Demonstrando tolerância, sorriu para ela e acariciou seu
pescoço.
— Você não é igual a mim. Ninguém é igual a mim. Eu sou um
fenômeno.
Ela parecia cansada e se afastou dele para dar mais um gole
no drinque.
— Você é um porra-louca. Eu também. Não servimos pra
nada.
— Óooo!
Ele enfiou a mão por baixo da camiseta dela e tocou seus peitinhos.
Ela encostou a testa no pescoço dele e pôs a mão entre
suas pernas. A voz dela fazia a pele dele tremular.
— O David vai fazer um show em outra cidade semana que
vem. Vamos passar o fim de semana juntos?
— Quem sabe.
Às vezes, no entanto, achava Daisy uma boçal. Pensava nisso
quando olhava para Diane e notava a severidade e a distinção do
formato de sua boca, a autoridade de seu nariz, a flexão dos músculos
do braço quando ela futucava as unhas. Diane não fazia
perguntas imbecis sobre drogas. Nunca havia pensado
sobre o fato de ser uma porra-louca ou se enquadrar na sociedade.
Abominava a sociedade. Sentava-se imóvel como uma pedra,
as pálpebras sobrecarregando os olhos semicerrados, o jeito de inclinar
a cabeça em belíssima harmonia com seus braços esbeltos e
austeros, um cigarro entre os dedos tão sagazes.
Tarde demais. Diane não queria mais falar com ele, exceto
para achincalhá-lo. Havia alterado o cronograma de bolação para
que não coincidisse mais com o dele. Às vezes nem tomava
nada. Dizia que as bolas a deixavam chorosa.
Joey a encontrou chorando um dia quando chegou do trabalho.
Era tão raro ver Diane chorar que demorou um tempo até
que se desse conta de que o rosto dela estava cheio de lágrimas.
Ela estava sentada na antiga poltrona roxa perto da janela,
uma perna dobrada e envergada para que o joelho escondesse
seu rosto. Os ombros curvados, comprimidos, ela apertava o pé
descalço com as mãos. Viu quando ele cruzou a sala. Esperou
que pusesse a mão na maçaneta da porta para dizer:
— Você tá saindo com alguém.
Ele parou e olhou para ela, agradecido, aliviado por ela ter
tomado a iniciativa de puxar esse assunto.
— Eu queria te contar — disse ele —, mas não sabia como.
— Seu covarde filho da puta.
— Não é nada sério — disse ele. — É só uma obsessão.
— É a Daisy, não é?
Ela pronunciou o nome como se falasse de uma doença.
— Como você descobriu?
— Pelo jeito como falava o nome dela. Era nojento.
— Eu não queria que isso acontecesse.
— Você é um lixo.
Foi nessa hora que ele percebeu o rastro brilhoso sobre as
bochechas e o queixo dela. As lágrimas desoladoras e pungentes
no rosto imóvel. Largou o saco de jujubas e foi até ela. Sentou-
se no braço volumoso da poltrona, abraçou seu corpo rígido
e trêmulo e disse:
— Sinto muito.
— Da outra vez também foi assim — disse ela. — Com a tal
da Rita. Que nojo.
— Se você conseguir ficar comigo até isso passar, vai passar…
— Quero você fora daqui até o fim do mês.
As lágrimas crepitavam dentro de sua voz, estremeciam
como um raio de sol na poça. Ele queria transar com ela.
— Você é a pessoa mais cruel que eu já conheci.
Ela resfolegava. Pulou da poltrona e saiu andando, chutou
o saco de jujubas e elas se esparramaram pelo chão da sala. Ele
esperou que ela saísse para catar um punhado das vermelhas,
laranja e verdes. Comeu todas enquanto observava a rua pela
janela. Dois viciados usando casacos horrorosos estavam metidos
no buraco dentado de uma cerca de arame. Eu sou um lixo,
ele pensou.
E foi para o quarto pensar em Daisy.
Na manhã seguinte, foi até a mesa de Daisy e se sentou ao
seu lado, sobre uma caixa de livros que tinha uma caricatura
em giz nada lisonjeira do supervisor do departamento de distribuição.
