É lógico

por Américo Paim

É lógico que ia dar naquilo.

Esqueci de colocar o despertador. Nem lembro o que comi no café, mas tinha gosto estranho. Torci para não ser nada vencido. O pneu arriado me obrigou a outro banho e consolidou o atraso para o dentista, no centro comercial na Pituba. Quando cheguei lá, só tinha vaga na rua, bem longe. Entrei no prédio. Elevador em manutenção. Subi os seis andares de escada. A pessoa que seria atendida depois de mim já tinha entrado. Não me avisaram porque o telefone deles estava com defeito. Maravilha. Sem opção por causa da dor de dente, esperei. Foi uma restauração e gastei bem mais que queria. Passei o cartão contrariado. Paguei a língua porque tirei a cobertura odontológica na renovação do plano de saúde, só para economizar. Como foi pouca anestesia, não saí de boca torta. Perdi a manhã. Tudo cancelado no escritório.

Na saída, o elevador já estava funcionando. Chegou, a porta se abriu e havia uma mulher. Cumprimentei. O aroma do perfume era delicioso. Regulava pela minha idade, com umas ruguinhas do início dos quarenta. Os cabelos pretos caídos sobre os ombros encobriam os detalhes da blusa bege. Tinha um colar de pedra azul na ponta. O rosto de pele muito branca com uma marca discreta acima do lábio, feito cicatriz. Esquisito a pessoa estar com óculos escuros em ambiente fechado. Ela os tirou assim que veio o tranco e a luz piscou. O elevador parou entre o quarto e o terceiro. Ela, no reflexo, pegou no meu braço.

– Ai, meu Deus, moço e agora?

– Calma, não deve ser nada demais.

– E se cair?

– Não, que é isso… Eles tavam consertando.

– Eu quero sair daqui!

Sua voz subiu. Tentou ler o papel colado à parede. Abriu a bolsa e catou os de leitura. Era só um aviso de condomínio. Foi aí que me deu um estalo de lembrança.

– Desculpe, seu nome é Valéria?

– A gente se conhece?

– Gabriel, seu colega no Dois de Julho. Lembra de mim, da 7ª série?

– Hein?

– Tá um pouco mudada, é verdade.

– Como assim?

– Mais bonita, se me permite.

– Ah, bom.

– Você usava uns óculos grandes, né?

– Operei faz tempo.

– Mas não conseguiu ler o aviso.

– Será que alguém sabe que esse troço parou?

– Claro, logo vão resolver.

Pegou o celular e devolveu com raiva. Parece que descarregou.

– Se quiser pode usar o meu.

– Não, obrigada.

– Tá tranquilo, sem problema.

– Preciso falar com minha secretária.

– Fique à vontade.

Não conseguiu porque não sabia o número de cabeça. Ninguém lembra mais disso hoje. O sinal também estava péssimo. Começamos a suar. Lhe ofereci o lenço. Fez cara de surpresa por um homem ter um. Lamentou que o dela estava no carro. Ela veio de táxi. Me sentei antes que a coluna reclamasse. Lhe convidei a fazer o mesmo, mas me olhou com desprezo. Do chão, frente àquele jeans preto, reparei que ela estava mesmo em ótima forma. Tentei quebrar a tensão de novo.

– Então, Val, o que faz da vida?

– Ninguém me chama de Val.

– Ah, desculpe aí. É que naquele tempo…

– Eu era outra pessoa.

– É mesmo. Outra pessoa.

– Que tom é esse?

– Nada demais, ué. Eu, por exemplo, você acha que mudei?

– Nem lembro de você. Fomos colegas mesmo?

– Oxe, claro.

– Como vou saber?

Citei nomes de pessoas com quem ela andava na escola: Julinha jaboti, Nádia, Patrícia telefone. Ela não tava gostando. Falou com algum descaso que nunca mais as viu. Insisti, ela desconversou. Mudei o rumo e sugeri que tirasse o salto alto, sem ironia. Sentar seria mais confortável e meu pescoço ia ficar duro olhando para cima o tempo todo. Aceitou.

– Não tenho contato com elas.

– Pois eu ainda falo com Mau Mau, Tabuada, Pente Fino.

– Quem são essas pessoas?

– Ah qualé…  

– Papo chato essa coisa de apelido.

– Eu acho graça. O meu era “jeguinho”.

– Horrível. Por quê?

– Não é isso que você tá pensando, não…

– Que risadinha é essa?

– Ah, todo mundo imagina.

– Eu não. E não quero saber. Muda, cacique.

– Rapaz, nunca mais ouvi isso!

– Não me adiantou antes e pelo visto agora também não.

Reparei que se emocionou. Colocou o Ray-Ban de volta e ensaiou se levantar. Segurei o seu braço. Ela chorou, discreta. Perguntei se tinha dito algo errado. Hesitou, mas contou. Disse que não gostava de apelidos, que sofreu muito bullying na mão daquelas meninas todas que se diziam suas amigas. Falava e soluçava. Ouvi tudo e disse a ela que não se incomodasse com coisa antiga, ninguém mais dava importância. Ela contou dos muitos anos de terapia e outros tantos de dieta para mudar o seu corpo. As meninas a chamavam de beluga, a baleia branca. Faziam isso só entre elas. Um dia, um namoradinho de uma deu com a língua nos dentes. Ela não aguentou, saiu da escola. Eu lembrava que ela não tinha feito a 8ª série lá. Na época falaram: “o pai foi transferido”. Até pensamos ser coisa da ditadura. Ela teve muitos problemas.

– Olhe, Val, você tá ótima.

– Valéria, por favor.

– Certo. Não é o fim do mundo. Ficou gata.

– Você é muito gentil. Gabriel, né?

– Isso. Essa coisa toda é chata mesmo.

– Nem me fale.

– Até que beluga é engraçadinho, né?

Deu um sorriso discreto, mas logo fechou a cara de novo. Voltou ao tema elevador parado. Mudei o papo e descobri que era empresária na área de cosméticos. Lhe contei que era engenheiro e fazia uns a mais como professor de Matemática em cursinhos e aulas particulares. Ela tinha raiva dos mestres. Se considerava abandonada por eles na época dos assédios. Falamos um pouco dos nossos casamentos fracassados e sem filhos. O calor só aumentava e surgiram barulhos e movimentos estranhos na minha barriga, que em um momento roncou alto e Valéria perguntou se eu tinha ouvido um barulho. A coisa avançou rápido e eu contornei o que pude. Já estava trocando as pernas e precisava aliviar de alguma forma. Sem alternativa, me entreguei. Foi discreto, silencioso, lento e longo, como a nossa espera no elevador quebrado. Cruzei os dedos, mas o ar mudou de viciado para pestilento. Não demorou nada e ela olhou para mim de uma forma que sou incompetente para descrever. Com a mão na boca, disse:

– Foi você?

– É lógico.

Silêncio. O elevador voltou a andar. Ela saiu sem olhar para trás, ignorando meus apelos por perdão e pelo número do seu celular.

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