Nina ponto Felpa

(Angélica)

Paro na frente de uma vitrine na rua Augusta, debaixo de um sol forte, e tento espiar o que tem lá dentro. Como o vidro está escuro, a única coisa que consigo ver é o meu reflexo. O vestido preto faz meu corpo desaparecer, deixando à mostra apenas os braços, o decote em v e o meu rosto. Numa espécie de trégua, algumas nuvens encobrem parte do céu e agora sem tanta luz, minha imagem se torna menos nítida e se mistura com as lingeries que surgem na vitrine. Brincando, vou pra ponta dos pés e começo a mexer o tronco pra que um sutiã vermelho que flutua, provavelmente suspenso por um fio de nylon, se encaixe nos meus seios. A ideia de que eles pareçam dois morangos me agrada.

Assim que vejo uma calcinha amarela, dessas cavadas e com um furo entre as pernas, dou um passo pro lado e logo paro porque percebo alguém se aproximar. Nina, Nina? Por não reconhecer a voz, travo meus ombros e desço os calcanhares. Antes de me virar, tento descobrir quem é pelo reflexo. Um cara alto, de pele clara, mais pra magro e um cabelo grisalho com uns tufos espetados. Usa uma camiseta branca que deve ser de alguma banda de rock. Sem encontrar nenhum rastro no meu cérebro, me volto pra ele e mesmo analisando sua fisionomia de perto, fico perdida no nariz aquilino e nos seus lábios grossos.

Ele abre um sorriso largo cheio de manchas de nicotina e me abraça. Não tenho como não retribuir e sorrio também. Pra minha surpresa, sua mão escorrega pro meu braço e me acaricia como se quisesse aliviar a dor de uma injeção. Constrangida, espero ele dizer qualquer coisa pra quebrar meu embaraço e pra que me dê alguma pista de onde o conheço. Depois do “acidente”, toda vez que me deparo com uma situação semelhante, preciso de um gatilho pra que minha memória volte, como uma música que você não lembra mais e ao ouvir o começo da melodia, ela vem inteira na sua cabeça.

– Quanto tempo, Nina! Você está ótima, até a covinha quando sorri é igual.

– Ah, não exagera, envelhecemos.

– Depois de todos esses anos fora, voltei de Nova Iorque, chega.

– Veio fazer o que aqui?

– Fechei um contrato com uma galeria.

Se ele tivesse dito que desenvolvia programas espaciais pra Nasa daria na mesma. Tento pensar em todos os amigos que desenhavam ou pintavam. O único que me vem à cabeça é um coleguinha do pré-primário que levava um desenhocop pro colégio. No carnaval, por ser obrigado pela sua mãe a usar uma fantasia de onça com um rabo enorme, chorou a matinê toda. Lembrei dele ao achar um colant de onça no armário e me espantou saber que eu vestia uma coisa como aquela, de qualquer maneira, voltou pra gaveta.

– Que bom, fico feliz, tomara que você faça uma exposição em breve. – O que não deixa de ser verdade, é sempre mais fácil se alegrar com quem a gente não conhece nem que seja por ter esquecido.

– E você? Me conta, o que você anda fazendo?

Assim que ele diz isso, dá um nó na minha garganta e engasgo. Por que não me pergunta se eu comi ovo com presunto no café da manhã? Minha vontade é de responder exatamente o que acabou de acontecer: tenho andado engasgada, um carburador sujo, não fui morar fora, passei minha vida toda em São Paulo. Nos últimos meses desci até o purgatório, não, foi uma ida pro inferno mas consegui uma passagem de volta ou não estaria aqui. Estou bem agora, apesar de às vezes tremer, é o efeito colateral de um dos remédios. Tive que parar de trabalhar por um tempo. Na verdade, demorei pra descobrir qual carreira eu queria seguir e por causa disso desperdicei um bom tempo trabalhando com coisas e lugares que eu detestava. Poderia continuar essa lista com uns mais cem itens. Mas respondi com uma palavra: escrevendo.

– Não sabia que você escrevia.

– Pois é, não sabemos muitas coisas um do outro.

– Sabemos sim, vai, Nina! Tudo bem que já passou muito tempo.– Diz isso franzindo os olhos e de uma forma meio malandra. – Você escreve o quê?

Sabemos? Será que eu já dei pra ele? Um ex-namorado? Ou era o amigo gay que eu fazia confidências? Procuro uma aliança e não acho, isso também não quer dizer nada hoje em dia. Talvez esteja casado com uma mulher de trinta e logo mais vai ter um filho, se já não tiver um esperando por ele em casa.

– Estou escrevendo um romance.

Minto. Não posso contar que meu livro está encalhado como se um braquiossauro tivesse entrado no mar, caído num buraco gigante e agora, com cabeça e um pedaço minúsculo do pescoço pra fora da água, procura desesperadamente uma saída antes que naufrague de vez. Escrevi apenas umas trinta páginas e não sei o que fazer com a história. Se minha cabeça ajudasse, podia ir pra frente, mas ela ainda tem me deixado na mão. Numa tentativa de descobrir seu nome e também pra mudar de assunto, pego meu celular na bolsa.

– Você tem Instagram? Me adiciona.

– Espera um pouco. Pode falar.

– Nina ponto Felpa.

– Felpa? Uma felpa que fura a pele?

Diz isso sem tirar os olhos da tela e desliza os dedos pelas fotos do meu perfil como se esquecesse que estou na sua frente. Mesmo sem saber se teve alguma intenção por trás dessa pergunta, fico gelada.

– Meu pseudônimo, achei que ficava melhor, as pessoas sempre pronunciam o meu sobrenome errado.

– Você ficou bem com os cabelos mais escuros.

Entro no aplicativo. @Montelosso começou a seguir você, sigo de volta. Me seguro pra não chamá-lo assim, não devia ser desse jeito que eu falava com ele. O mais estranho é ainda não ter me lembrado de nada, acho, e só posso achar, que por alguma razão meu cérebro está evitando abrir alguma porta.

Logo em seguida, ele olha o relógio e diz que precisa ir, tem uma reunião perto do Conjunto Nacional. Não esperava esse encontro, ficou muito contente em me ver e promete me mandar uma mensagem. Se despede com um beijo desajeitado e segura o mesmo braço que acariciou antes apertando um pouco.

Olhando ele subir a Augusta me dá uma sensação de que um pedaço de mim está indo embora, um pedaço que não sei qual é, um braço ou uma perna. Talvez um dia a cabeça dele tenha se encaixado nos meus seios como o sutiã vermelho. A felpa quando fura machuca a pele? Se um dia houve algo entre nós, quem se machucou? Sou uma idiota que sorriu pra um canalha? Ou eu que fui cruel? Ou nos machucamos mutuamente? Os morangos enganam, parecem doces mas são ácidos.

Deixe um comentário