Ela segurou o copinho descartável com chá perto da
boca e deu um gole enquanto olhava pra ele por cima da borda
do copo com olhos enevoados.
— Ela disse que eu sou a pessoa mais cruel que ela já conheceu.
— Mas que exagero. Ela não deve sair muito de casa, então.
Mal sabe ela os maus elementos que estão por aí.
— Você não me conhece.
Ela pôs o copo de chá sobre a mesa e disse:
— Conversei com o David ontem à noite. Ele também chorou.
Ficou sentado olhando pra mim, os olhos estatelados, foi
horrível.
Ela pegou um pedaço de papelão e começou a varrer os cocôs
de rato sobre a mesa e os organizou em um montinho.
— Então agora os dois já sabem de tudo.
— E nós podemos ir à ópera hoje à noite. Tenho ingressos
para Die Walküre. Você pode tomar umas bolas e a gente pode
passar a noite inteira na rua.
— Eu não quero tomar bola.
Ela tirou a lixeira viscosa e respingada de café que tinha debaixo
da mesa e varreu os cocôs de rato num movimento habilidoso
com o papelão.
Daisy nunca tinha ido à opera.
— Será que vai ter gente de armadura e chapéu de chifre? —
perguntou. — Ou dragões de papel machê e outras criaturas
aladas? Ela encarava o palco cortinado sem piscar.
— Acho que não — disse ele. — Acho que essa montagem é
inspirada no impressionismo alemão, e por isso vão evitar o máximo
de cenário e figurino. Esse grupo preza muito o simbolismo
e o minimalismo. E essa postura é uma reação a uma época anterior,
quando…
— Quero ver um dragão voando no palco.
Ela pegou uma pastilha rosa da caixinha de opera mints
que ele tinha comprado, jogou uma na boca e chupou fazendo
barulho. Encaminhou a pastilha para uma das bochechas
e perguntou:
— Por que você gosta de ópera?
— Não sei, em alguns casos gosto da música, também tenho
curiosidade sobre as montagens. Gosto de observar as pessoas.
— Também gosto.
— Às vezes fico fantasiando que o teatro vai sofrer uma invasão
repentina de psicopatas ou de terroristas, e que eu salvo
todo mundo.
Ela parou de chupar a bala e olhou pra ele.
— Como assim?
— Eu pulo da balaustrada de uma galeria e escorrego pelas
cortinas até ficar paralelo ao cabo. Aí eu me agarro no cabo e
flutuo pelos ares…
— Impossível.
— Sim, claro, é uma fantasia.
— E por que você tem essa fantasia? — disse ela, encucada.
— Não sei. Deixa pra lá.
Ela continuou olhando pra ele, quase aflita.
— Acho que é porque se sente um estranho no ninho. E aí
quer que algo extraordinário aconteça para provar às pessoas o
seu amor e dizer que merece o amor delas.
Ele acomodou a cabeça dela em seu ombro e deu um beijo.
— Às vezes tenho vontade de fazer picadinho de você.
Ela colocou a caixa de pastilhas no bolso e o enlaçou pela
cintura.
Passava da meia-noite quando saíram da ópera. Foram a
uma delicatéssen iluminada com luzes de neon e comandada
por garçons velhos de jaquetas vermelhas, em cuja maioria se
notavam cacoetes violentos nos maxilares. Daisy o convenceu
a pedir salada e milk-shake; estava preocupada com a sua alimentação
parca. Desconfortável, ele deu um gole no milk-
-shake e a observou comer seu salmão com cream cheese. Ela
falou sobre a relação terrível que tinha com o pai, enquanto fazia
pausas para abaixar a cabeça e bicar com a língua os farelos
de croissant caídos. Os garçons iam pra cima e pra baixo, alguns
segurando três pratos lotados de comida em cada uma de
suas mãos peludas.
Ele tentou convencê-la a tomar uns comprimidos para
conseguir render na noite com ele, mas ela disse que se sentia
culpada em relação ao David. E ainda tinha que terminar um
quadro. Ela respirou fundo e baixou os olhos. Tentou ir embora
quatro vezes, até que ele a deixou partir. Ele ficou observando
sua partida e pensou: “Acho que não dá mais tempo de comprar
jujubas”.
