Ora aos calos, espremidos numa sapatilha 34, ora bambos, numa 35, meus pés passeiam doídos por esse pátio uma vez por ano. Únicos em tamanho e formato, amargam, há mais de meia hora, a espera de uma mesa na casa de chá. No reflexo da vitrine, do outro lado da galeria, vejo uma fulana sair corrida da loja de aviamentos. As fitas de cetim da entrada, numa tentativa desajeitada de me alertar, param em pleno voo. Cada pássaro do jardim, num pause longo, pescoços tensos e olhos arregalados pra cena. E ela, com passinhos resolutos de quem, decerto, não tem band-aids nos dedos, ao menos três sacolas em cada braço, é rápida e certeira demais para não estar vindo em minha direção.
– Menina, quanto tempo – diz, enquanto examina cada movimento de minhas mãos vazias de sacolas e cheias de não saber o que fazer – tu por aqui?
– Olá…
– É Drizella, rapaz.
– Eita, tá diferente.
– Pois então. E tu? Sozinha?
– Nada, esperando minha madrinha para a visita de primavera.
– Olha. Vocês se vêem sempre?
– Todo ano – mentira. Há sete anos marca e não aparece.
– Lembro tanto desse teu vestido.
Sei. É o mesmo vestido azul. Mas com botões novos. O da cintura, de todos o mais malvado, foi o primeiro. Um “puft” seguido do convite aos vizinhos. Arrebentaram uns quatro ou cinco. Os gominhos que acumulei nos anos de banquete, quando ainda havia banquetes, com os novos botões, estão agora tão sufocados quanto eu.
– É mesmo?
– E o sapatinho? Sem salto depois das crianças?
– Não é, menina – e monto um sorrisinho pontiagudo – tu sempre gostou daquele sapato, não foi?
Um a zero pra mim. Os banquetes não acabaram à toa. O príncipe herdeiro, como vocês bem sabem, frequentou bailes demais e aulas de administração de menos. O reino, por tanto, atravessava uma crise daquelas. Não há um único aldeão que não ostente, entre os seus pertences, uma joia, uma prataria, ou um tapete com o monograma real. Tudo adquirido nos bazares que organizamos para tentar desencantar a dívida – uma fábula. O sapatinho? Foi arremessado sacada abaixo pelo meu menino mais velho quando era ainda um bebê de colo. Era frágil – o sapato, não o menino – e quebrou-se em um sem fim de pedacinhos.
– Se não tivesse esperando alguém, te chamava para o café novo. Já foi?
– Não conheço.
– Tu ia gostar, tem lareira – ela devolve quase às gargalhadas, e tenta retomar a civilidade – E as crianças, como estão?
– Uns amores, ficaram com o Grão-duque. Lembra dele? – Rá, dois a um.
– Vou te deixar tranquila então. Aparece lá em casa, mamãe sente tua falta. Adorei te ver, tá uma gata.
Três a dois. Perdi. O telefone vibra e solta os brilhinhos que acompanham, ano após ano, as mensagens de desculpas da madrinha “nossa, me perdoe, meu amor, cheguei em casa prá lá de meia noite ontem, acordei agora, ando exausta, vamos deixar pra uma próxima”.
E ligo pro cocheiro que não atende, e levo meus pés 34,5 pra uma voltinha, e entro na sapataria e “não, senhora, não trabalhamos com meio número”. E já é fim de tarde. Cruzo mais uma vez Drizella no estacionamento. Abano meu melhor tchau de rainha sentada na beiradinha da carruagem. Divido um cigarro com os ratinhos enquanto tento limpar o presente que uma pomba falante acaba de me deixar nos ombros.
– Ui, desculpa. Não vi que era tu, Cinderela, quanto tempo!

