O binóculo do Pai

Leandro Reis

Já não era difícil para Martim imaginar que a ideia ocorrera ao Pai durante o trajeto do porto até a casa morta, como uma epifania de caminhada, ideia que se tem por circunstância. Pensar no Pai andando pelo cais ao largo das muretas rachadas, absorvendo o pensamento como se respingasse nele. Algo solto no ar, esperando que o primeiro homem o acolha, um homem como o Pai, que não precisasse se justificar. E que transformasse a ideia em ação assim que abrisse a porta e visse os três à mesa, esfriando com as panelas no vento do mesmo cais que o tinha retornado à cidade.

Atravessando o vão da porta, a cara do Pai era um borrão, acima uma cabeça marrom e quadrada, com pintas demais na testa, pintas enferrujadas – provavelmente causadas pelo sol, o garoto pensava, porque tinha na cabeça a imagem do Pai tocando o piano na proa do navio, tão perto do sol como os navios que transitam no horizonte, quando o mar é também o céu. E para o Pai os três elementos da mesa também haviam se tornado figuras sem feição, a quem submeteria um tipo novo de anonimato, passando pela mesa em silêncio, arrastando as malas pela copa, pelo corredor, até o quarto do piano, onde se trancou.

Naquela noite eles jantaram, sem esquentar a comida fria. O garoto pensava – ou, muito mais tarde, já adulto, atribuiria a Joana aquela ideia – que a mulher não requentava a comida para tornar o pai presente, a ausência do pai sendo o silêncio da mesa e a temperatura da comida. O garoto pode ter pensado isso pelo modo como Joana comia, olhando para a Mulher, e não para ele – com quem costumava compartilhar caretas ou olhares ou palavras soltas durante as refeições, que só eles conheciam o significado e por isso a Mulher e o Pai não sabiam o que fazer, porque não gostar daquilo não era remédio e descobrir também não, um significado mutável é refratário a violências, Joana pode ter dito ao garoto mais tarde, ou mesmo naqueles dias tão iguais. Joana puxava com os dentes cerrados a carne do garfo, os olhos na Mulher. A Mulher olhava para a cadeira vazia do Pai, as mãos segurando as bordas da mesa como se fosse virá-la num surto. De sua cadeira o garoto via apenas a nuca da Mulher, seu rosto oculto. Mas Joana podia enxergá-lo, e não parecia gostar da expressão da Mulher, porque sustentava seu olhar tentando feri-la. Até que a Mulher se levantou, caminhou até a cesta de lixo e despejou a comida do prato, antes de passar pela mesa sem olhar para o garoto nem para Joana, e seguir para o quarto de dormir, de onde se ouviu a porta fechar muito devagar.

Tinha acontecido muitas vezes, sem aviso o Pai simplesmente se calar, não responder a perguntas ou saudações ou gritos da Mulher. Na manhã seguinte o Pai tinha amanhecido no quarto do piano, e quando se sentou à mesa para tomar o café da manhã, houve um momento em que todos imaginaram que voltasse a falar. Mas ele pegava o pão e passava a manteiga e despejava o café na xícara como se não houvesse ninguém. O garoto lembrava de um dia ou outro em que o silêncio havia se prolongado, um dia e uma noite, talvez três dias e duas noites, até a necessidade de responder ou verbalizar qualquer coisa, ou mesmo calar os outros dirigindo-lhes uma palavra, atravessar-lhe os planos. Joana já não estava na casa, tinha saído cedo para a faculdade, do contrário teria entendido a gravidade e a extensão daquele silêncio – Joana percebia as coisas, Joana era como uma antena da casa embora passasse cada vez menos tempo com eles. De modo que o garoto não conseguia adivinhar quanto tempo o Pai lhes forçaria aquele anonimato ainda persistente naquela manhã.

Porque persistiria também naquela tarde, e naquela noite na ideia gestada no caminho do porto até a casa morta, andando pelo cais e planejando um trajeto para os próximos dias, do quarto do piano até a cozinha ou ao banheiro, e de volta ao quarto, onde tocaria por algumas horas, mas de onde se notariam cada vez mais os longos intervalos sem qualquer movimento. E embora não fosse surpresa o silêncio do Pai, apesar de sua extensão inédita, ele se tornava mais grave na medida em que Joana se ausentava, não se sabia se por causa do silêncio ou contra ele. E então a solidão do garoto era pela primeira vez algo notável para ele, deitado no sofá da sala durante a madrugada, o sussurro de reza vindo do quarto da Mulher lhe causando arrepios. O garoto persistia na luz amarela da sala na esperança de ouvir os passos cuidadosos de Joana passando pela porta. Mas não era com eles que acordava, já de manhã, e sim com os pratos se chocando na pia da cozinha, as mãos ressentidas da Mulher que passara também a se calar – mas a se calar ruidosamente.