Quando abriu a porta de casa, Diane deu um tapa na cara dele.
De tão assustado não conseguiu ter nenhuma reação, ficou ali
parado e levou mais três tapas até que conseguiu detê-la pelo pulso.
— Escroto filho da puta! — gritou. — Você foi à opera com
ela! A ópera é um programa nosso, e você foi com aquela bisca!
— Eu não achei que você quisesse ir à ópera.
— Eu queria. Estava esperando você chegar do trabalho.
A voz marejada, resfolegante.
— Nunca imaginei que você fosse levar aquela bisca.
— Ela não é bisca.
Com a outra mão livre, ela agarrou a orelha dele. Deu um
puxão no lóbulo que fez cair seu brinquinho azul, que zuniu,
cintilou e rolou pelo chão.
— Merda! — gritou ele.
Ele ficou de joelhos e começou a tatear o chão.
— Já ouviu falar de autocontrole?
— Foda-se o autocontrole. Dá o fora daqui agora.
— Pode esperar até eu encontrar meu brinco?
— Foda-se seu brinco. Vai antes que eu te mate.
— Meu Deus, você perdeu as estribeiras.
Ela bateu a porta no grito e já do lado de fora ele esperava
ouvir os soluços de Diane. E nada. A orelha sangrava e seu rosto
ardia, mas, de um jeito esquisito, ele se sentia vivo. Lamentava
a tristeza de Diane, mas reconhecia a empolgação oriunda
de um acesso de raiva. Era o tipo de história que ele achava boa
de contar.
A rua zumbia de viciados e de crianças empunhando rádios gigantescos.
Eles se embaralhavam em fila em frente aos prédios
e escapuliam de buracos nas paredes e nas cercas de arame.
Cantavam anúncios enquanto ele passava: “Vai uma azulzinha,
vai a vermelhinha, tem a verdinha e aquela preta da semana
passada”.
Caminhou três quarteirões até chegar ao apartamento do
Eliot; não esperava que ele fosse abrir a porta, mas tocou a
campainha mesmo assim. Ficou surpreso quando a voz desconfiada
de Eliot ecoou do aglomerado de buraquinhos que servia
de interfone.
— É o FBI — disse Joey.
Um silêncio relutante serviu como resposta até o interfone
guinchar abrindo a porta. Quando Joey chegou na entrada do
apartamento, Eliot botou a cabeça pra fora, um dedo cobrindo
os lábios. Seu cabelo castanho penugento se insinuava como
um halo enevoado; os olhos redondos estatelados e umedecidos
entre os cílios finos.
— Não use a palavra “drogas” — sussurrou ele. — Se precisar
falar, diga “goma” ou “bala”, sei lá. Mas não dá pala!
— Tá limpeza — disse Joey.
— Fomos grampeados — explicou Eliot. — Botamos o apartamento
abaixo e não conseguimos encontrar a escuta. Certeza
que ninguém te seguiu?
Joey assentiu. Eliot esticou o pescoço e espiou pelo corredor
vazio, piscando os olhos úmidos com força. Enfim convencido,
deixou Joey entrar.
Rita estava deitada no sofá em frente a uma tv desmantelada
em que passavam imagens sem som. Seus pezões pendiam na
beirada do sofá, as mãos flácidas dependuradas em seus pulsos
finos de veias proeminentes. A cabeça caída para o lado, envergada
de seu pescoço delgado e apático, também quase caindo do
sofá. Quando viu Joey, levantou a cabeça e seus olhos sombrios
luziram.
Ele acenou pra ela e se sentou numa cadeira dura.
— A Diane me botou pra fora de casa — disse.
— Sério? — disse Eliot. Ele ficou de joelhos e começou a vasculhar
os vinis espalhados pelo chão.
— Mas tranquilo. Eu já queria cair fora também. Estou apaixonado
por outra pessoa. Meu lance com a Diane já era.
— Você tinha que ter tomado essa decisão há cinco anos —
disse Rita.
Eliot rodopiou pelo chão e balançou um vinil:
— Você tem que ouvir isso aqui. É a coisa mais incrível do
mundo.
— Meu Cristo, esse disco foi lançado há dez anos — disse
Rita. — Você é o único que ainda não tinha ouvido.
Eliot tirou o vinil da capa, jogou-a no chão e se ajoelhou em
frente ao toca-discos. Levantou a agulha, viu se estava tudo em
ordem e soprou com delicadeza.
Rita puxou as pernas compridas pra cima e se sentou estreitando
os joelhos ossudos, deixando os dedões recolhidos:
— Tá apaixonado por quem?
— Aí, ela ainda vê aqueles filmes caseiros idiotas de vocês
dentro da banheira — disse Eliot. — Ela assiste pra se masturbar.
É hilário. Ela mostra pra todo mundo.
— Quem é a garota? — perguntou Rita.
— A garota que trabalha lá no sebo, a Daisy.
— Ah, faz sentido.
Ela se curvou sobre a mesa bagunçada à procura de um fósforo.
Seus cabelos pretos caíram sobre o rosto num movimento
gracioso de asa dobrada. Recostou-se novamente, mostrando o
rosto. Os vincos sob os olhos eram profundos e enegrecidos, a
maquiagem borrada.
— Descola uma anfeta aí, Joe?
Eliot deu um pulo:
— Não diga essa palavra! — gritou.
— Ah o.k., babaca — disse Rita. — Me descola uma… meia?
— Claro.
Joey despejou umas pelotas coloridas na mão dela.
— Quer acabar com a minha raça? — perguntou Eliot, entredentes.
— Tá trabalhando pra eles, por acaso?
Joey deu uma olhada no ambiente; de fato tinham botado
o apartamento abaixo. Plantas mortas reviradas em seus vasos
quebrados, travesseiros abertos à faca soltavam uma espuma
amarela pelo chão, caixas de papelão abertas e vasculhadas. O
arquivo de papel estava tombado e de suas gavetas se desimpedia
um baile de papéis brancos. Ao menos haviam juntado os cacos
das garrafas quebradas.
A coleção de livros raros de Eliot estava a salvo e torreada
ao lado do sofá. Joey conseguiu enxergar os três Bartolov que
havia vendido para ele. Eliot ficara maravilhado ao descobrir
que o fornecedor de ecstasy de Joey era Alexander Bartolov, um
poeta famoso.
— Ah, Rita, por favor, só uma chupetinha — disse Eliot. —
Nem vou gozar, prometo.
— Me erra! — disse Rita.
Ela se recostou no sofá e pôs as mãos brancas como aranhas
sobre os olhos. Suas pernas compridas e frouxas lembravam o
gafanhoto alado do cartão de Dia dos Namorados de Daisy.
— Ela ainda tem tesão em você, Joey — disse Eliot. — De
vez em quando eu tenho que ouvir as histórias de quando você
a amarrava e descia o cacete nela.
— Será que podemos mudar de assunto? — perguntou Joey.
— Tá bom — disse Eliot, animadinho. — Preciso ir ao banheiro.
Fiquei enjoado.
— Nem se abale — disse Rita —, daqui a um minuto ele tá
de volta.
— Tô tranquilo — disse Joey.
Catou uma revista de cima da mesa. Estava aberta na fotografia
de uma mulher mascarada usando um traje vermelho
emborrachado que um homem insuflava com uma bomba de
ar. Na página seguinte, uma garota amarrada com cintos e
ajoelhada no chão de um banheiro. Um garoto de feição malvada
se aproximava dela por trás, segurando uma mangueira
de borracha; a garota olhava por cima dos ombros, os lábios
entreabertos expressavam um certo receio. Joey ficou surpreso
com a beleza da garota. As bochechas e os ombros lembravam
os de Daisy.
Daisy e Joey saíram do cinema de mãos dadas.
— Não temos pra onde ir — disse Daisy. — E já faz um mês
desde a última vez que conseguimos ficar sozinhos num quarto.
E o David não sai de casa.
Continuaram caminhando de mãos dadas.
— Eu me sinto muito mal em relação ao David — disse ela.
— Ele é uma pessoa tão boa, tão pura. É a pessoa mais pura que
conheço.
— Pessoas puras não existem.