E assim foi uma semana, até uma hipótese começar a se formar. O garoto abriu a porta do banheiro para sair e o Pai passou justamente naquele momento pelo corredor, e no corpo do Pai alguma coisa se pendurava por um cordão preto. Sem ver o garoto atrás de si, o Pai entrou na cozinha. Quase naturalmente, ao ver a cena se armando, ao ver o Pai entrando na cozinha enquanto a Mulher mexia nas louças, o garoto recostou na parede do corredor e tentou distinguir os ruídos e as falas. O Pai não deve ter se atentado para o objeto que circundava seu pescoço, porque no segundo em que entrou na cozinha, talvez apenas para beber água, talvez esquecendo de interpretar seu papel de ausente, entregou-se ao hábito da sede. E por essa falta a Mulher não lhe perdoaria, inaugurando a palavra desde que a ideia do silêncio do Pai tinha infectado a casa: E isso no seu pescoço, Isso pendurado no seu pescoço.

A Mulher não sabia não se repetir, ou se disse outra coisa os ruídos dos pratos não deixavam o garoto entender. E parecendo saber disso ela recolheu as mãos. Mas o Pai não lhe respondia, pelo menos não com os sons que ela havia reintroduzido na casa morta, talvez o Pai a respondesse terminando de beber o copo d’água, ou enchendo ele mais uma vez, aproveitando a lentidão do filtro para não responder. E sem poder medir pelo som a cena que não via, o garoto terminou por se paralisar no vácuo, sentindo as costas suarem dentro da camisa.

Até que, sem aviso, o corpo sem alma do Pai tinha atravessado a soleira da cozinha e parava no corredor ao ver o garoto. De frente, o Pai lhe dava o objeto à vista sem a palavra que de qualquer modo não lhe diria nada: descia dos cordões pretos aquele objeto inédito igual a dois olhos esticados, muito esticados, como faziam os personagens de desenhos animados quando não acreditavam no que viam: ao binóculo o garoto atribuiria uma conotação mágica, um poder imóvel e de ordem soturna, como o contrário de uma cruz. O Pai parecia ler seus pensamentos, exibindo o símbolo satânico no peito. Ele se demorou nos olhos do garoto, obrigando-o a baixar a cabeça, e embora não pudesse ver os olhos do Pai os sentia se estender sobre seu corpo de garoto como uma teia. Sentia nos ossos que o Pai o esmagava.

A Mulher já tinha voltado com fúria aos afazeres domésticos, e os ruídos podem ter motivado o Pai a seguir o caminho até o quarto, os ouvidos de pianista eram sensíveis a barulhos dessa ordem, barulhos sem razão de ser. Então quando o corpo grande do Pai se agigantou ainda mais ao passar pelo garoto, ao mesmo tempo adquiriu uma consistência de vulto, era melhor ter um fantasma em casa do que um demônio vivo. Só no quarto do piano o fantasma e o demônio deixavam o corpo do Pai, escorrendo pelo vão da porta expulsos pelos dedos desamarrados do Pai, tocando as peças para as quais foram tantos anos treinados, a vida inteira, treinados a vida inteira para depender da vontade dos homens, naquele quarto sem plateia o Pai se vingava de si. E o garoto, colado à parede do corredor, cheio de raiva represada, não podia deixar de sentir alguma ternura, nem de se confundir com um sentimento bom que causava ainda mais raiva.

Um dia no passado ele tinha ouvido a voz do Pai naquela mesma mesa onde se encontravam três vezes ao dia, a voz do Pai dizendo para a Mulher que tocar no navio era tocar para uma horda de mortos-vivos, que não faziam nada senão falar e beber e comer, e que talvez pudesse matá-los tocando aquela música trivial e maldosa, que de qualquer modo já o matava também. Isso não disse, pode ser que quisesse dizê-lo mas não havia a quem – a Mulher não ouvia, mexia na comida dentro da panela, sem fazer menção de se servir mais –, e pode ser que o garoto tivesse imaginado a intenção na voz do Pai. Talvez o contágio das músicas escorridas pelo vão da porta o tivesse feito interpretar, deduzir emoções, saber de todas as coisas do Pai quanto mais distante estivesse.

Mas a Mulher não tinha essas prerrogativas, a ternura não lhe cabia porque a visão do Pai vagando pela casa em silêncio era a visão de sua sentença sendo renovada e executada. Assim que a música começava, ela saía da cozinha arrastando a sandália no piso de taco, sempre prestes a tropeçar na barra do vestido roçando nos tornozelos, e parava em frente à porta do Pai. E chutava a porta com a ponta da sandália, chutes fracos e ritmados, apenas o suficiente para serem notados em sua repetição. O Pai parava de tocar por alguns segundos, e a Mulher então parava de chutar; e quando o Pai recomeçava, ela também o fazia, às vezes ainda mais fraco, mas sem perder o padrão, parecia transfigurar a modulação da reza para o movimento dos pés. Então o Pai parava de tocar e abria a janela com um gesto intempestivo – e sonoro –, deixando a Mulher imaginá-lo inatingível com o binóculo na cara apontado para o porto, agravando qualquer significado que pudesse ter o seu silêncio na cabeça da Mulher. Nesse ponto a Mulher costumava chutar a porta com mais força, vacilando nos padrões que havia construído à perfeição como as peças clássicas do Pai. Mas como nunca havia resposta, ela eventualmente arrastava as sandálias para longe do quarto, até a cozinha ou o quarto de dormir, que o Pai não frequentava mais.

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