— Você não conhece o David. Ele tem olhos puros, desarmados.
Todo mundo que se aproxima do corpo dele sente que não
existem barreiras — disse, olhando desconfiada para Joey. —
Você não é assim. Quando eu encosto em você, eu não sinto você.
— Não há o que sentir.
— Não fala isso — disse ela, soltando a mão e passando nas
costas dele com sua mão enluvada. — Mas que bom que você é
diferente do David. Mesmo que não fosse, sua gentileza ainda
me preocupa.
Ele pôs a mão em torno do pescoço dela.
— Não sei o que te faz pensar que tenho qualquer intenção
de ser legal com você.
Ela se virou e deu um beijo nele. Ele puxou o cabelo dela pra
trás com força enquanto a beijava.
Sentaram-se nos degraus frios de um prédio. Desabotoaram
os casacos e se abraçaram, as mãos dele enlaçaram seu corpo
macio sob o suéter.
— Você é tão esquisito — disse ela. — É difícil conversar
com você.
— Como assim?
— Você fala sem parar, mas não ouve o que eu digo.
— Pareço esquisito porque sou um cara especial.
— Acho que é porque você toma comprimidinhos demais.
— Você deveria começar a tomar também. Sabia que o governo
oferece aos soldados que estão indo pra guerra? Aguça os sentidos,
os reflexos, tudo.
— Não estou indo pra guerra.
Um barulho veio de cima. Olharam e viram um casal de meia-
-idade bonito e muito bem-vestido no topo da escada. Joey notou
um lampejo de admiração no rosto de Daisy enquanto olhava
para a mulher, uma mulher alta e loira com um vestido de gala. O
casal se pôs a descer a escada. Daisy e Joey se levantaram e se espremeram
num canto para deixá-los passar. O ombro do homem
trombou no de Joey. O homem tossiu, sem motivo algum.
— Perdão — disse a mulher. — Nós moramos aqui.
— Têm espaço de sobra — disse Daisy, afiada.
— Vocês não deveriam estar sentados aqui — disse o homem.
O casal ficou de pé na calçada fazendo cara feia, dava pra
notar a indignação pela postura dos ombros.
— Qual é o problema? — perguntou Daisy. — Não estamos
atrapalhando a passagem — disse, com voz estremecida.
— Psiuuu — disse Joey. — Deixa pra lá.
— Você é uma grossa — disse a mulher. — Se ainda estiverem
aqui quando voltarmos, vou chamar a polícia.
E saiu andando, arrastando o marido. Pareciam estar com
pressa.
Joey ficou olhando o vestido da mulher flutuando pela calçada.
— Que coisa — disse ele. — Eu já fiquei sentado em tantas
escadinhas de prédio e isso nunca tinha acontecido.
Daisy não disse nada.
— Acho que aqui no East Village é diferente.
Daisy fungou.
Joey enfiou a mão no bolso e tirou o saco de jujubas. Ofereceu
para Daisy, que o ignorou. Ela estava de cabeça baixa, lágrimas
silenciosas e lentas começaram a correr por seu nariz. Ele deu
um abraço nela e disse:
— Ah, para com isso.
Não houve reação. Ela não se mexeu nem olhou para ele.
Ele tirou os braços e olhou em outra direção, confuso. Comeu
as jujubas olhando o poste que iluminava a escuridão da rua.
PROPOSTA
Bem, é isso o que você vai contar: a história de um relacionamento que começa no trabalho.
Cada um dos personagens é casado com outra pessoa.
Conte do ponto de vista de um dos personagens.
Mas descreva cada um deles.
Use ações, cenas e diálogos.
Seus personagens trabalham em um serviço de merda.
Descreva o lugar onde trabalham.
Seus personagens odeiam seus conjes.
O protagonista (ou a protagonista) é quem tenta dar o primeiro passo.
Consegue? Não consegue? O objeto do desejo também quer? Ou não quer? Ou quer as duas coisas, o casamento e o caso com o colega? Onde eles se encontram?
O conto termina em final feliz, trágico ou aberto?
Faça seus personagens sofrerem das dúvidas e das delícias de um amor proibido.
Narre na terceira pessoa, entre 3 e 10 mil toques.
